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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A República dos Designers

No site do jornal O Diabo, apareceram mais desenvolvimentos do caso Cayatte. Além de se fazer um resumo da situação até agora, adiantaram-se declarações da historiadora Fernanda Rollo, comissária ligada às comemorações do Centenário da República.

Rollo minimiza as críticas, confirmando que o site actual é provisório e assegurando que em 31 de Janeiro será colocada online uma versão definitiva, compreendendo catorze sites distintos. Quanto ao estacionário e aos materiais do suporte, esse contrato engloba “a concepção, definição e maquetização do design global do estacionário da Comissão Nacional (serviços estes que se desdobram por várias alíneas, que identificam a diversidade de materiais abrangidos) e a concepção, definição e maquetização do design global dos materiais de suporte à comunicação de uma dezena de iniciativas” e ainda “o design e concepção das exposições do Centenário em Lisboa e no Porto, a concepção das iniciativas República nas Escolas, República e Academia, República das Letras, República e Ciência, República e Cidadania, entre mais de uma dezena de eventos”.

Finalmente, o problema segundo Rollo “está nas pessoas que apenas lêem o sumário administrativo sobre os concursos, sem conhecer, de facto, o que foi pedido”. A frase é significativa: a causa desta confusão toda são as pessoas – ou seja, o público – que tiram conclusões sem saberem do que falam. Mais uma vez é esquecido – como de costume – que o Estado se funda sobre essas pessoas: a palavra “República” vem do Latim “Res Publica”, significando “coisa pública” ou “aquilo que diz respeito ao público”. Comemorar-se a República atirando para o público as culpas de um desgoverno institucional é absurdo mas típico.

Seria bastante mais razoável constatar que a informação apresentada no Portal da Transparência é ambígua. E falar dela como um “sumário administrativo” é uma distorção evidente das intenções originais do site, que, por definição, não se dirige ao burocrata mas ao cidadão comum. Se um leigo não consegue tirar conclusões com base neste site, a responsabilidade não é, com toda a certeza, sua. Na pior das hipóteses, as consequências da falta de clareza do portal levarão muitos iluminados a defenderem que a coisa se resolvia mais depressa eliminando até esta triste sobra de transparência. A verdade é que, no fim de contas e no que diz respeito ao Caso Cayatte, a informação, tal como é apresentada no Portal da Transparência, justifica plenamente a suspeita de que estes trabalhos estariam a ser sobreorçamentados.

O facto dos esclarecimentos só terem começado a aparecer timidamente quase dois meses depois do começo da confusão demonstra também bastante desnorte e, em certas ocasiões, deu-me a sensação que as críticas estavam a ser ignoradas, não por falta de mérito, mas simplesmente por se terem limitado à net. Este menosprezo é duplamente estúpido: em primeiro lugar, o sítio onde aparece uma declaração não afecta o seu valor ou a sua justeza – esta é uma das regras mais básicas da argumentação; em segundo lugar, o meio privilegiado de trabalho dos designers é a net – é portanto natural que muitos designers a usem como suporte para a discussão pública dos problemas ligados à sua profissão. Dito de outro modo: se não é na net que se pode esperar críticas a um site, onde então?

Todo este processo demonstra a cada passo a maneira desmazelada como se gasta dinheiro público em Portugal: irresponsavelmente, como se não passasse pela cabeça de ninguém prestar qualquer tipo de contas. Contrata-se sistematicamente o mesmo designer por atribuição directa, sem que ninguém se dê ao trabalho de perguntar se é o melhor designer e porquê. Fernanda Rollo defende que Cayatte é uma garantia de qualidade, mas como chegou ela a essa conclusão? Tomando em conta o modo como todo este processo está a ser conduzido, Cayatte não é, demonstravelmente, uma garantia de qualidade. Por exemplo, o facto deste site ser provisório não me sossega em nada as dúvidas quanto ao custo da totalidade do trabalho: num restaurante caro, se as entradas são de má qualidade, a própria qualidade da refeição é posta em causa; do mesmo modo, até um site provisório pode e deve ter alguma qualidade gráfica, sobretudo se vai funcionar a sério durante mais de sete meses. Ter sido inaugurado sem qualquer referência ao seu estatuto provisório demonstra mais uma vez uma displicência insultuosa no que diz respeito ao cidadão comum e em particular aos designers, que podem facilmente confrontar o site com o seu custo anunciado.

Seria possível lembrar ainda todas as dúvidas que pairam sobre a justeza destas atribuições directas, ou da ética destes concursos, ou dos possíveis conflitos de interesses envolvidos. Todos esses problemas já foram levantados nos meus posts anteriores, nos comentários que lhes foram feitos pelos leitores e por todos os outros blogues e sites que já escreveram sobre este caso. Vai-se aguardando, com cada vez menos esperança, uma justificação credível para toda esta balbúrdia, e entretanto seria precisa uma retroescavadora gigante, daquelas que se usam em minas a céu aberto, para desenterrar qualquer coisa de claro neste processo. Finalmente, a maneira prepotente como se largam aqui e ali justificações frouxas, como se fossem moedas atiradas a um pobre, acaba por ser um símbolo bem mais eficaz do triste estado desta República do que qualquer logótipo, site ou papel de carta que se possa comprar.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Política, ,

13 Responses

  1. Isto para mim não colhe, tal como não colheu a interpretação “não destrutiva” do Paulo Querido. Mais a declaração de interesses (que pela minha parte posso subscrever e utilizar relativamente ao designer Cayatte, não o conheço e nada me move contra ele). Para além de uma certa ética do design que vais abordando aqui, o que para mim está em causa em primeiro lugar é esta forma do Estado fazer negócio e de se fazer negócio com o Estado. Nesse sentido, a declaração de interesses devia era focar o Estado.
    Se não me engano no dia seguinte li no Correio da Manhã (tem a credibilidade que tem), que só o site terá custado 185.000€. Portanto ao genial design, acresce provavelmente a programação e conteúdo (sem link).
    Se agora é provisório, a minha crença é que antes não o era. Todo o site e o seu anúncio apontam para isso. Agora empurram com a barriga.
    Quanto ao triste estado da República, também li algures que Paredes quer um poste de bandeira de 100 metros… por um milhão de euros. Diz que é para comemorar a dita. Um metro por ano. 10.000€ por metro.

