The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Design Unobserved

do

Deixei de ler o Design Observer. Fi-lo devagarinho, sem pensar muito no assunto, ainda antes da última remodelação. Quando me apercebi que já não o lia, fiquei um pouco perplexo. Há dois ou três anos, era daquelas coisas que eu fazia sempre. Era o blogue que eu abria por defeito, antes mesmo do meu próprio. Mais do que uma fidelidade, era um vício – embora não um mau hábito.

A escrita costumava ser boa, os assuntos pertinentes, os pontos de vista polémicos. O público reagia comentando os posts quase sempre de modo ponderado e consequente. Havia muitas discussões arrebatadas que nunca resvalaram para a inconsequência. Era comum ver os nomes mais conhecidos do design a cruzarem opiniões com o comum dos anónimos. Por tudo isto, e durante um período de dois, três anos foi “o” site.

Mas aquilo que tornava o Design Observer inevitável acabou por o destruir. Era o melhor blogue porque não chegava bem a ser um blogue. No fim, deixou de o ser e com isso perdeu o interesse.

Sempre foi um objecto estranho. Os textos eram bastante mais longos, bem argumentados e coesos do que o post médio de um blog qualquer. Os seus fundadores também não eram bloggers como os outros: Rick Poynor era um dos críticos de design com mais renome; Michael Bierut e William Drenttel eram os editores das antologias Looking Closer; Jessica Helfand escrevia para a Eye. Nenhum era propriamente desconhecido, mas, com a excepção de Poynor, todos ganharam uma notoriedade acrescida graças ao Design Observer.

Porém, e apesar do sucesso, os membros nunca esconderam a sua desconfiança em relação aos blogues, posicionando-se uma e outra vez por oposição ao formato e às suas características. Rick Poynor, por exemplo, já depois de ter saído do Design Observer, argumentou, usando o entretanto extinto blogue Speak Up como exemplo, que os blogues só muito raramente conseguiam estar ao nível da imprensa especializada. Para ele, a prova conclusiva era a antologia Looking Closer 5 que, apesar de cobrir a chamada época de ouro dos blogues, só incluía quatro artigos oriundos dos mesmos – todos do Design Observer e nenhum do Speak Up. Desses quatro artigos, dois eram escritos pelos próprios editores do livro, Bierut e Drentell, sendo os restantes escritos por Jessica Hellfand, mulher deste último. Poynor reconhece a possível parcialidade desta escolha mas desvaloriza-a, argumentando que Bierut não só era patrão do fundador do Speak Up, Armin Vit, como tinha em muitas ocasiões apoiado esse blogue, deixando lá comentários – uma forma bastante anémica de apoio, diga-se de passagem. A moral da história é que um artigo de um blogue atípico como o Design Observer era sempre melhor do que o de um blogue vulgar como o Speak Up.

Na introdução do Looking Closer 5, Steven Heller – também ele colaborador do Design Observer –, constatava que, apesar da discussão promovida pelos blogues, a falta de uma revisão editorial semelhante à dos jornais ou revistas tornava a sua escrita mais próxima de uma transcrição crua do que duma prosa polida, acrescentando que, se os blogues queriam ser levados a sério no futuro, teriam de atingir um nível mais sofisticado. Curiosamente, a grande maioria dos textos incluídos nas antologias Looking Closer obedeciam a um formato e a um tom que não é muito diferente do de um blogue: curtos, de três ou quatro páginas no máximo, escritos de modo extremamente coloquial, sendo frequentemente criticados por isso[1]. Os problemas apontados – pouca profundidade, anti-intelectualismo, etc. – derivavam precisamente de muitos destes ensaios terem sido publicados originalmente em jornais e revistas, estando sujeitos aos seus critérios editoriais.

Heller já tinha defendido a adopção de standards mais rigorosos, semelhantes aos da imprensa, num post do Design Observer que se revelaria bastante polémico, onde sustentava que os comentários não só não deviam ser anónimos, como deviam ser assinados pelo verdadeiro nome dos seus autores. A distinção entre os dois casos pode parecer subtil, mas Heller usava como maus exemplos, comentadores como Design Maven, Pesky Illustrator ou Miss Representation, pessoas que embora usassem um pseudónimo, apresentavam uma identidade consistente, chegando ao ponto de alguns deles alcançarem alguma fama apenas graças aos seus comentários, tendo sido entrevistados por revistas da especialidade. Embora se possa argumentar que os comentários não assinados ou assinados sob pseudónimo são na sua grande maioria ofensivos, a maneira como um comentário é assinado não é indicador suficiente da sua qualidade – não se pode descartá-lo apenas por isso.

