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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Design no Museu

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Tal como já tinha dito há algum tempo atrás, das coisas que mais me aborrecem dentro das discussões sobre design são aquelas pessoas, na sua grande maioria ligadas às artes plásticas, artistas, críticos e comissários, que acreditam que não há nenhuma razão para haver um museu do design ou, nos casos mais extremos, que não deveria haver sequer exposições de design. Os argumentos que usam para justificar a sua posição são muitos e variados; praticamente todos implicam um profundo desconhecimento do que é o design e noções muito restritas do que é um museu ou mesmo do que significa expor.

Uns acreditam que o design é uma coisa demasiado supérflua e comercial para estar num museu. Tendo em conta a tendência neoliberal para cortes de financiamentos públicos nos museus e a necessidade subsequente destas instituições terem de recorrer cada vez mais à publicidade e ao marketing para sobreviver, há quem acredite que expor design é uma cedência demasiado grande ao espírito do capitalismo. Na verdade, trata-se de uma falácia: expor um determinado objecto ou assunto não implica concordar com ele. Pode-se fazer uma exposição sobre Salazar, sem se ser de modo algum Salazarista; pode-se fazer uma exposição sobre a Alemanha de Hitler sem se ser um nazi. Ou seja, muitos objectos são expostos pelo seu valor documental e não pelo seu valor ideológico, estético ou funcional. Mais ainda: uma exposição sobre o design da Bauhaus, sobre Neville Brody ou sobre a revista Orfeu não implica que um museu se esteja a vender mais do que ao fazer uma exposição sobre Rauschenberg ou Picasso. No caso de um museu que não esteja directamente relacionado o design, pode ser que até perca público ao expô-lo.

Neste momento, o acto de expor o que quer que seja, num museu, numa galeria ou na rua, está inevitavelmente ligado ao discurso de legitimação das artes plásticas contemporâneas, mas a função do museu como pólo de legitimação só faz realmente sentido dentro das artes plásticas contemporâneas e é uma distorção do papel habitual de um museu – pense-se num museu de arte antiga, de artesanato, da imprensa ou num museu militar, por exemplo, onde aquilo que é exposto serve apenas um propósito de conhecimento ou de entretenimento, conforme as necessidades do seu público. As peças expostas neste género de museus estão também sujeitas a actos de legitimação, mas estes são feitos de acordo com os métodos da história, que instituem os objectos expostos enquanto documentos. No caso da arte contemporânea, pelo contrário, onde se expõe habitualmente artistas vivos, inscritos no  mercado da arte nacional ou internacional, é evidente que o acto de expor influencia o valor económico dos artistas e objectos expostos. Por outras palavras, quem se dedica a acusar de comercialismo um museu que expõe design, deveria talvez questionar a existência dos museus de arte contemporânea – não da forma intelectualizada como a arte anti-institucional o faz, mas defendendo mesmo o corte dos fundos e eventual extinção deste género de instituições. Seria uma posição estúpida, sem dúvida alguma menos popular, mas muito mais coerente.

Este género de argumentos implica que quem os usa não aprecia particularmente o design, no entanto também há pessoas que gostam de design – inclusive designers – que acreditam que não se deveria expor design num museu. Para eles, o design é uma coisa efémera e pragmática que é inevitavelmente morta quando é posta num museu: um cartaz deixa de ser um cartaz quando é exposto num museu; uma revista atrás de uma vitrina não cumpre a sua função, e por aí adiante. Este argumento é muito semelhante ao daqueles que acreditam que não se deveria expor num museu certos assuntos ou artistas, nomeadamente quando estão ligados a formas de contestação politica e institucional, e que acreditam que fazer uma exposição sobre o punk num museu, por exemplo, é falsear os princípios do punk ou que fazer uma exposição documental sobre arte anti-institucional é uma contradição. Mais uma vez importa aqui fazer uma distinção entre expor um objecto pelo seu valor estético e expô-lo pelo seu valor documental – fazer uma exposição sobre artesanato Azteca só é uma deturpação do modo de vida Azteca se contiver erros factuais. Expor design ou outra coisa qualquer é sempre – com a excepção possível das instalações site-specific – uma descontextualização. Um objecto é retirado do seu ambiente, função ou época e colocado perante um público. No entanto, se se perde autenticidade – o quer que isso seja –, ganha-se também conhecimento no processo.

