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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A década

Quase nem dava conta que a década está a acabar – lembrei-me graças às listas que têm aparecido por aí. Assim, por necessidade de reflexão resolvi fazer a minha própria lista da década, que não é uma lista de compras, apenas um inventário pouco sistemático daquilo que me consigo lembrar dos últimos dez anos.

Foi a década da política, ética e da sustentabilidade. Começou com as consequências do First Things First 2000, continuou com as consequências do 11 de Setembro e da América de Bush; terminou com a América de Obama e a crise económica.

Foi a década dos blogues, sobretudo os de design. Se dantes o design tinha algumas revistas e uns livros de vez em quando, agora é difícil acompanhar o ritmo daquilo que se vai publicando sobre design, tanto na net, como nas livrarias. Foi a década da crítica de design, que floresceu no meio desta abundância de publicações. Foi a década em que os designers começaram a aprender a discutir em público.

Foi a década da McSweeney’s e do seu estilo intrincado de edições luxuosas, variadas e apetecíveis; da Dot Dot Dot e de toda a série de publicações prosaicas e excêntricas que vêm (ou gostariam de vir) da Holanda. Foi a década onde a Emigre acabou, mas antes de partir deixou uma última série verdadeiramente incrível.

Nas fontes, foi uma época hiper-clássica e historicista, nada da experimentação anárquica da década anterior. Nada de novidade pela novidade – uma tendência que se reflecte no próprio design, onde tudo se tornou numa versão de outra coisa qualquer (revivalismos e homenagens; o prefixo “Neo” usado à descrição).

Aqui em Portugal, a novidade foi uma maior consciência do design enquanto disciplina, que se traduziu em conferências, exposições e numas poucas publicações. Acima de tudo, houve os Personal Views – um excelente ciclo de conferências que permitiram ao público português contactar com o melhor pensamento e a melhor prática do design internacional. No entanto, ao destacar estas conferências, não se pode deixar de lembrar a quantidade crescente de conferências ligadas ao design pelo país fora – se a década começou no deserto, terminou numa abundância cujo único problema é a falta de divulgação e de reflexão posterior.

A nível da imprensa internacional, os eventos do design português, desde a Experimenta até à AtypI, são muitas vezes avaliados – injustamente – mais pelo clima ameno do que pela qualidade do evento. Seria interessante começar a fazer conferências no Inverno ou em Bragança, para ver se a crítica estrangeira começava a prestar mais atenção ao conteúdos e menos aos céus azuis e às cervejas. Quanto ao público nacional, ele existe e mobiliza-se, esgotando as conferências e enchendo as exposições. Esta foi, finalmente, a década desse público, em que ele se começou a transformar numa verdadeira comunidade.

Nos jornais e revistas portuguesas , a crítica sobre design gráfico foi aparecendo timidamente, pontualmente – fragilmente. Uma fragilidade que é a do próprio design português, que continua a não conseguir atingir um estatuto público ou a justificar convincentemente a sua utilidade. Já se gasta bastante dinheiro em design em Portugal, mas isso não se traduz em resultados para o design português. Uma série de escândalos e gafes dão regularmente a entender que o dinheiro público é gasto em mau design sem que se perceba como. As opiniões dividem-se entre os que acham os concursos públicos uma farsa e os que acham as atribuições directas um abuso; o verdadeiro problema é a inexistência de responsabilidade ou de vontade de a apurar em qualquer um dos casos.

Filed under: Design

4 Responses

  1. JL Andrade diz:

    Só um aparte… uma vez que não existiu um ano 0, a década não acaba só em 2010?

  2. JL Andrade diz:

    No nosso calendário passámos do ano 1 AC para 1 DC, sem haver um ano 0. Por isso a primeira década foi de 1 DC a 10 DC, a segunda de 11 a 20 e assim sucessivamente. Logo a segunda década do sec XXI, não começa em 2010, mas sim em janeiro de 2011. Como o Mário disse, os anos de 1980 e 1990 pertenceram realmente às decadas de 70 e 80, respectivamente.

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