The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Piratas de Manhattan

they live

Um dos meus posts favoritos de um dos meus blogues favoritos, o BLDGBLOG, descrevia a maneira como, em Manhattan, onde o espaço é cada vez mais caro e os apartamentos cada vez mais pequenos, os habitantes começavam a sonhar que as suas casas cresciam, com quartos ou mesmo outros apartamentos aparecendo onde, durante o dia, só havia um armário ou uma parede. Apropriadamente, e por mais que procurasse, nunca mais consegui encontrar esse post, levando-me a pensar que talvez tenha sonhado com ele[1].

Aquilo que me agradava na escrita de Geoff Manaugh, o autor do BLDGBLOG[2], era o modo oblíquo como falava sobre arquitectura, conseguindo, a partir de uma observação banal, uma frase solta num jornal, um detalhe num livro de ficção científica ou no cenário de um jogo de computador, extrapolar uma visão excêntrica mas sedutora do mundo. Um post podia descrever um hipotético clube de pescadores que se reunia em certas caves da ilha de Manhattan para, através do uso de alçapões, tirar partido dos rios subterrâneos da cidade. Outro sublinhava uma observação solta no livro The World Without Us, de Alan Weisman, onde se dizia que, devido á queima de combustíveis fósseis, se tinha deslocado uma camada geológica inteira para a atmosfera, sendo este “redesign” um dos maiores e mais duradouros artefactos produzidos pela humanidade.

Muitas vezes me perguntei se seria possível – ou até interessante – produzir artigos deste género em relação ao design gráfico. Numa das poucas vezes em que o tentei conscientemente, imaginei o que seria uma fonte onde os acentos teriam mais destaque que as letras, arrastando-se atrás delas como insígnias ao vento. Seria inteiramente banal quando usada em Inglês, mas tornar-se-ia flamejante em Português, Castelhano ou Francês. Em outra ocasião, ainda como aluno, imaginei uma paginação feita apenas com guias do Freehand e que ficaria invisível se fosse impressa, uma mensagem secreta que só poderia ser lida por designers.

As poucas coisas deste género que vi em outros blogues, revistas ou livros resumiam-se também a ideias mais ou menos humorísticas como estas. Um bom exemplo são os posts do blogue Ironic Sans, cujo próprio nome vem da ideia de uma hipotética fonte serifada que seria – ironicamente – sans. O resultado destas experiências é, em geral, divertido, mas não consegue, de forma alguma, alcançar a complexidade das fantasias urbanas de Manaugh.

Seria interessante se o design gráfico conseguisse inspirar a ficção do mesmo modo que os espaços urbanos mais banais inspiraram as distopias de escritores como JG Ballard – uma das influências de Manaugh. Por exemplo, num dos melhores livros de Ballard, Concrete Island, uma versão do Robinson Crusoe, um arquitecto que volta para casa ao fim do dia despista-se num triângulo de vegetação no meio de uma via rápida nos arredores de Londres, acabando por ficar a viver lá indefinidamente.

Este tipo de exemplos pode levar à conclusão prematura que a arquitectura e o urbanismo são melhores temas de ficção porque afectam a vida das pessoas de uma maneira mais importante que o design gráfico. Contudo, e como é possível ver no cinema de ficção científica, a construção do design gráfico de uma sociedade inventada é tão importante como a sua arquitectura, chegando a ser, por vezes, um elemento decisivo na narrativa – no filme They Live, de John Carpenter, por exemplo, uma invasão extra-terrestre só é revelada através de publicidade subliminar em cartazes e outdoors. No entanto, e apesar de tudo isto, parece improvável que apareçam formas de ficção inspiradas em serifas e jpgs, onde “espaço negativo” não seja o nome de uma estranha dimensão onde as leis habituais da física não se aplicam.

Ainda assim, mesmo escritores tão respeitáveis como Jorge Luís Borges construíram muitos dos seus melhores contos especulando sobre a forma dos livros, imaginando o que seria um livro infinito, um livro combinatório ou um livro circular. Outros autores, como Grant Morrison, escrevem bandas desenhadas onde a narrativa assenta na descontextualização dramática de formatos clássicos de design. Numa das suas histórias, por exemplo, uma sociedade de piratas sem-abrigo vive nos túneis do metro de Nova Iorque, usando carruagens como navios para abordar outros comboios ou tomar de assalto estações. Os capitães de cada tribo têm nomes como “All Beard”, “No Beard” ou “False Beard”, e procuram um mapa das linhas de metro secretas de Nova Iorque que já só existe como uma tatuagem nas costas de um dos sem-abrigo, uma espécie de mapa do tesouro gravado em pele humana no mesmo estilo do diagrama do metro de Londres de Harry Beck.


[1] Acabei por o reencontrar.

[2] Que editou recentemente um livro.

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