    • Também já ouvi falar da bandeira e do seu pau. Espero que haja um prémio financeiro quando Portugal entrar para o Guiness na categoria da Comemoração Mais Ridícula. Pode ser que compense o dinheiro que se gastou nestas confusões todas.

  2. Coitado do Cayatte: com esta história toda, vai ter que trabalhar mais, ao mesmo tusto. Afinal, é mesmo designer.

  3. andre diz:

    a inveja é o consolo com que se alimentam os mediocres.
    andré.

    • “a inveja é o consolo com que se alimentam os mediocres.”

      A frase é ambígua e não se entende exactamente como pode ser aplicada a este caso. Pode ter duas interpretações completamente distintas. A primeira ofensiva para certo tipo de pessoas, a segunda para um grupo de pessoas completamente diferentes. A primeira interpretação – a mais comum – é que as pessoas que protestam contra o facto de um designer estar a ganhar uma série de dinheiro em circunstâncias pouco claras o fazem por inveja. Muita gente, sobretudo o filósofo José Gil, acredita que Portugal é um país dominado por este tipo de inveja. Pessoalmente, não acredito nisso: não temos nem mais nem menos inveja do que outro país qualquer. A nossa única diferença é que temos muito boa gente disposta a confundir civismo com inveja, o que nos traz à segunda interpretação da frase: as pessoas medíocres que se abarbatam pouco claramente do dinheiro de todos, quando são apanhadas em falta, consolam-se imaginando que estão a ser atacadas por inveja e não por qualquer tipo de espírito cívico. Ou seja, acreditam que, no fundo, no fundo, quem se queixa quer ser como eles.

      Pessoalmente, só tenho inveja dos países onde não se confunde civismo com inveja.

  4. luís diz:

    Mário, tens uma enorme paciência.
    Grande abraço

  5. João diz:

    São relativamente legítimas as declarações da Fernanda Rollo. Por outro lado, este “caso” continua a revestir-se de pormenores sórdidos que fazem sobressair o ilícito.
    No portal base.gov.pt os ajustes directos são efectuados a duas entidades distintas: Henrique Cayatte – Design lda e Henrique Frederico Cantiga Cayatte. Isto porque o Código dos Contratos Públicos, de acordo com o n.º 2 do artigo 113.º não permite convites repetidos para ajuste directo à mesma entida, se o valor do contrato ultrapassar, nesse ano, os 100.000 euros.
    Formalmente, as duas entidades adjudicantes são uma saída airosa para evitar o óbvio ilícito. No entanto, sabemos que será sempre o mesmo prestador dos serviços.

  6. Por acaso tive oportunidade de participar no concurso lançado pelo CPD, destinado a recém-licenciados em design, para o desenvolvimento da imagem das Comemorações do Centenário da República.

    O prémio consistia nuns, bastante atractivos, 5000 euros e mencionava-se a possibilidade de ser desenvolvida uma exposição com base em todas as propostas recebidas, menções honrosas, the works.

    Na data prevista para a atribuição do vencedor recebi um mail de envio colectivo no qual se mencionava que nenhuma das propostas submetidas a concurso possuía qualidade suficiente para que lhe fosse atribuído o prémio (estamos a falar de um universo de, não me recordo exactamente, mas penso que 30-40 designers, com cerca de 70+ propostas, já que era possível submeter até 3 hipóteses, penso eu).

    Custa-me a crer que, de entre esta panóplia de trabalhos, nenhuma obra fosse suficientemente boa para se tornar na imagem oficial do evento mas, enfim… o júri é soberano e no regulamento existia uma cláusula que previa a não atribuição do prémio pelo motivo acima mencionado de forma a não deixar margens para qualquer tipo de discussão.

    Interessante o facto da pessoa que nos atribuiu os códigos secretos que identificavam cada trabalho fazer, mais tarde, parte do júri, mas como nem sequer foi escolhido um vencedor, no fundo, não tem importância nenhuma.

    Resta-nos temer pelo futuro do design nacional, extrapolando esta pequena amostra de incompetência (da qual faço parte, obviamente, não sacudo a água do capote) para um plano mais vasto de milhares (dezenas de milhar?) de recém-criativos que, ano após ano, recebem as boas-vindas ao mercado de trabalho sem possuírem sequer o skill set necessário para enfrentar projectos tão assombrosos quanto um concurso criado, especificamente, para os próprios…

    Devo ser mais um invejoso que para aqui anda 😉

  7. […] mais posts sobre o mesmo assunto aqui e […]

  8. […] que não seria possível fazê-los em Portugal. A isso só pude responder, usando como exemplo o Caso Cayatte, que não se trata de aqui não haver aqui dinheiro para o design, mas desse dinheiro ser gasto em […]

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