The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Se o meio é a mensagem…

A New Yorker é das poucas revistas que leio de uma ponta à outra. Se não o faço é mais por falta de tempo que de interesse. Os artigos costumam ser bons; a temática, variada (embora pairando à volta de Nova Iorque); quando não consigo ler mais nada, sobram-me os cartoons. É comum andar com uma na mochila ou debaixo do braço e foi por isso que um amigo meu me comentou que as capas do Jorge Colombo para a New Yorker não tinham jeito nenhum: porque se haveria de valorizar uma ilustração apenas porque foi feita com um iPhone?

Porque é um desenho feito com um iPhone para a revista New Yorker. A resposta pode parecer tautológica – no fundo, uma maneira educada de dizer “porque sim”, mas não é essa a minha intenção. Também não estou a dizer apenas que esta ilustração ganha legitimidade ao ser publicada nesta revista. Tendo em conta que é conhecida por publicar maioritariamente ilustrações e que estas ilustrações são produzidas pelos melhores ilustradores do mundo (desde Lorenzo Mattotti a Jaime Hernandez, Adrien Tomine, Seth, mas também Sempé, Saul Steinberg, Richard McGuire e André Carrilho)  é bastante evidente que fazer uma capa da New Yorker é uma forma de consagração.

Porém, o desenho não se torna interessante apenas por isso, mas por se enquadrar dentro duma temática dominante das capas da New Yorker: apontamentos sobre a vida urbana nova-iorquina sob a forma de justaposições inesperadas entre a cidade e outras realidades – alguém que cultiva uma horta no topo de um arranha-céus; autocarros de turistas a combaterem uns com os outros como se fossem navios piratas; o mapa de Nova Iorque como se fosse o Médio Oriente. Os desenhos de Colombo, embora de uma forma mais discreta, funcionam como uma destas justaposições. À primeira vista são apenas desenhos em pinceladas rápidas e ambientais de uma cena urbana, evidentemente nova-iorquina. Pelo estilo, não são muito diferentes de uma capa produzida em 1960, por exemplo. No entanto, precisamente por ter sido feita num iPhone, a ilustração ganha um segundo sentido.

Quem ler a New Yorker neste momento percebe facilmente que a revista e talvez a própria cidade – só quem lá vive poderá responder ao certo – está completamente obcecada pelo iPhone. Há aplicações de iPhone que permitem encontrar os melhores restaurantes, as casas de banho públicas, a melhor carruagem de metro (e a melhor porta) para entrar de modo a que se possa sair rapidamente numa determinada estação. O Iphone tornou-se uma maneira de viver a cidade – uma forma de urbanidade. Muitas das ilustrações e artigos da New Yorker reflectem esta obsessão, justapondo o iPhone com cenas tradicionais (num dos últimos números, Chris Ware fez uma ilustração onde os pais consultavam o seu iPhone enquanto os filhos iam de porta em porta no Halloween).

Embora os desenhos de Colombo pareçam desenhos a pincel, foram feitos num iPod com uma aplicação chamada Brushes. Têm a ironia acrescida de, parecendo apontamentos feitos ao ar livre, serem realmente apontamentos feitos ao ar livre. Ao olharmos para eles, imaginamos Colombo numa esquina de Manhattan, desenhando ao ar livre como um impressionista o teria feito em Paris no século XIX; a única diferença é que, em vez da caixa de guaches e do caderno, ele usa o iPod e o Brushes. Os desenhos de Colombo são efectivamente cartoons e não apenas ilustrações. Pela justaposição inesperada do seu estilo e da técnica com que foram feitos, cumprem tudo o que é necessário para serem capas perfeitamente razoáveis da revista New Yorker.

Update: Um artigo de Jorge Colombo sobre o processo que levou a estas ilustrações [Via Jorge Colombo]

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ilustração, Publicações, ,

2 Responses

  1. Curiosidade: o David Hockney é tão purista quanto ao modo como desenha com luz directa que não deixa que se lhe imprimam os trabalhos.

    http://www.nybooks.com/articles/23176

  2. diogo diz:

    não se pode dizer nada…
    🙂

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