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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Tudo e Mais Alguma Coisa

Quando se escreve a crítica de um livro costuma ser boa estratégia lê-lo até ao fim. Há no entanto excepções: pode ser tão mau que nem sequer mereça ser acabado; pode também ser um dicionário, uma enciclopédia ou aquilo que se costuma designar por “obra de consulta.” Neste caso, avaliar a sua qualidade tem tanto a ver com o seu conteúdo – que pode ser medida lendo amostras aqui e ali –, como com o modo como está estruturado.

Muitos livros sobre design pertencem à categoria da obra de consulta, um género que agrada à sensibilidade pragmática dos designers enquanto consumidores. Conota utilidade, dá a entender que não é lido como algo em si mesmo, mas como apoio a outra actividade. Alguns livros de design assumem assim o formato de obras de consulta, organizando-se como dicionários, enciclopédias ou manuais – não por o serem realmente, mas para parecerem mais úteis.

Graphic Design: A user’s Manual, de Adrian Shaughnessy, é um desses livros. O seu nome dá a entender que é um manual; a sua estrutura é a de um dicionário, mas não é uma coisa nem outra. É um livro de ensaios sobre design, escrito num estilo pessoal, usando muitas vezes a primeira pessoa. Os ensaios são temáticos, ordenados por ordem alfabética, cobrindo assuntos como a ética do design, a originalidade, os clichés, as ilustrações vectoriais e por aí adiante. Não há uma grande unidade entre eles, excepto pelo facto de se relacionarem (mais ou menos) com design. Embora sejam interessantes, o modo como estão ordenados torna a sua leitura difícil. Dá a sensação que se estivessem organizados por assunto e não por ordem alfabética, seria um livro bastante mais legível. Agrupados por conteúdo, a leitura de um ensaio levaria facilmente à leitura de outro; ordenados por ordem alfabética, ficam isolados.

Num outro livro, Graphic Design Referenced, de Bryony Gomez-Palacio e Armin Vit (os criadores do extinto blogue Speak Up) o formato de consulta é usado de um modo bastante mais eficaz, talvez mesmo brilhante. Graphic Design Referenced inclui entradas compactas mas informativas sobre tudo e mais alguma coisa, organizadas por grandes áreas temáticas (princípios, conhecimento, representantes e práctica) subdivididas em temas (princípios do design, da tipografia, da produção gráfica, por exemplo e só falando da primeira parte). Desde que o comprei, não consigo parar de folheá-lo: aparece lá tudo, desde revistas, até designers, técnicas de impressão, escolas, museus, bibliotecas. Se algum dia o design anglo-saxónico desaparecesse misteriosamente, podia-se reconstrui-lo a partir deste livro.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Publicações

8 Responses

  1. O Armin Vit veio falar connosco no semestre passado, a convite do Michael Bierut. Ele falou praticamente apenas deste livro e do processo a partir do qual ele e a mulher o realizaram. No fim da aula já ninguém o levava a sério; houve mesmo uma colega minha que não aguentou a conversa e saiu mais cedo.
    Partes da “aventura” incluíam o plano de páginas coladas no caixote do lixo e pilhas de papéis amontoados no escritório de casa deles, entre lenços de papel usados e outros sinais de caos doméstico.
    Segundo o que nos descreveu, apenas foram incluídos no livro trabalhos cujas imagens eles conseguiram os direitos de reprodução: daí não haver, segundo ele (eu não tive ainda oportunidade de ver o livro) qualquer trabalho do Peter Saville, se não me engano. Noutros exemplos, o que não conseguiram encontrar ou obter, eles simplesmente desenharam “interpretações” e dizem-nos agora que é um “guia ilustrado”. Pois.
    A começar pelo seu primeiro livro, “Women in Design” – já considerado deste lado do Atlântico como um dos piores livros sobre design gráfico publicados no séc. XXI – a dupla Vit-Gomez-Palacio não tem propriamente uma reputação de rigor ou seriedade aqui nos EUA (nem o Steven Heller, mas isso é outra história). E foi com essa reputação de pouca seriedade e “chico-espertice”, aliada à possidonite revelada pela polémica com o Rick Poynor à volta do Speak Up (que tínhamos semanas antes na mesma cadeira) que ele saiu da sala. Apesar de nessa altura o livro ainda não estar disponível, a sensação com que ficámos foi que este seria tão medíocre e dispensável como o outro.
    Admito que depois de ler este teu post fiquei com curiosidade de o ver. Como dizes, a crítica de um livro deve ser feita depois deste ser lido, e este não é excepção…

