The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Os anti-intelectuais não são burros, mas…

Uma sensação perigosa, quando se escreve crítica de design, é a de progresso, que as coisas avançam e melhoram, que já se escreveu sobre certos assuntos há uns anos e que portanto se encontram resolvidos, e que se pode passar a coisas mais interessantes, mais complexas – melhores, enfim. Um dos assuntos a que acabo sempre por voltar, para minha desilusão, é o anti-intelectualismo institucional do design, que não é uma coisa básica e primitiva, mas uma construção complexa com muitas nuances e níveis e à volta da qual se elabora a própria identidade do design enquanto profissão e mesmo disciplina. Por vezes, pergunto-me se será possível extrair o anti-intelectualismo do design – ou pelo menos parar o seu avanço – sem matar o paciente.

O anti-intelectualismo mais básico é o dos designers que acreditam que o design é uma actividade essencialmente prática e que não é preciso teorias para nada. Acreditam que na escola a formação deve ser apenas prática, ensinada sem palavreado complicado, através de exemplos, e que tudo o que não sirva imediatamente a prática profissional deve ser eliminado, ou pelo menos reservado a quem queira tirar mestrados ou doutoramentos. Um bom exemplo deste tipo de doutrina é Paula Scher que, num texto de 1986 chamado Back to Show and Tell, defende que as escolas deveriam voltar a um modelo do género mestre/aprendiz, argumentando que o seu receio em relação à teoria é o facto de esta tornar a aprendizagem do design mais maçadora. É uma atitude arrogante e condescendente que assume que, se não entendemos qualquer coisa ou se não lhe vemos utilidade imediata, mais ninguém o deveria poder fazer. A mediocridade intelectual de um individuo é assim imposta a toda uma comunidade. O pouco que se pode louvar na atitude de Scher é o facto dela, apesar da sua própria opinião, se ter dado ao trabalho de escrever um artigo de página e meia sobre a sua teoria de ensino – porque, contra o que ela própria afirma, o pragmatismo grosseiro não passa de uma teoria, bastante fanhosa, mas ainda assim uma teoria.

O anti-intelectualismo mais complicado e perigoso é aquele que agarra nas características e estruturas mais essenciais da actividade intelectual – as universidades, por exemplo, incluindo mestrados e doutoramentos – e se apropria delas, tornando-as menos complexas, ambiciosas, se não mesmo declaradamente anti-intelectuais. Um bom exemplo disto é a remodelação de Bolonha, que com a desculpa de agilizar a investigação tornando-a mais prática, acaba por substituir a investigação pura pela investigação aplicada – que é como quem diz: substitui a teoria pela prática, continuando a chamar-lhe (quase) teoria. Este esquema assume que a investigação pura já deu o que tinha a dar – já está resolvida –, e que agora basta aplicá-la. Desencoraja o investimento em investigações de longo curso, cujos resultados não sejam imediatamente visíveis, apostando em trabalhos mais curtos e menos complexos. O resultado é que em pouco tempo, se não se tiver cuidado, a investigação de fundo poderá simplesmente desaparecer em áreas como o design, onde nunca esteve implantada, sendo inteiramente trocada por sucedâneos.

Um dos piores efeitos disto é a valorização da gestão em prejuízo da criação de conteúdos. Em muitas aulas, já não há sequer um esforço por parte dos docentes de construir e sintetizar os conteúdos que transmitem aos seus alunos, mas apenas uma actividade próxima ao comissariado, onde se traz um convidado em cada aula e se ocupa o resto com visitas de estudo. Argumentar-se-á que os alunos ficam a ganhar com a exposição a todo um leque de experiências que nenhum professor isoladamente lhes conseguiria transmitir. No entanto, há uma experiência que fica a faltar no meio disto tudo: a de aprender a construir ao longo do tempo um discurso complexo e cativante sobre um conjunto de matérias. (Há evidentemente bons professores-comissários, que conseguem construir uma visão coerente e complexa a partir de um conjunto de convidados mas, mesmo assim, a sua actividade depende de gente que consiga produzir conteúdos interessantes numa época onde pura e simplesmente já não há incentivos para isso.)

