The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Le Design?

TOFFE

Depois de ler o texto French Graphic Design: A Contradiction in Terms?, de Véronique Vienne, fica-se na dúvida se a autora gosta ou não do design gráfico francês ou até se acha que este existe de todo[1]. Trata-se de uma daquelas coisas que irrita pela condescendência bem intencionada, mas que ainda assim merece a pena ser lida, quanto mais não seja porque ajuda a perceber os mecanismos actuais de legitimação internacional do design.

Vienne começa por questionar se a própria expressão “design gráfico francês” não é uma contradição em termos. A razão da dúvida: a censura da Igreja Católica durante a Contra-Reforma leva os Franceses a preferirem a expressão pictórica à funcionalidade gráfica. Mesmo hoje em dia, quem não conseguir desenhar perfeitamente uma Vénus de Milo nem precisa de se incomodar a tentar entrar nos cursos de design das melhores escolas francesas. Segundo Vienne, esta peculiaridade é uma das razões sistémicas para o design gráfico francês não conseguir obter reconhecimento internacional. Confesso que não consigo perceber como se salta de uma coisa para a outra.

Depois desta salva de abertura, Vienne diz para não a interpretarem mal – nem é muito crítica em relação ao design francês. Considera-se optimista, sobretudo se comparada com os seus sisudos colegas franceses, ressabiados e blasés por natureza. Ao contrário destes, Vienne até acredita que o design francês merece destaque internacional. Ela aprecia a maneira como evita os tiques do que ela chama a Imagem Conceptual, opondo-lhe uma abordagem pictórica e narrativa, dando como exemplo a forma como o designer Toffe compara bits com sardinhas, à la Baudrillard. Acredita mesmo que o design francês não é anti-funcional, mas que se preocupa com uma funcionalidade mais alargada, que se inquieta mais com ideias e com o seu público do que com interesses comerciais. Qual o problema, então? Para Vienne, nenhum, mas o facto de ela achar isso pode indicar que começou a pensar como uma francesa – daqui a nada vai começar a escrever frases do tamanho de um parágrafo[2].

Todo o texto é uma colecção de preconceitos bastante mal disfarçados – Baudrillard, blasé, Vénus de Milo, só falta uma boina, uma baguette ou um acordeão. Primeiro que tudo, ela julga o design francês pelo ambiente dos seus festivais, em particular Chaumont, o que é um erro crasso. Seria a mesma coisa que julgar o design americano por aquilo que se faz em Nova Iorque ou aparece no Design Observer[3]. De seguida, cai em essencialismos do género “Os Franceses são católicos, logo não percebem verdadeiramente o funcionalismo”. Mais uma vez, é o bom e velho pragmatismo optimista e protestante dos americanos contra as teorias católicas, ineficazes e esquisitas do velho mundo. Se fosse na Europa, seria o protestantismo diligente dos povos do Norte contra o catolicismo madraço do Sul. Será que o design é uma daquelas coisas que só faz sentido dentro da ética de trabalho protestante? – se calhar nem nos devíamos estar a maçar com isso aqui em Portugal. Mas, finalmente, o que incomoda mais é Vienne, numa boa demonstração de chauvinismo, pôr em causa a existência do design francês porque não é ensinado como na América ou porque os designers franceses têm uma relação diferente com os seus clientes e o seu público.

Se calhar, o único problema do design francês é tentar afirmar-se num circuito de legitimação internacional que não joga pelas suas regras. O facto de Vienne não perceber se o design gráfico francês existe ou não, apenas porque — nas suas próprias palavras — não o consegue avaliar pelos seus standards americanos é em si mesmo muito significativo. Dá a entender que a principal razão pela qual o design francês não tem o tal reconhecimento internacional é porque um crítico americano não o consegue perceber. Ou seja, que existe um circuito de legitimação internacional que passa pelos Estados Unidos e em particular Nova Iorque, por Inglaterra ou pela Holanda. Tudo o que acontece fora desses sítios é abordado – de uma forma mais ou menos séria, mais ou menos rigorosa – como uma curiosidade exótica.

[1]Pela minha própria experiência, o design gráfico francês não só existe como é bastante interessante e complexo. Tem uma história recente muito rica, que mal chega a ser aflorada nos livros de história do design feitos por americanos ou ingleses. Julgando por revistas como a Étapes, tem também um género de crítica muito agressiva e combativa, ao nível do melhor que se faz actualmente.
[2]Palavras dela.
[3]Muita gente acha que os festivais, em particular os que têm como o tema o poster, são uma perda de tempo – porque o poster é um formato morto; porque um poster numa exposição está fora do seu contexto. Na prática, este género de opinião ilustra apenas uma incapacidade crítica para lidar com o design quando mostrado em ambientes expositivos. Uma exposição, tal como um livro, uma conferência ou uma bienal não são corrupções imorais do que deveria ser o design, supostamente uma actividade honesta e trabalhadora onde não há tempo para mariquices deste género. São, pelo contrário, actividades próprias de uma disciplina que tem consciência dos seus problemas, da sua história e da sua complexidade. Seria bom se finalmente o design se tornasse numa daquelas profissões onde o anti-intelectualismo fosse sinal de burrice e não de sucesso.

Filed under: Cartaz, Crítica, Cultura, Design

3 Responses

  1. JC diz:

    Não será o cinema? : D

  2. É curioso: existem alguns casos de design francês com êxito pandémico.

    O trabalho do SoMe, por exemplo, para a editora Ed Banger, já foi premiado diversas vezes nos EUA, até com Grammies.

    A rapariga sofre do mal que aponta, é o que é.

  3. Wilfrid de Sá diz:

    Durante o programa Erasmus que realizei em França (Bordéus), tive a oportunidade de Conhecer o designer Toffe. Foi num workshop que pretendia estabelecer a identidade visual de uma conferência internacional a decorrer na Escola de Belas Artes desta cidade. Apareceu-me como uma personagem irritante e pouca humilde sobre o modo como iria construir esta identidade conjuntamente com um grupo de alunos (dos quais eu fazia parte),pois este limitou-se a desenvolver elementos pictóricos avultos na maioria desenvolvidos pelo seu assistente, sem qualquer pensamento de estratégia mais global sobre como seriam desenvolvidos cada suporte ou integrados na conferência. Posteriormente, nos alunos do workshop, tivemos a intensa impressão de estarmos a colar selos nos variados suportes de comunicação deste evento (newsletter, anúncio de jornal,cartazes…) previamente desenhados pelo designer em questão.

    A partir de uma dúvida minha, sobre os termos “grafistas” e designer gráfico ainda criada na faculdade de belas arte do Porto, perguntei ao Toffe em que papel se sentia mais confortável. Mais uma vez obtive uma resposta evasiva que demonstrava pouco interesse pelo tema. Da minha experiência pela escola de Belas Artes de Bordéus conclui que não existia uma qualquer tradição de um design ligado a resposta de problemas de comunicação mas antes um grande interesse em desenvolver vias únicas de expressão visual por parte dos intervenientes. Será todo o design francês marcado por esta tendência?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: