The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Serões de Província

ferias

Estou fora do Porto e quase sem net até ao fim da semana. Vou ver o mail uma ou duas vezes por dia a um computador que não é meu e as notícias chegam-me via televisão. É estranhamente anacrónico e talvez seja isto que, no começo do século XXI, são os serões de província. É o tipo de arranjo a que hoje em dia muita gente chama “férias”. Surpreendentemente, não sinto muita falta do computador, do mail ou do resto. No fundo, não há novidades ou notícias que não possam esperar um dia ou dois.

Por contraste, dou-me conta que, fora de férias, vejo muito pouca televisão que não seja “engarrafada” – ou seja, que não seja em DVD ou via net. Neste momento vejo mais filmes, videos e séries de televisão no meu computador do que na televisão. Ver um filme à noite na cama , “marcando” o sítio onde adormeci para continuar a vê-lo no dia seguinte é quase como ler um livro. Ver uma série de televisão toda de seguida em DVD é, neste momento, a sensação mais próxima que tenho de quando ficava a ler um livro pela noite fora no meio do Verão.

Dá a sensação que vivemos no futuro, mas é um futuro estranhamente nostálgico. Boa parte da indústria audiovisual dedica-se a editar em formatos digitais coisas que passavam na televisão há 10, 20 ou 30 anos. Neste momento, é possível ter um acesso muito completo ao nosso passado audiovisual. Ver um filme no cinema antes do videogravador era ver algo que só ia restar na nossa memória. Exigia uma atenção muito distinta da de hoje. Ver hoje um filme no cinema é quase como ver um trailer da versão que vai sair em DVD e que vai assombrar a TVCabo até ao inferno gelar.

É natural que apareça gente a dizer que isto é tudo uma alienação, que dantes é que era bom. Tenho a sensação que essas pessoas diriam o mesmo da televisão, do rádio, da literatura, da escrita, da roda e do fogo. Da mesma maneira que é difícil parar o progresso, também não se pode parar quem diz mal dele. Pessoalmente, gosto da nova indústria da memória e dos novos serões de província.

Filed under: Não é bem design, mas...

3 Responses

  1. Wilfrid de Sá diz:

    Concordo plenamente contigo quanto ao facto das séries terem o mesmo papel que um bom livro, isto é ao nível das sensações obtidas da sua fruição. Fico preocupado pelo facto de as noções de tempo serem muito mais abstractas com este formato. Falo de, por exemplo, ver três episódios seguidos (ou mais…oz, the wire, six feet under, mad men levem-me muitas vezes a isso…) quando estes são previstos para o formato da TV na maioria com 50 min. Sinto a estranha sensação de não estar a desfrutar plenamente de uma iguaria que merece o seu tempo de amadurecimento nas nossas mentes. Alguma pista para este sintoma desaparecer?

  2. Mário diz:

    O que se perde talvez é a experiência da vivência colectiva de um filme, mas continuamos a ter isso no teatro.

  3. Wilfrid de Sá diz:

    Mas essa vivência colectiva tem pontos negativos, isto é, uma certa pressão social que pessoalmente me impede de estar totalmente atento a narrativa e a prestação dos actores. No entanto pelo levantar do ecrã físico no teatro concentramos e sabemos que aquele palavra foi e nunca mais será dita da mesma forma. Penso as relações temporais no formato série, como capazes de alimentarem mais facilmente um certo espírito de gula ou de vício. Onde pretendo incidir é, onde estará o limite se ele existe ou como te-lo quando sabemos que hoje em dia podemos ver uma temporada seguida de qualquer série. Há forçosamente algo que se perde relativamente ao culto de se esperar uma semana para podermos continuar a deliciar-nos com a nossa série preferida. Recorro muitas vezes a um exemplo para me fazer entender neste ponto: Entre comer uma tablete de chocolate e comer um quadrado, a diferença só está na quantidade porque o sabor é o mesmo. Então porque comer mais?

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