The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Anos 90

VAughan Oliver 4AD001

Tenho andado com uma nostalgia cada vez maior pelos anos 90. Ponho-me a ver pela noite fora os primeiros filmes do Tarantino, incluindo os seus derivados mais fracos, como o True Romance, ou o mal envelhecido Natural Born Killers, subproduto óbvio da moda dos serial killers, que começou com O Silêncio dos Inocentes, se prolongou pelo Se7en e pelo Kalifornia, e cujos efeitos ainda hoje se sentem.

Como seria de esperar, dentro da minha nostalgia, cinema e design estão ligados: foi com o genérico do Se7en, por exemplo, quase no fim da década de noventa, que os serial killers consolidaram a sua imagem gráfica: montagem aos solavancos, diários manuscritos em letra miudinha, páginas de livros arrancadas, recortes de jornais, tipografia rabiscada, ilustrações escarafunchadas.

Graças a estes tiques, o genérico do Se7en acabava por ser um dos últimos sobreviventes de certo design dos anos noventa, que eu associo sobretudo a Vaughan Oliver e à 4AD, mas que também inclui as bandas desenhadas de Dave McKean e, mais indirectamente, as revistas de David Carson[1] – é curioso que um estilo que eu achava tão elegante e cerebral quando comecei a estudar design se tenha tornado entretanto num sinónimo de doença mental e agressão[2].

No começo da década de noventa, os meus professores ainda apontavam as ilustrações em cores vivas e cartoonescas dos Push Pin como um exemplo a seguir, mas eu achava-as demasiado empresariais, e é natural, portanto, que as texturas sombrias, os layers, a sujidade elegante das capas da 4AD me parecessem uma alternativa mais nova e excitante, tendo em conta que as suas características eram cirurgicamente opostas a tudo aquilo que tinha estado na moda na década anterior.

Usar esse estilo nos meus trabalhos parecia-me tão inevitável como uma lei da física mas, lá no fundo sabia que, mais tarde ou mais cedo, iria passar de moda. Uma das primeiras coisas que aprendi quando entrei para Design foi que todos os anos havia uma fonte que toda a gente usava e que no ano seguinte ninguém seria apanhado a usar. No entanto, havia uma espécie de transe que nos levava a pensar que aquela fonte vinha resolver tudo e parar finalmente a história. Às vezes, acho que seria mais saudável que o design gráfico não tivesse tantas ilusões de intemporalidade e usasse um vocabulário de ciclos, tendências e estações como o design de moda.

Agora, depois de quase uma década de gráficos vectoriais com gosto Arte Nova, a fazer lembrar os anos 60, 70 ou 80, sinto alguma saudade dos anos 90. Depois de quase uma década de fontes de inspiração histórica, recolhidas com muito rigor em velhos alfarrábios e manuais de caligrafia, sinto falta da anarquia tipográfica dos anos noventa, das chamadas Guerras da Legibilidade. É óbvio que é uma contradição sentir nostalgia por uma época tão obcecada pelo novidade, no entanto, ainda assim, sinto-a.


[1] Tanto Oliver como McKean e Carson já tinham começado a trabalhar nos anos oitenta, mas só comecei a sentir a sua influência no começo da década de noventa.

[2] Steven Heller, que chamou a este estilo “O Culto do Feio” num ensaio com o mesmo nome, concordaria sem dúvida com a associação.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ensino, História, , , ,

6 Responses

  1. Ana diz:

    Explique-me porque usa a palavra “fonte” (e porque se generalizou o seu uso) para designar o tipo de letra. Se a ideia é remeter para o inglês “font” (em si tb uma derivação do mais correcto “typeface”), colocar “e” final só confunde e fica mal. Parece-me, pelo que andei a ver, que o “font” inglês e o “fonte” francês têm por base a ideia do molde com que se faziam as letras, mas acho que a palavra portuguesa não. Podia dizer-se simplesmente “tipo”, de “tipografia”. Não?

    • Há quem diga que um tipo é como se fosse uma música e que uma fonte seria uma cópia específica dessa música – por exemplo um determinado CD que alguém compra numa loja. Dito de outro modo, um tipo seria como uma ideia e a fonte seria uma manifestação física dessa ideia.

      Existe, no entanto, uma falha grave nesta analogia musical: seria bastante irritante se, sempre que um crítico de música quisesse escrever sobre um CD, aparecesse alguém a dizer que é incorrecto usar o termo “CD” e que deveria antes ser usado o termo “música”; no caso do design, infelizmente, sempre que um incauto usa a palavra “fonte” aparece logo um designer a queixar-se.

      Se os designers escrevessem mais, saberiam que, quando se escreve, para as coisas não se tornarem cansativas, é preciso usar alguns truques. Um deles é a metonímia, que consiste em substituir um palavra por outra que lhe esteja associada. Por exemplo, em vez de “tipo” usa-se “fonte”. É claro que, se for especialmente importante distinguir rigorosamente entre os dois termos, convém não usar metonímias. Mas, tendo em conta que, no âmbito deste artigo, não consigo vislumbrar nenhuma utilidade em distinguir entre “tipo” e “fonte”, prefiro usar “fonte”.

      PS- “font” não é derivado de “typeface”. “font” deriva do francês “fondre”, que significa fundir. “typeface” significa literalmente a face ou superfície de um caracter tipográfico.

  2. m. diz:

    Eu também sinto saudades dessa anarquia.

  3. jnaper diz:

    “Às vezes, acho que seria mais saudável que o design gráfico não tivesse tantas ilusões de intemporalidade e usasse um vocabulário de ciclos, tendências e estações como o design de moda.”

    Cada vez partilho mais desta opinião. Como acontece também na música, cinema e outras artes. Como na vida. O design também deve servir o melhor dentro de um certo espaço físico e temporal. Aparte os logotipos, que devem ser pensados para um ciclo de uns anos, penso que não deveriam existir receios dos designers em assumir algumas escolhas na vez de procurarem insistentemente a intemporalidade no seu trabalho.

    Os revivalismos são bons. Desde sempre a História se encarregou de os identificar, mesmo aqueles que não são perceptíveis em objectos conotados como “originais”, mas que depois se descobrem referências no passado. Tal como uma música que deixamos de ouvir durante um tempo e depois quando a redescobrimos voltamos a ouvi-la insistentemente e com um prazer semelhante ou até maior.

    A “originalidade”, neste caso, prende-se com a pertinência de inspiração num certo revivalismo, num determinado momento. E não deixa de ser uma coisa nova, se devidamente reinterpretada. Não deveria existir um medo tão grande em pertencermos a coisas, em citaremos coisas no nosso trabalho.

  4. Tenho visto muita coisa a cheirar a anos 90, principalmente em desenho tipográfico.

    Às tantas, o saudosismo é preunúncio. 😉

  5. Pedro Neta diz:

    A propósito to genérico do Seven, um site a não perder: http://www.watchthetitles.com/

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