The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Outra história

bolor

Quando comecei a escrever sobre design, um colega mais velho sentenciou-me que ainda não havia condições para haver crítica de design em Portugal. Talvez daqui a dez anos, disse-me.  Perguntei-lhe o que estava à espera que acontecesse entretanto. Não me respondeu, mas desde essa altura, há quase sete anos, que me interrogo sobre quais seriam as actividades – que não a crítica, é claro – que poderiam ser exercidas durante essa década de preparação.

Se calhar ele queria dizer que ainda não havia suportes legítimos para a crítica, insinuando que os blogues, aos quais já me dedicava na altura, não eram coisas de respeito; um argumento ridículo que equivale a dizer que o sítio onde uma coisa é dita é mais importante do que a argumentação exposta. Se calhar ele defendia que é preciso distanciamento para criticar. Mas, pela minha experiência, crítica e distância são conceitos opostos. A crítica implica proximidade, quando se critica o que se gosta, e quando se diz mal do que se odeia; mesmo quando se critica o que não se compreende, o acto de criticar é quase sempre um acto de aproximação.

Se calhar o meu colega confundia crítica com história. Se calhar ele queria dizer que, para fazer a história, é preciso distância. Mas fazer a história sem que tenha havido crítica é bastante difícil. Fazer a história do design português é particularmente complicado porque, anos depois das coisas acontecerem, ficamos perante um conjunto de objectos mudos, isolados do contexto em que apareceram, das controvérsias ou mesmo da indiferença a que foram votados.

Um designer português que tenha a sorte de ficar para a história reduz-se a um nome, uma etiqueta colada num dossier com uns quantos trabalhos – não se sabe o que ele dizia, não se sabe o que defendia, não se sabe se foi a mulher que lhe fazia o trabalho (a história do design português só tem homens). A situação até não é má: um designer que fique para a história torna-se incontornável e infalível, purificado de todos os pecados e defeitos, uma figura sobre a qual não se pode dizer mal, que está, finalmente, para além da crítica.

Os mecanismos que actualmente usamos para criar figuras históricas são semelhantes aos que no passado eram usados para criar santos, para os canonizar. Daí que quando se fale dos escritores, artistas ou designers que é preciso conhecer, se fale dum cânone. O cânone implica uma suspensão da crítica por parte de quem o aceita. Parte-se do princípio que, para alguém entrar no cânone, já foi sujeito a um processo qualquer de crítica, de avaliação ou, pelo menos, de escolha.

No entanto, em Portugal as coisas tendem a canonizar-se por defeito ou por tédio – se alguém se limita a assinar os trabalhos e se esses trabalhos aparecem regularmente, é porque a sua obra é importante. Este é um pais pequeno, com poucos designers, e eventualmente todos eles terão direito ao seu quinhão de fama se forem persistentes e não saírem da bicha. É a história tipo função pública, que ascende mansamente de escalão, de x em x anos, como se o único mérito possível fosse aguentar este absurdo todo sem levantar a voz ou fazer ondas. É assim que muitos designers de trabalho fraco ou trivial se vão entranhando na nossa triste história – nada que um pano húmido (ou um pouco de crítica) não fosse capaz de prevenir.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, História

20 Responses

  1. Onde é que eu dou pontuação a este post? *****

    • anónimo diz:

      Outra vez a bater no ceguinho, mário?
      foda-se…

      • O ceguinho não morre…

      • Bezierk diz:

        mesmo correndo o risco de estar fora de contexto a fazer este reply tenho de dizer que esta temática anda, de facto, a tornar-se um pouco repetitiva…

      • Habitualmente, costumo balançar os temas dos posts, de modo a que não haja demasiada política, ensino ou recensão seguida; e de facto, tenho andado mais interessado do que o costume nas questões de história e de legitimação. Este post é uma espécie de continuação do post de há quinze dias, que era uma crítica da história feita à base de nomes. Por um lado, isto é uma reacção às cadeiras de história que tenho de dar. Por outro, é uma reacção a uma espécie de “corrida à história” que tem acontecido nos últimos anos, quando as exposições, publicações e eventos ligados ao design se têm multiplicado. Muitos personagens que pouco ou nada fizeram de positivo pelo design – falo em termos de produção prática e em termos de produção crítica ou teórica, para não falar de produção ética – aguardam a sua vez para entrar na “historinha”. Os mesmos designers que há meia dúzia de anos achavam que não havia condições para haver crítica em Portugal, andam atrás de quem esteja disposto a escrever sobre eles. Até já vieram falar comigo. Como seria de esperar, recusei.

