The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Clima Ameno

(imagem da autoria de Sena da Silva)

Aqui no Porto choveu durante quase todo o ano de 2009; só mesmo em Agosto é que houve uns diazitos breves de sol. Desde o Ano Novo fez muito frio e até caíram flocos de neve. Entretanto, passei uns dias com gripe mas, ao sentir a chuva e o vento abanarem-me as janelas de casa, confortou-me sempre a ideia de que a meteorologia agreste, se me fazia mal a mim, fazia maravilhas pelo design português. Enquanto designer português, gosto do mau tempo.

Não me compreendam mal: não vejo as tempestades ou o frio como oportunidades para o negócio. Nem estou a insinuar que os designers se dediquem a atormentar agricultores falidos ou donos de cafés alagados, sugerindo que uma identidade gráfica seria uma solução rápida mas improvável  para todos os seus problemas. Acredito apenas que o design português não é levado a sério por causa do bom tempo: quando a Atypl foi em Lisboa, o convite falava mais do clima ameno do que de tipografia e, numa das últimas Icon, a Experimenta era avaliada mais pelo ambiente agradável de Lisboa do que pela qualidade ou não das suas exposições e eventos.

Não vejo mal nenhum que Portugal assuma a identidade de um grande centro de convenções subtropical, mas irrita-me que não se consiga também promover o design português pelos seus próprios méritos. Calculo que, quando um designer se desloca ao Brasil ou a Cuba, tenha a consciência que, para além das praias e das noitadas amenas, estes são países onde o design fervilha ou já fervilhou. Quando um designer vem a Portugal, tem a consciência de que vai beber até às tantas da noite sem ter de abotoar os botões de cima da camisa, enquanto uma jovem designer lhe tenta explicar o que é a Saudade ou o que é um pastel de bacalhau[1].

O design português é envergonhado. Suspeita que talvez nem exista, e sugere – a medo – que se calhar até tem história. Mas se as cidades portuguesas, por exemplo, estão cobertas de muito bom lettering, inscrito na pedra ou caiado nas fachadas, esses bons exemplos servem apenas como outras tantas desculpas para tipógrafos de outros países virem cá passar férias enquanto recolhem e catalogam alegremente a produção local, classificando-a de “vernacular” – que é como quem diz que não foi feita por ninguém, ou pelo menos por alguém consciente do que faz.

Falar do tempo no contexto do design português significa que já se fazem boas convenções e bienais, conferências e exposições, que os designers portugueses já têm boas capacidades de organização e de hotelaria, mas que lhes falta ainda a capacidade para tornarem o seu design numa coisa interessante e viva, da qual se queira fazer parte, tal como se quer fazer parte da vida de uma pessoa que nos atrai – tudo isto para dizer que o design português não é particularmente sexy; para isso precisaria de estar vivo.


[1] As jovens designers que lerem este texto irão achar que este é um comentário sexista e têm sem dúvida razões para isso. Em minha defesa só posso alegar que assisti mais vezes a cenas em que jovens designers portuguesas explicavam o que é um pastel de bacalhau a um designer de renome internacional do que a cenas em que jovens designers portugueses explicavam a mesma coisa a mulheres designers de renome internacional. Os circuitos da fama do design pendem – injustamente – a favor dos homens, mas seria bom que num futuro próximo designers de ambos os géneros tivessem iguais oportunidades de explicar o que é um pastel de bacalhau a designers internacionais de géneros compatíveis.

Filed under: Crítica, Cultura, Design

9 Responses

  1. JL Andrade diz:

    LOL. O texto está agradável, mas a nota de rodapé está fenomenal. Design com palavras?

  2. Essa última nota é divinal, Mário.

  3. Bruno Monteiro diz:

    Mario,

    Gostei particularmente deste post, pois estando a receber diversas visitas de pessoas provenientes de países europeus mais a norte compreendo essa noção da visita a um país um pouco mais amenos onde os copos vão até mais tarde, e as sucessivas queixas por nossa parte de que “isto não é assim tão bom, vocês lá em cima é que estão com sorte porque as coisas é que acontecem por lá”… voltamos ao medo de existir.
    Temos que ser mais interessantes e vivos mas não para atrair, é um passo fundamental para nos sentirmos bem connosco em primeiro lugar, e só assim se tem disponibilidade para um bom trabalho criativo .

  4. “O design português é envergonhado.” Fuck, vous étes le design portugais. Je suis seulement un jeune apprenti. So… medo de existir? Olha! Eu estou aqui! Sem medo de existir.

    E se os caros leitores do Mário, que trabalham nas artes visuais, pensam que isto é só um forma de dar nas vistas, podem tirar o cavalinho da chuva. Eu já dou nas vistas há muito tempo. Lamento imenso que o vosso design não consiga dar nas vistas.

    Isto é local melhor para fazer uma afirmação tanto como o vosso café.

  5. pedamado diz:

    Mário:

    Tinha saudade das metáforas. Até porque já cá não passo tantas vezes como devia…

    Reforço os parabéns do Andrade e do Fábio — a nota de rodapé é um vislumbre do Mário que conheço.

    Para não variar, já dei uma no cravo.
    Agora uma outra na ferradura: Não sei se percebi o uso que queres fazer do “vernacular” nessa parte do post.

    Por um lado, custa-me a entender este conceito no nosso contexto nacional (até porque temos outras palavras para o descrever). Por outro, dada a tinta que já se gastou para definir este termo acho que fazes um classificação pouco precisa das “Nicolettes, Fiores e Dixons” que nos visitam.

    Queres aproveitar a deixa para escrever um pouco sobre o “offshoring” cultural do Design? (Referência escandalosamente roubada ao livro o Munod é Plano do Friedman, que ainda não acabei de ler…)

    Já que estamos no tópico, aqui fica a proposta de uma framework de análise da Tipografia Vernacular brasileira da Priscila Farias:
    http://www.ustream.tv/recorded/3313235

    • Bem-Vindo de volta.

      A definição que uso de vernacular no contexto deste post é a de uma coisa que, mesmo que não seja anónima, é usada deste modo por conveniência ou por condescendência. Algo que está disponível para o uso ou para o roubo precisamente por esse anonimato.

      O conceito de vernacular dentro do design sempre foi um pau de dois bicos: por um lado é a valorização de uma cultura que passa desapercebida, mas por outro essa valorização nunca é feita pelas pessoas que produzem essa cultura, mas pelas que se aproveitam dela. O conceito de vernacular implica sempre uma hierarquização.

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