É verdade que Foucault, por exemplo, definia o conhecimento como uma forma de poder, e que instituir algo como um objecto de conhecimento implica sempre que esse objecto se torna alvo de um processo de poder. Edward Said, usando os métodos definidos por Foucault, dava o exemplo do Orientalismo, um campo disciplinar que instituía o Oriente como um objecto de conhecimento, visando sustentar o seu domínio por potências coloniais. O Orientalismo dava a entender que só o Ocidente podia produzir um discurso sobre o Oriente e que os povos entendidos como Orientais não estariam habilitados a fazê-lo por si sós, precisando de alguém que fizesse isso por eles – no caso, as potências coloniais europeias. Acreditar que tornar o design, o punk ou a arte politica num objecto de conhecimento é uma forma de silenciamento pode até ser verdade em alguns casos, mas é um problema que não se resolve simplesmente excluindo-os do museu – se colocar coisas num museu é uma forma de poder, exclui-las para sua própria protecção é uma forma insuportável de condescendência e mesmo de controle.

Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Design

19 Responses

  1. joana diz:

    E não haverá outras formas de fazer uso de poder fora do Museu?
    Nomeadamente ao exclui-las? – para além de ser “uma forma de condescendência”.

    • A exclusão é sempre uma forma de poder, quer como forma de condescendência – na sua vertente “positiva” –, quer como forma de marginalização – na sua vertente “negativa”. De acordo com Foucault, o museu, ou qualquer outra instituição, exerce o seu poder mesmo sobre objectos e sujeitos que parecem ser-lhe alheios. Ao serem excluídos pela instituição ou ao decidirem excluir-se a si mesmos participam da mesma forma no processo de confirmar o poder da instituição. No que diz respeito ao poder, tal como é entendido por Foucault, ou está a ser exercido ou então não existe – não há poder em potência. A chave é perceber que neste esquema o poder não é exercido apenas por parte da instituição, mas conta com a participação activa das pessoas sobre as quais é exercido. Se elas modificarem o modo como participam nele, o poder também muda.

  2. joana diz:

    (possivelmente não publicável – deixo ao teu critério)

    …ou a condescendência é aqui uma forma de controle?

    Outro exemplo, não imagino alguém a ser excluído de um meio académico por ter uma opinião crítica em relação ao ensino. Penso que é bem-vindo que tal aconteça. Eu sei que podes não ter a mesma opinião, mas parece-me que é assim.

    – E o Museu não será também sítio para discussão e dialogo com o seu contrário?

  3. joana diz:

    já respondeste, bahhh!

    • – Em relação ao ensino em geral não, mas em relação a instituições de ensino em particular, claro que sim. Há pouco tempo, li na New Yorker um artigo sobre uma académica que esteve em vias de ser despedida da universidade de Columbia por ter feito um trabalho de investigação sobre a forma como Israel construía a sua identidade nacional a partir da arqueologia, salvo erro usando uma metodologia próxima da de Foucault. Um grupo de pressão pró-Israelita americano tentou despedi-la por alegado anti-semitismo, apesar dela ter desenvolvido o seu trabalho em Israel, com o apoio de académicos israelitas. Curiosamente, a universidade de Columbia é considerada o berço dos estudos pós-coloniais por ter sido o sítio onde Edward Said dava aulas. Seria de esperar que fosse um sítio que convivesse bem com a dissensão. Já não me lembro como terminou a história.