Uma das melhores qualidades dos blogues é que vieram reencenar a ideia utópica de uma esfera pública, onde se pode trocar livremente opiniões e onde estas são avaliadas pelos seus próprios méritos e não pela autoridade ou identidade dos seus autores. Graças aos blogues e à internet em geral, uma quantidade sem precedentes de pessoas ganharam acesso a um debate público alargado que as obrigou a sair das suas zonas de conforto. Antes, o debate dentro do design estava praticamente limitado aos cafés, à sala de aula, arenas essencialmente insulares, ou à troca de cartas e de artigos nas revistas da especialidade, a que a maioria dos praticantes assistia passivamente. Naturalmente, esta nova participação alargada levaria a excessos, mas se a proliferação de comentários inoportunos ou violentos é um problema, acreditar que o nome com que se assina uma opinião é um critério para a aceitar é igualmente grave.

Finalmente, quando o Design Observer sofreu a sua última remodelação, o primeiro post foi dedicado aos comentários, e concluindo uma lista de conselhos perfeitamente razoáveis, que correspondiam de modo solto às regras da boa argumentação, lá aparecia um apelo a que as pessoas assinassem os seus comentários com o seu nome verdadeiro, afirmando também que os comentários não eram o objectivo daquele blogue. Como que confirmando esta posição, a quantidade de comentários desceu drasticamente. Seria injusto atribuir esta queda apenas a novas politicas de moderação, mas também ao facto de haver cada vez mais colaboradores convidados. Um dos maiores prazeres de um bom blogue é poder seguir o pensamento de um ou mais escritores ao longo do tempo, percebendo também a sua relação com o seu público. Neste novo modelo, o Design Observer preferiu tornar-se numa espécie de portal, inclusivo no que diz respeito à possibilidade de escrever um post, mas extremamente exclusivo no que diz respeito à capacidade de lhe responder.

 


[1] Por Matt Soar no texto “Theory is a Good Idea.”, publicado no Looking Closer 4. Curiosamente, o texto de Soar sofre dos mesmos problemas que pretende criticar.

 

Filed under: Design

13 Responses

  1. Ricardo Melo diz:

    E agora, qual é (se existe) *o site* ?

    Também partilhei desse crescente abandono ao Designer Observer, chegando ao ponto término esta mesma semana, oportunamente, após uma purgação às minhas subscrições RSS.

    No entanto sinto que ficou um vazio na minha leitura online sobre design, deixando de existir um site de referência que englobe toda (ou uma grande parte da) pratica de design, mas passando a haver pequenos e especializados blogs que se focam numa determinada manifestação deste (como o Brand New para identidade, o The Dieline para packaging, ou o I love Typography por exemplo).

    Embora possa haver algo a ganhar com esta especialização de conteúdos, sinto que a conversa, a relação entre post e comments, a discussão genuína diluiu-se por entre todos estes blogs: a conversa ficou, tal como o conteúdo, segmentada.

    Há algum sitio (site? blog?) que possa substituir o Design Observer? Será que ainda faz sentido haver?

  2. Grande texto! Quase merecia um comentário anónimo cheio de “wit” e “bile”, mas deixo isso para quem tem mais estilo do que eu.

    Realmente, nunca percebi porque os blogues “têm” de seguir os padrões de edição da imprensa ou dos livros: o seu poder de atracção sempre esteve em serem alternativa a esse paradigma, e mais até, em procurarem criar um outro paradigma de edição, em que o editor evolui e vai moldando o seu texto à medida que interage com os comentadores, numa real aplicação do modelo dialéctico.

    Um exemplo de como esse novo paradigma ainda não chegou é o dos blogues de críticos literários, que acabam sempre por se tornarem em depósitos dos textos publicados previamente nos jornais ou revistas, e onde a discussão e a polémica são afastadas como sinais de má conduta.

    O medo do anonimato dos comentários nos blogues (que me espanta vindo do Heller, mas talvez tenha dele uma imagem mais liberal do que a que lhe corresponde) é mais preocupante do que esse anonimato propriamente dito, e lembra a obsessão da velha Academia com a “referência”.

    Pedro Marques

  3. UMA QUESTÃO…
    Porque é que a crítica especializada em Design Gráfico (como por exemplo a do Ressabiator ou a do Reactor) parece apenas querer dialogar com os designers gráficos?
    Será que na música, na literatura, no cinema e nas artes plásticas acontece a mesma coisa?

  4. As duas perguntas são um pouco tautológicas, porque uma crítica especializada dirá sempre mais respeito a especialistas, seja em que área for.

    • Achas então o conhecimento que o público tem sobre design gráfico deve ser suficiente para que não nos preocupemos mais com isto em Portugal?