        Em todo o caso, é com efeito uma temática triste e repetitiva e espero para a semana falar sobre design bem feito, que acaba por ser bem mais interessante do que tudo isto.

      • Miguel Salazar diz:

        Não sei quem colocou aqui o comentário de 21 de Outubro, às 5:21 pm, ou porquê mas certamente que foi um (ou uma) idiota com péssimo sentido de humor.
        “Miguel Salazar” não é uma marca registada, acredito que possa existir mais que 1 mas aquele MySpace é o meu e eu não escrevi aquelas infelizes palavras ao texto do Mário.

  2. cruz diz:

    ;D hahaha!
    Então e quando é que se parte do geral para o particular? Se calhar é isso que o Salazar quer dizer. Para mim, um bom sinal que a crítica do design em Portugal pode vir a ganhar tracção é o facto de vir a ser feita por especialistas, principalmente, não-praticantes, para a poderem fazer com mais desenvoltura. Creio que começam a existir condições e cabeças para isso acontecer, ou seja, interesse na prática fora do âmbito quotidiano dessa prática. Será que isto faz algum sentido?

    • “Então e quando é que se parte do geral para o particular?”

      Quando se chama os bois pelos nomes, queres tu dizer? Neste caso em particular, muito provavelmente nunca. Eu trabalho numa escola, dou aulas e escrevo sobre design. Tal como muitos colegas meus, não exerço design profissionalmente. Sou um especialista e não praticante. Deveria ter condições para exercer a crítica de design com liberdade.

      No entanto, quando comecei a escrever sobre design, colegas meus, professores na mesma instituição que eu, vieram questionar, em pelo menos duas ocasiões, a legitimidade de eu escrever sobre design e de participar em conferências de design. Note-se que o que estava em causa não era a qualidade dos meus textos, mas a possibilidade de eu ser autorizado a escrever sobre assuntos que pouco ou nada tinham a ver com a escola. Em qualquer uma das ocasiões em que isso aconteceu, os meus superiores deram-me razão e eu continuei a escrever. Teria continuado a escrever, mesmo que não me tivessem dado razão, porque sei que tenho o direito a exprimir publicamente a minha opinião, desde que não infrinja os direitos legais de outras pessoas. Tanto quanto possível, critico coisas do domínio público ou que foram ditas em público. Nos casos em que isso não acontece, faço-o apenas com autorização dos intervenientes. Se isso não for possível, falo dos acontecimentos da forma mais genérica possível, omitindo nomes e datas. Esta é a minha deontologia editorial. No entanto, não esqueci o facto de algumas pessoas terem achado que poderiam deliberar sobre o meu direito à liberdade de opinião. Desde essa altura, decidi que não escreveria mais nada, bem ou mal, sobre as Belas Artes do Porto ou sobre as pessoas que trabalham lá. Em várias ocasiões, escrevi sobre assuntos genéricos que, sem entrar em pormenores, se podiam aplicar à escola. Nessas alturas, penso sempre que é desta que me vão moer a cabeça outra vez. Como é evidente, perante a lei e perante o mero bom senso, posso escrever sobre o que quiser, dentro das condições referidas acima. Mas isso não impede que haja sempre uma ou outra personagem salazarenta que responde à opinião não com a sua própria opinião, mas com manobrinhas de bastidores e intimidaçõezinhas de corredor. Felizmente, nunca se deu o caso de uma dessas personagens fazer um ou dois trabalhos interessantes de design, caso contrário até teria pena de não escrever sobre eles. Se continuarem a intimidar alegremente quem o faz, ninguém escreverá nada de particularmente interessante sobre eles. Apagar-se-ão a si mesmos da existência, como um bolor demasiado guloso.

      Tudo isto para dizer:

      1 – nunca há-de haver condições para haver crítica; se houvesse condições para haver crítica, ela não seria precisa.

      2- em relação a certas pessoas ou assuntos, mesmo a má publicidade é publicidade a mais.