A lista de queixas poderia continuar, mas no fim de contas interessa apenas reter que o anti-intelectualismo é apenas mais uma maneira de justificar o facto de muita gente sem qualificações – e sem vontade de as ter – ocupar lugares dentro de hierarquias intelectuais, o que demonstra bem como os anti-intelectuais não são burros, apenas muito perigosos.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ensino

13 Responses

  1. M diz:

    e geralmente os intelectuais são de esquerda

  2. teo diz:

    O problema é que a teoria não é grande arma nestes tipos de guerra. Por isso é que os intelectuais são menos perigosos. De qualquer forma: Intelectuais, têm o meu apoio para fazer barulho!

  3. Ana diz:

    Um bom exemplo do poderio dos anti-intelectuais é a faculdade de belas artes do porto, mais especificamente o curso de design de comunicação onde o novo plano de estudos a entrar em vigor este ano – o segundo desde bolonha (em 4 anos) tem vindo progessivamente a eliminar a componente teórica do curso. Se a primeira reformulação do curso obteve resultados tão deploráveis – que nem quatro anos durou – o que se dirá desta outra que, segundo boatos ou não, foi conseguida segundo vias dúvidosas, através de e-mails privados sob o total desconhecimento da maior parte dos orgãos de discussão da faculdade. Todavia este sórdido pormenor e também as inúmeras reuniões, petições, etc, levadas a cabo pelos estudantes do curso não foram obstáculo para este “glorioso projecto” já que entra em vigor dia 24 de Setembro, data de início do ano lectivo.
    A razão pela qual os anti-intelectuais temem os intelectuais é simples, quanto menos pessoas a reflectir, menos ideias subversivas terão origem, curiosamente este pode ser considerado um dos principios da ditadura.
    A nossa escola pode estar a tornar-se uma oficina mas nós ainda não nos transformamos em simples “aprendizes”, todos queremos ser mais do que pessoas com alguma habilidade manual – capazes de fazer coisas giras para a papelaria do Sr. José.

    • Mariana diz:

      Pois, eu sou estudante da Faculdade de Belas Artes de Lisboa, no curso de Design de Comunicação e na nossa disciplina de Design de Comunicação e Metodologia de Projecto, em que basicamente temos que aprender os mecanismos de pensar em design, a teoria por trás da prática, somos praticamente empurrados para o trabalho em cima do joelho, “rápido rápido, não pensem muito nisso.” Uma vez que estive antes na António Arroio, a secundária artística de Lisboa, onde nos ensinaram (dentro do possível) a importância deste pensamento estruturado, sei que na FBAUL o problema vai acabar por fazer de nós profissionais do pacote de software da Adobe, e nunca designers.

  4. filipa diz:

    São de facto perigosos, os anti-intelectuais. E é muito desconcertante acabar por constatar que muitos (como eu) se formam em escolas onde o anti-intelectualismo impera. Onde são muito poucos a fazer a diferença pela vontade de quererem contribuir para a formação de seres pensantes, dotados desta capacidade única de formular ideias e conteúdos. É fundamental perceber que a “prática” e o “pensar” não podem ser separados. Era mesmo necessário que quem desenvolve os planos curriculares nas áreas de arte e design (tidas como áreas práticas por excelência) tivesse esta ideia sempre presente.

  5. granja diz:

    subscrevo, amigo mário.

  6. Qualquer tentativa de evitar a reflexão torna o conhecimento vulnerável ao mecanicismo. O pensar é um caminho que se localiza entre a causa e a consequência, e todas as possibilidades e potencialidades que as influenciam. Teremos nós de voltar ao medieval “bater com a cabeça na parede”, acreditando em mitos do que se desconhece?
    Se aceitava que a universidade apenas serviu para me espicaçar o pensamento e aguçar a curiosidade, então agora foi substituída essa intenção por conformação e industrialização dos diplomas, em menos tempo anida do que aquele que eu cumprindo achei insuficiente?

  7. Tiago Cruz diz:

    Também concordo com a existência dos anti-intelectuais… mas acho que rotular bolonha como sendo uma má estratégia educacional por causa da sua má aplicação por parte de alguns docentes não faz sentido nenhum. Tenho uma visão diferente de bolonha e aquilo que eu acho que se poderia discutir era se a nossa cultura, se a cultura dos nossos estudantes, está preparada para bolonha.

    “Um bom exemplo disto é a remodelação de Bolonha, que com a desculpa de agilizar a investigação tornando-a mais prática, acaba por substituir a investigação pura pela investigação aplicada – que é como quem diz: substitui a teoria pela prática, continuando a chamar-lhe (quase) teoria.”

