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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Os nomes

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No início de cada ano lectivo, é costume passar em revista os livros de história do design, uma tarefa que se vai tornando mais difícil à medida que novos tomos vão aparecendo, e se torna difícil examiná-los a todos em tempo útil. Torna-se necessário fazer escolhas: se mantemos o “A History of Graphic Design”, de Philip Meggs ou se o trocamos pelo “Graphic Design History: A Critical Guide”, de Joahnna Drucker e Emily McVarish; uma opção compacta, barata e bem escrita, com alguma atenção a questões políticas é o “Graphic Design, a Concise History” de Richard Hollis; outra hipótese é o “Graphic Design: A New History”, de Stephen J. Eskilsonn, que embora tenha sido trucidado pela crítica, pode ser usado em conjunto – ou mesmo em confronto – com Meggs e com os outros, não deixando de ter  interesse.

Este ano, sinto-me inclinado para o livro de Drucker e McVarish. Ao contrário dos outros, não é uma lista de nomes. Fala do design, não através das biografias dos designers, como Meggs, Eskillson ou até Hollis, mas através das suas instituições, ferramentas, estratégias formais e enquadramento legal. É uma estratégia arriscada, tendo em conta que os designers esperam que a história lhes dê nomes, figuras heróicas que lhes sirvam de guia (na impossibilidade de apresentar essas figuras, espera-se, pelo menos, que a história forneça trabalhos marcantes, que possam usar como exemplos no seu trabalho prático). No entanto, os nomes são uma armadilha porque antropomorfizam a história, mostram pessoas e obras esquecendo o seu contexto, a forma como se relacionavam com outras pessoas e outras obras, com os locais e épocas onde foram feitos, a sua política, a sua ética ou a sua economia.

Ler o livro de Drucker e de McVarish é um antídoto a uma história feita de Rands e Lustigs, de Brodys e Savilles. No entanto, enquanto o leio não consigo deixar de pensar no contexto em que o leio: sou um designer português a preparar aulas de história para designers portugueses. A forma como tenho acesso a este livro tem a sua politica própria: a minha relação com ele (e com todos os outros) é a de um consumidor periférico. A história que leio não me é inteiramente estranha, mas é uma história de coisas que eu consumo à distância. Se fala de política e de sociedade, não fala da minha política e da minha sociedade.

Não consigo deixar de me perguntar o que seria uma história feita aqui. Como em outros lados, os designers portugueses esperam que a história lhes forneça nomes – se escrevo um post sobre um designer qualquer, o número de visitas é maior do que se falar sobre política, por exemplo. Porém, começa a fatigar-me aquela metodologia da história que se limita a acrescentar alguns candidatos mais ou menos interessantes à lista cujo primeiro membro é o inevitável Sebastião Rodrigues. Não que ele ou o seu trabalho tenham nada de mal, mas em Portugal um nome explica muito pouco. Quando muito dão a entender que as coisas aqui são mais excepções do que excepcionais.

Talvez fosse melhor tentarmos uma história diferente. Por exemplo, em vez de agarrarmos na história internacional do design, tentando encontrar exemplos dela aqui – o Paul Rand português, o Muller-Brockmann português –, talvez fosse útil fazer uma história dos processos e instituições que formam e limitam o design português, evitando cair na tentação dos nomes. Devíamos apostar no nosso maior recurso natural, que é nunca elogiar – ou sequer nomear – o parceiro a não ser em último caso. É muito difícil dizer nomes em Portugal, logo fazer uma história de nomes não devia ser a nossa preocupação. Quando muito, devíamos fazer uma história que explicasse porque não há nomes.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, História

13 Responses

  1. Luis Ferreira diz:

    Mário, um historiador disse-me um dia que para escrever a história do design de uma época seria necessário um distanciamento de 50 anos. Este número não é certamente um limite fixo, mas parece-me ter implícito a necessária capacidade de observarmos os acontecimentos de uma forma mais abrangente, relacionando-a com os acontecimentos sócio-políticos e económicos, que também determinam o rumo da sua história. O design não vive de isoladamente do resto do mundo.

    • Numa actividade tão recente como o design gráfico, onde os objectos são muito efémeros, torna-se necessário fazer a investigação histórica o mais depressa possível. Caso contrário, cinquenta anos depois não haverá muita coisa para investigar.

      De resto, as histórias mais conhecidas do design foram feitas com intervalos relativamente curtos sobre os factos que relatam. Tendo em conta que o termo “design gráfico” foi usado pela primeira vez em 1922, a história do design de Philip Meggs apareceu em 1983, 61 anos depois. A história de Hollis apareceu em 1994, 72 anos depois. Cada uma destas histórias acompanha o percurso do design até quase ao ano em que foram publicados.