      • (Ups! Possível gafe: quando digo “salazarentos”, refiro-me ao António e não ao Miguel).

      • cruz diz:

        Não propriamente chamar os bois pelos nomes. Antes chamar o trabalho dos bois (salvo seja) pelos nomes. No fundo, e como dizes mais a cima, falar de design bem (ou mal) feito, e se esse design for feito em Portugal, então haverá crítica de design dobre o design feito em Portugal.

        A ausência de condições não é em si mesma uma condição?

        back to the race…

      • Pedro Cortesão Monteiro diz:

        Por mim, caro Mário Moura, não estou cansado do tema; pode continuar. E deve, porque os episódios que descreve demonstram à saciedade quanto isto é preciso. Essas “sugestões amigas” são tão patéticas, provincianas e reveladoras de mediocridade, que é fácil deduzir quando, para os amáveis conselheiros, haverá condições ideais para fazer crítica: nunca. Ou quando eles estiverem, finalmente, na ombreira da porta da entronização automática.

        p

        PS – Questionar um professor universitário sobre a sua legitimidade para participar em conferências, não dá direito a questionar o inquisidor sobre a sua legitimidade para ser docente universitário?

  3. Tudo certo Mário

    Mas não é a crítica apenas que decide um bom ou mau designer, tal como nas restantes profissões criativas…

    • Não, claro que não é. Nenhum crítico dá a última palavra sobre aquilo que escreve, e o juízo crítico está aberto a toda a gente. Quem lê concorda ou não concorda, responde ou não responde.

  4. Ana diz:

    Curiosamente, acho que a situação do Mário está a tornar-se análoga à do Saramago. Tenho pena.

    Abaixo o trabalho dos bois!

  5. Teresa Olazabal Cabral diz:

    Curiosa essa frase de ainda não haver condições para haver crítica do Design em Portugal… porque, quanto a mim só estou a ver duas interpretações: ou não há condições porque vivemos numa ditadura e alguma coisa poderá acontecer a quem a faz (?) ou então porque a crítica tem sido de facto quase inexistente no nosso país, o que só reforça a urgência dessa crítica, que se inicia então nas condições ideais! Enfim, infelizmente tenho pouco tempo, por razões várias, para entrar nestes diálogos (só hoje vi esta entrada) mas não queria deixar de dizer que sigo esta conversa com o maior interesse. Porque se a crítica (ou melhor, um crítico) não decide o que é bom ou mau design, contribui com certeza para que se faça melhor (e mais consciente) design. Mário Moura mais uma vez lhe agradeço por este blog que tem o enorme mérito de nos levar a questionar e a reflectir sobre esta fascinante actividade (“think more, design less”, já dizia a Ellen Lupton).

  6. Vasco Silva diz:

    Caro Mário Moura, estive presente na sua conferência na ESAD, onde vou tirar o mestrado, e a base do meu (possível) projecto parece-me encaixar com algumas ideias futuristas que lá deixou indicadas, nomeadamente em termos de editorial.
    Vinha por este meio perguntar se me aconselha alguma referência bibliográfica para começar a minha investigação nesse campo.
    Pode-me responder (se não for incómodo!) por aqui ou para o meu e-mail que aqui deixo!
    Muito obrigado!

    P.S. E já agora o nome do livro que tem as duas páginas que mais gosta! Achei fantástico!

    Cumprimentos!
    Cumprimentos

    • Obrigado, e não é incómodo nenhum. O nome do livro é The Life and Opinions of Tristam Shandy, de Laurence Sterne. Há um artigo sobre essas e outras páginas estranhas da literatura no último número da Dot Dot Dot. Quanto a bibliografia sobre os Futuristas, muitas das imagens e informações que apresentei na conferência vieram do livro Merz to Emigre and Beyond, de Steven Heller, também usei o texto Primitives of a Mechanized Art, de Reyner Banham. O resto foi feito a partir dos próprios manifestos Futuristas.

  7. Vasco Silva diz:

    Muito obrigado pelas informações!
    Já agora ia fazer-lhe mais uma pergunta, mas se possível por e-mail.
    Posso contactá-lo através do mail ressabiator@gmail.com?

    Cumprimentos

  8. Vasco Silva diz:

    e-mail enviado! muito obrigado mais uma vez!

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