    Não acho que bolonha seja de forma nenhuma anti-intelectual. A teoria e a prática coexistem pacificamente. No entanto, a forma como o conhecimento é “transmitido” (em bolonha o docente, mais do que transmitir conhecimento, orienta a construção do conhecimento) é diferente. Sim, as aulas deverão ser mais práticas… mas a teoria acompanha este percurso prático. Todos os conceitos teóricos deverão ser continuamente transmitidos ao aluno acompanhando o seu percurso prático. Esta estratégia não é de todo uma substituição da teoria pela prática.

    “Este esquema assume que a investigação pura já deu o que tinha a dar – já está resolvida –, e que agora basta aplicá-la. Desencoraja o investimento em investigações de longo curso, cujos resultados não sejam imediatamente visíveis, apostando em trabalhos mais curtos e menos complexos.”

    Não assume que a investigação pura já deu o que tinha a dar, e não me parece que aposte em trabalhos menos complexos. A forma de investigar altera-se. Uma tese deixa de ter uma estrutura “clássica” (um capítulo teórico e um capítulo prático) e passa a ser um trabalho de investigação prático em que a teoria acompanha (complementando) a prática.

    Posso fazer uma tese prática sobre webdesign e essa tese consiste essencialmente no desenvolvimento de um website. Posso fazer uma tese teórica sobre webdesign e essa tese consiste na abordagem teórica dos conceitos inerentes ao webdesign. Ou posso fazer uma tese em que desenvolvo um website e, ao longo desse percurso, vou introduzindo todos os conceitos teóricos complementando e enriquecendo o desenvolvimento prático.

    Mario, não quero ser do contra… aliás, concordo com “tudo” o que escreveste e muito obrigado por mais um excelente texto (como sempre). O único ponto que não me parece muito correcto é esta questão em relação a bolonha. Acho que a abordagem é extremamente interessante e todos ganham com esta estratégia (excepto os mais preguiçosos)… alunos, docentes, investigadores, críticos, etc…

    Os únicos que perdem com esta abordagem são realmente os anti-intelectuais que acham que a teoria não serve para nada e, no outro extremo, os teóricos que acham que a prática também não tem valor.

    Claro que muitos poderão dizer em relação à minha posição relativamente a bolonha: “Ahh sim sim… isso é muito bonito na teoria!! Mas na prática……”

  8. […] Os anti-intelectuais não são burros, mas… de Mário Moura, em The Ressabiator. comment feed | 0 comments September 26, 2009 0 comments Filed under: Articles, Blog […]

  9. dreamquest diz:

    Não desmereço em nada o artigo, muito pelo contrário, trata-se de uma análise que poderia render por si só uma tese a ser defendida com o objetivo de reverter a tendência apontada. Meus sinceros cumprimentos.

    Entretanto, acredito que, se é isto o que os anti-intelectuais querem, então que tenham um curso técnico só para eles, que não o chamem de curso superior. Deixem essas abordagens “inúteis” para quem quer realmente pensar e, para quem quer apenas a prática, que fique com a prática. Dessa forma não contaminariam a academia com essas teorias-que-querem-abolir-as-teorias.

    Desculpem-me pela ignorância, se ela se fez presente.