      Mesmo assumindo que o nome “design gráfico” não é muito importante, a Nova Tipografia de Tschichold, que pode ser considerada como uma história da tipografia das vanguardas, aparece em 1928, quando o movimento ainda era uma coisa viva.

      É provável que o problema da história do design português seja, não a falta de distanciamento, mas o excesso dele. Boa parte dos designers esperam que a história apareça feita daqui a uns anos, não sabe muito bem como ou por quem, e que eles próprios terão um papel de destaque nela.

  2. anónimo diz:

    Se tentares contar a história de um país sem nomes qual será a medida social mínima? O duo, o colectivo, a empresa, o bairro, a cidade, o país?
    Eu cá deixava-me de subterfúgios para não me queimar e chamava as coisas pelos nomes. Se ser crítico fosse fácil eu não vinha aqui… coragem Mário!

    • Porque não outras unidades como a obra, o estilo, o género? De todas as vezes que falei de designers específicos aqui no blogue nunca lhes fiz uma biografia ou um percurso, tratei-os sempre em função de outras unidades. É perfeitamente possível fazer uma história ou uma crítica onde os nomes não são a coisa mais importante.

      • Algumas obras fazem um estilo que se dispersa em géneros diferentes. Assim? Está aqui uma fórmula para contar o design? Uma história sem nomes, sem autoria, sem ateliês, sem editores nem editoras?
        É como um documento sem dono?
        A práctica do design de comunicação trata de se baptizar enquanto a crítica de se esquecer dos nomes?

      • Na verdade, é apenas uma questão de ênfase. Não sou a primeira pessoa a defender uma história deste género: nos últimos anos, as histórias baseadas em biografias heróicas têm sido bastante criticadas. Já houve bastantes ensaios nesse sentido, da autoria de Adrian Forty, Clive Dilnot, Michael Rock, etc.

        Uma crítica que se limite aos nomes arrisca-se a tornar-se numa mera forma de promoção.

        Finalmente, se destacamos os designers, porque não destacar os clientes ou os professores, entre outras possibilidades.

      • Sim. Parece-me razoável. Mas é isso que fazes quase sempre não e?

      • Ou destacar os próprios críticos. 🙂

  3. joana diz:

    Le Vite de’ più Eccellenti Pittori, Scultori e Architettori, Giorgio Vasari

  4. Beatriz diz:

    Mário, pode indicar literatura para conhecer a história do Design Gráfico português? Obrigada

    • Tanto quanto sei, não há nenhum livro especificamente sobre história do design gráfico português. Há muita coisa dispersa por catálogos, revistas e teses de mestrado e doutoramento. Muitos destes artigos andam a meio caminho entre falar sobre design e falar sobre publicidade. Também há um conjunto de livros mais ou menos técnicos e mais ou menos utilitários sobre tipografia, mas em geral bastante antigos. Há alguma coisa sobre designers individuais como Sebastião Rodrigues ou João Machado (nos dois casos catálogos).

      Há alguma informação interessante nos blogues Reactor, Isto Não é Uma Tese e Simples.

  5. Sobre design editorial, o vazio, então, é abissal. Grande parte do “Design Gráfico Brasileiro” do Homem de Melo (Cosac), por exemplo, é sobre design editorial (a editora Civilização Brasileira, as revistas SR e Realidade, etc).

    E por acaso aí os “nomes”, apesar de (muito!) poucos, existem por cá, mas a fazer-se uma história do design editorial português convirá ser “consensual” e, sobretudo, abrangente (ou seja, pouco crítico), caso contrário o livro final terá a vida dificultada nas livrarias e nas redacções dos suplementos culturais. Os historiadores são também autores, que competem num mercado que não perde tempo com livros de onde esse “nomes” estão ausentes.
    (Creio que deixei alguma coisa entre linhas, mas prefiro assim).

    E restava a questão de quem faria o design “desse” livro… Nos EUA, ninguém gritou “escândalo” quando o John Gall desenhou para a Princeton UP o “By Its Cover”, em que algumas das suas capas são colocadas no panteão das capas americanas dos últimos 70, 80 anos. Nem imagino as conversas de bastidores acerca de um projecto semelhante por cá…

    Ainda assim, uma frase intrigante essa da “história que explicasse porque não há nomes”. A historiografia francesa dos século XX (Braudel e companhia) baseou-se precisamente na “anti-História” (com H), ou seja, na ideia de que apenas os nomes e o feitos grandes marcam a história, defendendo exactamente o contrário. Mas essa ideia “socializante” da História não vingou no mercado das ideias, ou seja, nas livrarias, onde as biografias de personalidades continuam a ser quase a única porta de entrada na História para as “massas”. Mas quem sabe se seremos, no design gráfico, um campo de pesquisa perfeito para o regresso em força dessa Nova História que abolia o domínio das “figuras”?

    Pedro Marques

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