      • Não, e também não percebo como chegas a essa conclusão a partir da minha resposta. Reconhecer o facto óbvio que uma crítica especializada (que é uma classificação tua, não minha) diz mais respeito a especialistas, não implica que não nos preocupemos com o conhecimento que o público tem de design em Portugal. É um falso dilema.

  5. Fiz-me entender mal. Quando disse crítica especializada apenas quis realçar o facto de ser pensamento sobre uma disciplina específica e não o facto de ser pensamento para um grupo mais ou menos restrito.
    Daí aí minha questão/conclusão. Não acho que seja um falso dilema. A meu ver é uma associação de ideias que é até bastante recorrente.
    Nesse sentido estou inclinado para apontar o dedo à falta de crítica que existiu nas últimas 3 décadas na imprensa, rádio e TV mais generalista em Portugal. Creio que partilharás da mesma opinião.
    Sempre li crítica especializada nesses meios mas apenas sobre artes plásticas, cinema, música e literatura.

  6. A falta dessa “crítica de design” nos meios de comunicação tradicionais (revistas, suplementos de jornais e TV) pode dever-se a que para uma imprensa que é gerada e mantida pelos players do mercado só “merece” ser objecto de crítica o que entra no mercado como produto de massas (livros de géneros “reconhecidos”, registos de música popular, etc). Mesmo as artes plásticas quase desaparecerem dos suplementos. O programa “Imagem de Marca” na SIC-N, por exemplo, é um típico exemplo de como o processo de design envolvido no branding é um mero pretexto (às vezes nem abordado) para o que realmente interessa divulgar, os produtos das empresas que pagam a publicidade da SIC. O “infomercial” é o mais perto de um conteúdo sobre design que estes meios tradicionais (altamente competitivos e dependentes das receitas de publicidade) conseguirão chegar.

    Um caso sintomático, continuo a dizê-lo, é o dos suplementos literários, em que as capas dos livros são reproduzidas à saciedade (sem qualquer indicação de autoria, diga-se) mas onde nem uma linha se gasta a analisar o processo criativo por trás dessas capas e sua relação com o conteúdo e o contexto de produção desses livros. O que interessa, no fundo, é que os consumidores cheguem ao produto livro por relação visual com uma imagem da sua capa, fazendo destes suplementos, por vezes, versões pouco veladas de catálogos de compra.

    (Uma recente proposta que fiz a um director de revista para escrever sobre capas de livros já fora de mercado – parte essencial do faço no meu blogue – recebeu a resposta: “mas, e onde vão as pessoas depois comprar esses livros?”)

    A crítica ou a reflexão sobre o design nestes meios tradicionais seria sempre ou um “momento morto” (trivialidade estética) ou um empecilho potencialmente embaraçoso (dando um exemplo recente: como publicar uma crítica, numa revista ou suplemento, a uma editora por usar uma imagem da “Quinta Dimensão” numa capa sem qualquer crédito ou menção de copyright se essa editora compra espaço de publicidade nesse número?).

    Os blogues ainda não cumpriram essa inversão de paradigma (pensei que fosse dar-se isso na crítica literária, quando uma série de despedimentos na imprensa portuguesa obrigou críticos a abrirem blogues e a dar-lhes um uso continuado, mas nada de substancial aconteceu: a referência continua a ser o jornal ou a revista em que o crítico escreveu ou vai escrever). Mas, de uma forma mais ou menos elitista (e sim, o Design Observer pode parecer por vezes um pequeno grupo endogâmico de eleitos), creio que esse é o único caminho para já.

  7. carlos diz:

    Já o inverso também é curioso e assinalável.
    Deixei de ler o Ressabiator. Fi-lo devagarinho e sem pensar muito no assunto.
    Quando me apercebi, não fiquei muito perplexo.

    • Bem, fico sempre com pena quando perco leitores. Para o caso de voltarem, tenho sempre uns biscoitos e um café com cheirinho preparado para eles. Estranho, no entanto que, tendo perdido um leitor, não tenha perdido também um comentador.

  8. […] Design Unobserved Deixei de ler o Design Observer. Fi-lo devagarinho, sem pensar muito no assunto, ainda antes da última remodelação. […] […]

  9. Muito bom o texto.

    Curioso… eu também percebo que fui perdendo o interesse no blog ao longo do tempo, e quando a “revolução 3.0” apareceu, me senti imediatamente repelido de lá. Era como se a face corporativa do design norte-americano desse as caras por lá… conservador, um tanto nostálgico, artificial e insosso.

    De qualquer maneira… seu blog me foi apresentado por um amigo hoje. Fiquei feliz. Já vejo que voltarei diariamente…

  10. […] tornando-se mais editoriais, pedagógicos, académicos e completamente desinteressantes – o declínio do Design Observer é talvez o melhor […]

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