  10. Rui diz:

    Como estudante da área de Design, num ano em que Bolonha foi inserido, perdoem-me à expressão, “mal e porcamente” cheguei rapidamente à conclusão que toda a boa teoria, sustenta uma boa prática. Senti que todo esse ano foi uma grandessíssima perda de tempo. Não me agrada a ideia de ‘responder a briefings’ sem uma pesquisa bem fundamentada e que de certo modo reflicta por si só toda a natureza do trabalho criado a partir daí. Além disso, todo o processo de criação de conceito, que também nasce nessa mesma pesquisa, acaba por ser pouco elaborado e bastante oco a meu ver. O que resulta daí é, portanto, um trabalho mal engendrado, com várias erros tanto a nível de conceito (conceitos por vezes criados na hora da apresentação) como a nível prático. O que sucede depois disso é o óbvio, designers que trabalham apenas para responder a briefings de uma maneira pouco astuta e interessante (quase mecânica) e apenas com floreados estéticos como maneira fácil de agradar a um cliente para garantir esse mesmo trabalho. Acho que em termos de Design de Comunicação chegámos a um ponto de comodismo bastante grave, e não tendo o apoio teórico (porque não serão de certeza aqueles 30 minutos de apresentação de imagens em pdf numa aula) que nos vão fazer ler e pesquisar mais acerca de Teoria e História de Design (e não só) como é óbvio, dificilmente criaremos trabalhos que demonstrem o mínimo de importância dada à Teoria da Comunicação por exemplo. Apoio bastante a teoria antes da prática e repudio o vice-versa, ao contrário de colegas meus. Hoje em dia e tendo visto isso na prática, penso que há cada vez mais agências e designers recorrem à maneira mais simples e esteticamente agradável de agradar também só ao público, o que resulta daí é um público pouco educado, que dificilmente se esforça para perceber o que está a ler e/ou ver, sendo isso, no entanto, já por si só uma toda outra questão aparte.
    Acredito que este anti-intelectualismo tenha a luta ganha uma vez que se vê cada vez mais a prática sem teoria e, consequentemente, uma muito má prática e aplicação do pouco que foi aprendido. Gostaria de acreditar que há muitos alunos que mostram interesse em toda a Teoria por trás do Design, no entanto, raras são as vezes em que se nota isso, o que elimina quase automaticamente toda a definição por trás do Design.
    Temo que o intelectualismo no Design Português, incorra no risco de se tornar um ‘intelectualismo utópico’, mas enfim, esperemos que haja sempre alguém que lute contra essa maré cada vez maior.

    Cumprimentos por todos os artigos aqui publicados Mário!

  11. Miguel Batista diz:

    Encontrei no Design Observer o link para este artigo sobre o porquê da necessidade da teoria no Design Gráfico, que penso ser interessante:
    http://ow.ly/rK7k

  12. coelho diz:

    caro Mário, passo por aqui a espaços, meio curiosidade (mórbida?) de uma discussão que me diz pouco mas meio copo cheio de interesse por um espaço que quer ser discussão, o que me parece mais que muitas outras coisas. mas desta vez deixo-te duas guerras curtas à forma, sem ofensa, que nada tenho a acrescentar a uma discussão da importância de um esforço teórico português sobre design (que bela palavra, podiam começar por aqui), ou da hipótese da sua existência — santo graal ou monstro de loch ness.

    um. que todos (muitos) tenham acesso a mestrados e a doutoramentos, parece-me uma generosidade dos nossos tempos. que sejam levados a sério, com pouco ou nada feito, parece-me um abuso sobre o ‘cidadão comum’. quase todos os trabalhos que tenho espreitado deveriam ter sido feitos na faculdade de letras e no departamento de história. serão tão interessantes como inócuos e sem vestígio de pensamento lavadinho e novo. a estrutura essencial da actividade intelectual é mais simples, acho eu, basta alguém estar vivo. acreditar que se produz pensamento de qualidade numa universidade apenas porque tem esse nome é, mais que um acto de fé, o querer substanciar uma diferenciação num tipo de elitismo que puxa um palavrão. e sim, claro que existem no mundo maravilhosas instituições de ensino com larga tradição de boas ideias, mas cá? sinto muitas vezes que apenas queremos importar os maneirismo e não fazer o trabalho que poderá levar aos tais conteúdos. as saudades do passado são comuns a todas as áreas. mas o passado, por aqui, é uma caixa quase vazia e o que há é um milhar de histórias de como foram escolhidos docentes, aldrabados os concursos e inchados os currículos. e os mestrados fazem-se para se ganhar mais ou para ocupar o tempo, podiam ser aviões de montar. pensava-se mais e melhor antes? onde é que isso está? um ensino muito mais aberto baixa a sua qualidade geral? talvez. mas a estrutura só abana tanto porque está presa por fios. tudo em bicos de pés. o sonho de uma teoria unificada do design sem poder crítico, estruturado em citações de segunda e na cópia ‘do que se faz lá fora’ resvala num holismo de província — aqui nem é uma discussão entre ciências fracas e fortes, é entre o fraco e o fraquíssimo.

    dois. hierarquias intelectuais. eles contra nós ou contra vocês, não consigo decidir se o conjunto me inclui ou não. só o uso da palavra intelectual exige uma imensa coragem. e as hierarquias como é que funcionam? há pins para a lapela ou vai com cintos à cores, como no karaté? meritocracia e qualificações são palavras que se cruzam com dificuldade.

    1 abraço

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