    • Confesso que ando mesmo entusiasmado com o livro. Faz-me lembrar um daqueles almanaques antigos, na medida em que há sempre qualquer coisa nova para ver. Não posso dizer que seja profundo, mas é bastante abrangente (pelo menos a propósito do design americano e inglês). Mas realmente se visse os autores a falar sobre ele, e se o discurso fosse mesmo mau, provavelmente também era capaz de ficar com muito má impressão. Já me aconteceu a mesma coisa com o Steven Heller depois de o ver a falar na Esad. A partir daí nunca mais consegui ler nada dele da mesma maneira. Em geral, procuro sempre avaliar os objectos e o discurso independentemente da pessoa, mas admito que por vezes é difícil ou mesmo impossível.

      (deve ter sido outro designer, porque aparece uma entrada sobre o Saville com algumas capas de discos).

  2. teo diz:

    É verdade! Comprei o user’s manual há umas semanas. Quando me apercebi que de facto estava feito para funcionar como índice, decidi testar-me e lê-lo ate ao fim(afinal de contas são textos interessantes de 2, 3 paginas). Mas ao longo da leitura fui perdendo o interesse e acabei por o abandonar até hoje! Estou sempre a pensar que tenho de o usar mas realmente nao dá nenhuma vontade. Também admito que fiquei um pouco desapontado com algumas coisas que li..
    Um outro livro estilo obra de consulta que acho que funciona melhor é o Influences: A Lexicon of Contemporary Graphic Design Practice.

    No GD:AUM, existe algum ensaio em especial que valha a pena ler?

    • É-me bastante difícil recomendar um, tendo em conta que andei para trás e para a frente, a ler aqui e ali, sem me fixar em nenhum lado (li uma ou duas vezes as entradas dedicadas à originalidade e à autoria gráfica porque têm a ver com o trabalho que tenho andado a fazer, mas não são particularmente profundas). Ficou-me na cabeça o prefácio do Michael Bierut e a introdução do próprio Shaughnessy que falam sobre a importância no design das coisas que o ultrapassam.

  3. No meu comentário anterior esqueci-me de mencionar outra impressão que a visita do Armin Vit deixou: que este livro incluía apenas exemplos daquilo que eles conseguiram encontrar os direitos de reprodução (terá sido o Neville Brody, e não o Peter Saville, a ter ficado de fora?), tratando-se assim de um livro feito “à pressa”, “com o que havia” e sem grande seriedade. Penso que foi essa impressão, a da falta de seriedade e de rigor histórico-científico, que nos chocou. Numa altura que há tanto conteúdo medíocre à nossa volta, mais um livro medíocre era mesmo a última coisa que precisávamos… Mas ainda bem que esse parece não ser o caso – pelo menos no que diz respeito ao design anglo-saxónico, como destacaste e bem.

    • A ausência é de facto a do Brody, do qual não aparece uma entrada. Entretanto, a substituição de imagens e de algumas fontes por ilustrações acontece em algumas timelines ao longo do livro. São imagens pequenas e esquemáticas, pelo que não incomoda particularmente o uso de ilustrações (mesmo que pudessem de facto ter melhor qualidade). É uma opção curiosa em relação ao que está actualmente na moda em termos de reproduções em livros sobre design, onde se usa quase exclusivamente reproduções fotográficas dos objectos, em vez de se recorrer a ficheiros de impressão (como no caso do Graphic Language of Neville Brody) ou de desenhos esquemáticos redesenhados ou retocados a partir de fotografias (como parece ser o caso em Pioneers of Modern Typography, de Herbert Spencer, que também foi muito criticado pelas opções que tomou em termos de reproduções). Já ando há algum tempo para fazer um artigo sobre as sucessivas modas no que diz respeito às reproduções de objectos em livros sobre design. Muitas delas têm a ver com limitações técnicas, mas outras são determinadas por questões culturais.

  4. Limitações técnicas, questões culturais ou, neste caso razões legais…

    • As questões legais como algo que dá origem a uma opção estética são um bom ponto de discussão. Aquando da exposição do Stuart Bailey aqui no Porto, onde ele usava uma série de objectos recolhidos ou produzidos por terceiros, ele disse, meio a brincar, que só fazia estas exposições em sítios onde não houvesse muita probabilidade de problemas de copyright, o que dava a entender que a exposição se deslocava de país para país numa espécie de itinerário pirata. Também é curioso perceber-se como a ilustração era usada em outras épocas como uma maneira de ultrapassar uma limitação técnica e neste momento é usada como uma forma de apropriação legal.

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