      – “O museu como sítio de discussão e diálogo com o seu exterior” é o que vem escrito na página de abertura de todos os museus. Não acredito que nenhum museu defenda o oposto. No entanto, e como já tinha sugerido no comentário anterior, as instituições criam o seu exterior, com o qual discutem nos seus próprios termos. Mais uma vez, cabe a cada um decidir qual é a sua posição.

  4. joana diz:

    Bom, eu disse contrário e não exterior…
    Mas percebo, pelo que dizes, que há um exterior heterogeneo que contém posições contrárias – ou melhor, divergentes (?).

    • Na verdade estou a usar as expressões como sinónimas: as instituições procuram o mais possível representar elas mesmas o seu exterior e o seu contrário. A citação de abertura do Orientalismo de Said é de Karl Marx e diz:

      “They cannot represent themselves; they must be represented.”

      A instituição tenta o mais possível falar em nome do outro, quer quando o inclui, quer quando o exclui. Cabe ao outro reclamar a sua própria voz.

  5. joana diz:

    Agradeço a tua disponibilidade, mas aproveito só para dizer que quando o design tem sido exposto (na Culturgest ou no Museu de Serralves) em sítios normalmente associados à arte contemporânea, muita gente se prontifica a dizer que “aquilo” não é arte – nomeadamente os próprios responsaveis pela mostra. O que é muito estranho – será consciente?

    Por outro lado, isso não acontece com outras áreas, p. ex. dança e o teatro, onde é bem vista a “contaminação” entre elas.

    p.ex. no caso da Extended Captation, independentemente de ser ou não arte, foi talvez a melhor exposição dos últimos tempos no Porto.
    Se calhar por questionar precisamente o campo artístico enquanto englobador de tudo menos de design.

    • Concordo e acredito que é consciente. A arte ou design que considero mais interessante neste momento mistura arte, design, escrita, edição, etc. Cá em Portugal não só há espaço para esse tipo de projectos, como eles têm acontecido cada vez mais, embora bastante fora do radar institucional.

  6. Não consegui encontrar nenhuma ave rara que achasse que é desrazoável… o que nem é mau sinal: ou não existem muitos ou têm vergonha.

  7. Lígia diz:

    Será a questão mais relacionada com o nome, e o peso, dado ao espaço expositivo – o “sagrado” museu – ou com as usuais restrições mentais e ideológicas em Portugal? Ou seja, se em vez de um museu for um centro cultural, haverá tanta gente a torcer o nariz?

    A Culturgest, por exemplo, é apresentada na web como uma “organização cultural”, não como um museu. Design não será cultura?

    Outra coisa: será que os ranhosos que se incomodam tanto com o facto do design ser exposto, se revoltam quando vão a outros países e vêm exposições de design em museus? Ou – cruzes credo, jesus cristo heresia maior – quando os objectos de design são misturados com arte em exposições?

    Há uma bela exposição sobre Jazz no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona. Têm pinturas de gajos famosos, ilustrações de outros tantos, capas de discos, vídeos, música e ainda umas esculturas high profile, e ainda uma foto do Jeff Wall (….e a fotografia, será arte? buhu).

    …eu ia escrever mais qualquer coisa, mas o vizinho está com a whitney houston aos berros e não consigo concentrar-me.

    Beijinhos!

    • O facto de uma instituição se chamar museu e não “centro de exposições”, “centro cultural” ou “organização cultural” é evidentemente significativo. Um museu de arte contemporânea pode funcionar melhor como um mecanismo de legitimação não só de artistas, mas de políticas culturais, do que instituições cujo nome sugere uma escala e uma gama de tarefas mais restrita. Precisamente por isso é que o museu é um lugar tão disputado no sentido político. É por essa razão que arranjar instituições de carácter intermédio para expor e legitimar jovens artistas ou artistas nacionais é uma falsa solução, semelhante à ideia de arranjar uma espécie de casamento com um outro nome para resolver a questão do casamento homossexual – o museu é disputado na medida em que é um museu.

