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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Michaeljacksonificação dos Jornais

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Há pouco tempo tive a sorte de ainda encontrar à venda um número dos Wednesday Comics, uma antologia editada pela Dc Comics, impressa em papel de jornal no formato broadsheet – o mesmo do antigo Expresso.

Já tinha visto algumas imagens na net, mas ao vivo o impacto era maior. Num primeiro olhar, parecia um comic normal, pequeno, mas abrindo-o (vinha dobrado em quatro) e folheando as suas páginas amplas, lembrei-me de repente como, há muito, muito tempo atrás, os jornais publicavam banda desenhada nas suas edições de Domingo de uma maneira que só pode ser classificada como épica.

Quem se habituou a ler as meias pranchas coloridas do Calvin no Público de Domingo não faz a mínima ideia do que costumava ser uma verdadeira edição de Domingo – pranchas imensas, coloridas, que esticavam ao máximo as possibilidades do grande formato. Os Wednesday Comics recuperam essa sensação de uma maneira enérgica e comovente. Neste formato, as histórias do Super-Homem, do Flash ou de Kamandi, o Último Rapaz da Terra, parecem saltar da página – mais do que uma composição, ganham uma arquitectura.

Merecidamente, os Wednesday Comics tiveram algum destaque na imprensa generalista americana – o que não é de espantar porque é um objecto que tem tanto a ver com banda desenhada como com jornais. Evoca uma época em que estes eram a forma de vida dominante entre os meios de comunicação, vastas criaturas coloridas que vagueavam pachorrentamente entre os antepassados pequenos e esbranquiçados da televisão, da rádio e da internet.

Desde então, tornou-se habitual ouvir dizer que os jornais morreram ou que se arrastam por aí à espera de dias melhores. A maioria lida com a situação aproximando-se a outros formatos, tentando fazer de conta, do modo mais convincente possível, que são uma televisão ou um computador ligado à net, mas os Wednesdays Comics revelam outra possibilidade: porque não fazer de conta que são jornais?

Os editores da McSweeney’s, tal como os dos Wednesday Comics antes deles, parecem ter tido essa ideia: criaram o seu próprio jornal, o San Francisco Panorama, também no formato broadsheet, também com bandas desenhadas, também ele uma edição limitada – neste caso, um só número – mas incluindo tudo o que um bom jornal a sério também teria, artigos, notícia, entrevistas, etc.

Não me parece que iniciativas como estas venham por si sós salvar a imprensa – é pena. São exercícios de nostalgia muito bem conseguidos, mas de alcance limitado – quando muito irão iniciar uma pequena vaga de jornais de artista, a mesma coisa que se tem passado com as revistas e com os livros: depois do anunciado fim da imprensa, têm-se tornado cada vez mais experimentais e sumptuosos, recuperando e extendendo muitas das possibilidades destes formatos. Se calhar, é só um canto de cisne, mas ainda bem – mais vale tarde do que nunca. De certo modo, este deslumbramento tardio pelo formato do jornal, faz-me lembrar aquelas celebridades meio esquecidas que só são apreciadas depois de mortas. Neste aspecto, o santo padroeiro dos jornais poderia muito bem ser o Michael Jackson.

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