The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O pior livro do mundo

vigiar e punir

Recentemente, o Brasil parece ser o sítio de que toda a gente fala, pelo menos em termos de design. O Frederico Duarte anda por lá a recolher informação para a sua tese. Quase um quarto dos meus alunos este ano foram brasileiros. Nas livrarias, boa parte dos livros de design são, ou brasileiros – nunca vi tantas histórias do design brasileiro –, ou edições brasileiras de livros ingleses – quase tudo com bom design. O culminar disto tudo foi quando Khoi Vinh, director de design do New York Times, mostrou no seu blogue a fotografia de uma livraria em São Paulo, declarando que:

“[it] is probably the most visually stunning commercial space I’ve ever seen, and certainly the most impressive book selling environment. If it’s real, that is.”

Era fantástico: alguém em Nova Iorque a não acreditar no aspecto de uma livraria no Brasil! – normalmente, é isso que eu sinto em relação a Nova Iorque.

Além do design, também tenho lido muita banda desenhada de autores brasileiros, que parecem ter invadido as grandes editores americanas. Neste momento, ando a debicar nos intervalos da minha tese uma história chamada Casanova: Luxuria, com argumento de Matt Fraction e desenhos do brasileiro Gabriel Bá. A última peça de teatro que gostei de ver foi do Nelson Rodrigues no Teatro Nacional São João. Entretanto, fui ganhando o hábito de ler ficção científica passada no Brasil – embora sem ser escrita por brasileiros: Brasyl, de Ian McDonald – uma história passada em vários Brasis alternativos no passado, presente e futuro, com jesuítas, reality shows e hackers quânticos chamados “Quantumeiros” – e Speaker for the Dead, de Orson Scott Card, passado numa colónia estelar brasileira.

Assim, esta semana, depois de mais uma leva de novidades sobre o design brasileiro e de mais outras tantas páginas adiantadas para a tese, resolvi ver um filme brasileiro qualquer, apenas por ser brasileiro. Acabei por me decidir quase ao acaso pelo Tropa de Elite, que estava nos saldos da Fnac. Não esperava ver muito design, tendo em conta que é um filme que sobre corrupção policial, passado no Rio de Janeiro em 1997.

A certa altura, um dos policias está a fazer um trabalho de grupo sobre Foucault para uma cadeira universitária. Como a minha própria tese se apoia muito em Foucault, senti um ligeiro sobressalto ao ouvir esse nome enquanto me tentava descontrair. Mas a parte pior ainda estava para vir: a certa altura, o policia estava a ler a mesma edição do Vigiar e Punir que eu tenho. Não é particularmente estranho, tendo em conta que a edição é de 1997 e que está a venda em todo lado em Portugal. No entanto, pareceu-me particularmente injusto aquele livro aparecer num filme: é dos livros com pior design que já vi na minha vida. A capa é terrível – é daqueles livros que só consigo ler fora de casa com uma sobrecapa branca a tapar-lhe a verdadeira capa. E só não ponho sobrecapas em cada uma páginas porque não conseguiria lê-lo. O texto é extremamente mal tratado, com linhas demasiado grandes para o corpo de texto. Entre os parágrafos aparece – não um espaço, que ainda seria perdoável – mas um “espacinho”. Nem falo da combinação forçada entre a fonte demasiado condensada das citações e a fonte do texto – muito provavelmente a Times.

Não, não é um bom exemplo da qualidade actual do design brasileiro. Mas serve de aviso aos designers de todo o mundo: da mesma maneira que se deve sair de casa com as cuecas lavadas, não vá o diabo tecê-las, deve-se sempre fazer o melhor design possível, não vá ele parar a um filme de distribuição internacional. Se no Farenheit 451 de Truffaut estivessem a queimar edições brasileiras do Vigiar e Punir e não livros da Pelikan e da Penguin, garanto que o começo do filme não seria tão traumático para uma audiência de designers.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Publicações

One Response

  1. pablo de la rocha diz:

    sou brasileiro e acompanho teu blog há um bom tempo. não resisti comentar neste post.
    confesso que, apesar da nacionalidade, nunca fui à livraria da vila em são paulo (moro no extremo sul do país)e me dá uma certa vergonha conhecer um lugar tão lindo através de um site americano.

    parabéns pelos teus textos!

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