  8. Mas o que achou da exposição OMBRO A OMBRO (continuo a achar esta tradução estranha…) e do espaço do MUDE? Não sei se AINDA estarão a considerar isso lá pelo museu (não acredito), mas fiquei a pensar que podiam aproveitar os 50 anos da Revolução Cubana e trazer cá uma boa exposição dos cartazes cubanos da OSPAAAL e do ICAIC (ou então esperar pela caução “suiça” e por uma exposição do Museu de Zurique que possa vir ao MUDE).

    Pedro Marques

    • ERRATA: onde se lê:
      …caução “suiça”…

      deve ler-se:
      …”caução” suíça…

    • Respondendo por ordem inversa: achei que o espaço está numa localização fantástica (também já ouvi gente a queixar-se que é demasiado boa para o MUDE). gosto do espaço do banco, mas acho que o design e integração das exposições deveria estar mais cuidado. dentro da tendência para usar sítios “encontrados tal como estão” para museus e exposições, não acho que esteja particularmente bem resolvido. mesmo a colecção permanente dá a sensação de estar ali provisoriamente. num país como Portugal, onde o design de instituições públicas ainda é visto como dispensável, penso que o MUDE se deveria esforçar mais e de uma forma mais visível. quanto à exposição, de maneira geral gostei. a divisão dos cartazes políticos por tipologias e não tanto pela sua estética é uma maneira interessante de lidar com o deslavado cartaz político actual. a ideia de acompanhar personagens políticas que se foram tornando símbolos gráficos também não é má. poderia haver outras escolhas, mas o que foi mostrado é bastante curioso.

      • Sem dúvida: a localização não é acompanhada pela qualidade do espaço interior, que, presumo, estará já ou a caminho da completude (ou à espera do que sai das eleições…). Notei alguns anacronismos na parte de baixo (por exemplo, o LP “Some Girls” dos Stones, que é de 1978, num núcleo de objectos que representava a onde pop psicadélica de finais dos 60), e quanto à exposição em cima a responsabilidade é do Museu de Zurique (ainda que todos aqueles cartazes dos filmes do Schwarzenegger me pareçam um absurdo), mas foi daquele excesso de cimento e tijolo que trouxe a pior impressão. Mas ter um Museu em plena baixa de Liboa de PODE (a ver vamos se cumpre…) começar a expor regularmente objectos de design gráfico vindos dos acervos dos melhores museus mundiais não deixa de ser entusiasmante.

  9. Fernanda Torre diz:

    Olá!
    Eu gostaria de acrescentar uma nova dimensão na discussão…
    Quem se lembra daquele chavão das aulas de filosofia do 11o ano do “homem é um ser em situação”? Pois então, além da dimensão de contextualização de um objecto de design com a sua função, que o Mário já apresentou no post inicial, gostaria de acrescentar uma dimensão social e política. Nós entendemos o design muito de acordo com a nossa herança cultural. Existem vários países em que o design é apresentado, exibido, discutido com orgulho nacional! Dou como exemplo a Suécia em que nao é possível encontrar nenhum guia do país sem um capitulo sobre design ou um cartaz do Museu Nacional sem a referência à exposição permanente de design… Enfim, se em Portugal tivéssemos uma cultura de design com este peso nem estaríamos a ter esta discussão. Ou talvez a tivéssemos apenas como exercício intelectual.
    Na “situação” em que estamos faz com que entendamos o design de forma diferente. O peso histórico do design em alguns países (a organização nacional de design sueco, Svensk Forn, existe desde 1845), a sua dimensão económica (o gigante Ikea), a dimensão cultural (a exposição permanente de design “Design 19002000” no Mueu Nacional da Suécia) alteram, como é de resto óbvio, a percepção da importância do design.
    Acredito que em Portugal precisamos de cultivar estas dimensões. Com o design a contribuir para a economia nacional, por exemplo, já ninguém se lembraria de duvidar da sua importância!

  10. M diz:

    Design é filosofia?

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