The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Fantasmas

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Estas são duas imagens de Michael Jackson. A primeira é de um artigo na revista Ebony, de Agosto de 1985, que apanhei há alguns dias no ffffound, ilustrando qual poderia ser o aspecto de Jackson no ano 2000. De acordo com o artigo que acompanha a imagem, os editores tinham pedido a um artista de Chicago, Nathan Wright, para mostrar como estariam uma série de figuras afro-americanas daí a quinze anos. Segundo se pode ler na legenda da imagem: “Aos 40, [Jackson] terá envelhecido graciosamente e terá um visual mais maduro e atraente. No ano 2000, o número dos seus fãs terá multiplicado por dez.”

A imagem ilustra também que ninguém poderia adivinhar como seria realmente Jackson no ano 2000; ninguém poderia prever os escândalos e as plásticas. Esta imagem faz um bom conjunto com aqueles livros, ilustrações e filmes que, ao longo de todo o século XX, previam carros voadores, casas robotizadas, viagens turísticas interestelares e bases lunares – tudo com o prazo de validade apontado também para o ano 2000. Ao olhar para estas imagens de retrofuturismo sente-se uma espécie convoluta de nostalgia – saudades de um passado em que se esperava um futuro melhor. Não exactamente um pessimismo, mas um optimismo estranho.

A segunda imagem é um bom exemplo deste tipo de sensação. Já a tinha referenciado no Coisas Avulsas. É uma simulação, usando técnicas mais ou menos forenses – na verdade, muito photoshop –, mostrando como Jackson seria na sua idade actual, sem as suas plásticas. Ao contrário da anterior, não mostra o futuro mas uma realidade alternativa onde as coisas teriam corrido, sem dúvida, de uma forma melhor.

O facto da primeira ter sido feita por um artista e a segunda por peritos forenses dá a entender uma diferença fundamental entre Agosto de 1985 e Agosto de 2008, as datas das duas imagens. Nos anos 80 ainda não haviam séries de televisão especializadas em técnicas forenses, embora já se desse passos nessa direcção – a primeira vez que ouvi falar de uma reconstrução facial a partir de ossadas foi no livro Corgy Park, escrito em 1981 por Martin Cruz Smith e adaptado ao cinema dois anos depois. Na altura, a ideia parecia macabra e inesperada: moldar com plasticina e olhos de vidro a aparência de uma pessoa a partir da sua caveira.

Entretanto, a ciência forense iria entrar na moda. Procedimentos policiais que seriam considerados entediantes tornaram-se pretexto para séries de acção – para quando uma série sobre brigadas fiscais ou sobre a polícia de trânsito? Na TV Cabo é costume ver a ciência forense aplicada a descobrir como morreu uma múmia ou como decorreu realmente um duelo lendário do Velho Oeste. Fica a sensação que vivemos num mundo em que o crime – presente, passado e futuro – pode ser erradicado recorrendo à ciência.

Mas a “fotografia” de Jackson demonstra os problemas da proliferação deste género de imagens. Tal como nos habituamos a ver em séries como CSI, as técnicas usadas para simular Michael Jackson aos 50 anos são as mesmas que se usa para simular a aparência de crianças desaparecidas – como no Caso Maddie, por exemplo. Não é de todo inocente a aplicação deste género de técnica a uma figura como Jackson, uma antiga criança-estrela entretanto acusada de abuso de menores – é, essencialmente, uma conotação de perversão feita em termos puramente visuais. É como se ilustrasse o próprio Jackson enquanto criança desaparecida – no fundo, enquanto raptor de si mesmo.

Filed under: Não é bem design, mas...

3 Responses

  1. Mário, o teu texto fez-me lembrar um outro sobre as questões inerentes à manipulação fotográfica, desta feita não de pessoas mas de objectos inanimados {embora Michael Jackson esteja a meio-caminho das duas coisas… lol}.

    Poder ser que te interesse {até pode ser que já tenhas topado a polémica} e, quem sabe, origine mais um texto teu – http://criticalterrain.wordpress.com/2009/07/23/truthy-lies-photographers-speak-out-on-edgar-martins/

  2. Ai, cá estou de novo a lançar desafios…

    O meu amigo Pedro Magalhães postava no outro dia {http://margensdeerro.blogspot.com/2009/07/estes-romanos-sao-loucos.html} acerca de uns boletins de voto num recente referendo em Itália. O tema {boletins de voto} já dava um texto por si, mas estes boletins davam uma tese.

    Vale a pena explorar. O link para os ditos está num dos comentários ao post original.

    Abraço.

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