The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

(A Suivre)

a suivre

Ainda criança, o designer americano Frederic Goudy já tinha uma paixão muito grande pelo desenho de letras, chegando, em certa ocasião, a decorar a igreja da sua terra com mais de três mil letras, ilustrando passagens das escrituras.

O caso, contado mais tarde por Goudy e citado por Meggs na sua história do design gráfico, dá a ideia do design como uma vocação, algo que não se aprende, mas nasce connosco – uma pretensão um tanto ou quanto irónica, tendo em conta que, no tempo de Goudy, o aprendizado da tipografia era bastante mais próximo do trabalho infantil puro e simples do que do ensino universitário dos dias de hoje.

A história de Goudy não é, evidentemente, um caso isolado e, ainda hoje, é comum os designers mais conhecidos gabaram-se da sua vocação da mesma maneira, invocando os logótipos de bandas ou de automóveis que copiavam nas margens dos cadernos pautados durante o Liceu.

Pela minha parte, não posso dizer que tenha sido um designer gráfico precoce. Antes de vir para design, não me preocupavam muito as formas das letras ou a qualidade dos logótipos. No entanto, houve momentos em que, retrospectivamente, coisas como o aspecto gráfico de um livro ou de uma revista me impressionaram. Não posso, contudo, dizer que essa reacção fosse sistemática. Não se tratava tanto da confirmação da minha vocação de designer como da demonstração da capacidade do design gráfico para impressionar uma pessoa qualquer.

Muitas das ocasiões em que – ainda antes de saber que havia uma palavra e uma profissão para isso – comecei a reparar no design  tiveram a ver com a revista Tintin. Foi lá que, pela primeira vez, uma peça de design me impressionou: o desenho de um punk de óculos escuros feito pelos Bazooka. Visto agora, é um desenho de moda típico do final dos anos setenta, inícios de 80, mas, para uma criança de seis anos, era de tal maneira violento e estranho que metia medo, nem tanto pelo seu assunto, como pela forma como era apresentado, pelo seu grafismo.

Havia outras impressões mais positivas, como as piadas tipográficas que, muitas vezes apareciam na capa. Lembro-me de uma em que o nome da revista aparecia repetido como se fosse um erro da gráfica ou de outra em que um cicerone mostrava a capa a uma série de turistas como se fosse monumento. Estes trocadilhos meta-narrativos – talvez fosse melhor chamar-lhes meta-trocadilhos – tinham a virtude de darem a ideia que aquela revista era mais do que um mero contentor mas uma coisa viva, auto-consciente, que saltava em direcção ao leitor.

Foi também através da revista Tintin que fiquei a conhecer outro bom exemplo deste tipo de estratagema, a revista de banda desenhada francesa (A Suivre). Como publicação era mais cerebral que o Tintin, propondo-se trazer a banda desenhada para um público mais adulto. O melhor símbolo disso era o seu nome, uma ampliação do pequeno aviso que, no final de uma página indicava, entre parênteses, que a história continuava no próximo número – em português seria “(continua)”, em francês era “(à suivre)”. Ao usar esta indicação utilitária como nome e como logótipo, estava-se a homenagear de modo elegante toda uma tradição de publicação periódica de banda desenhada. Esta elegância era prolongada e sublinhada pelo design gráfico quase monocromático da própria revista, da autoria de Étienne Robial, um designer ligado à revista Metal Hurlant e às capas das edições Futuropolis.

Escusado será dizer que, quando comecei a desenhar a lápis nas bordas de cadernos as capas dos meus futuros fanzines, eles se pareciam o mais possível com a (A Suivre).

Filed under: Design

4 Responses

  1. Ainda tenho 1 deles bem guardado.

  2. A (A SUIVRE) que me “caçou” foi a que trazia na capa um detalhe da história “Tenoctitlan” de Muñoz e Sampayo (n.º 77). Dias seguidos a olhá-la do outro lado da montra na única livraria da cidade. Janeiro de 1985: de como as boas revistas de BD separavam os miúdos que ainda liam revistas de futebol (a ONZE, no caso) dos homenzinhos que já folheavam coisas do Muñoz, do Loustal, do Tardi. Além disso, era uma revista muito bem composta, com um layout muito sólido e um excelente logo. Depois banalizou-se.

    Pedro Marques

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