The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Desenrascanço e Design

Prolongando o tema da semana passada, a identidade nacional, entendida como aquela coisa difusa que se tenta descrever, de uma forma mais ou menos alcoolizada, em Inglês mais ou menos macarrónico, a visitantes estrangeiros (também eles mais ou menos alcoolizados), chegou a altura de falar do desenrascanço, um conceito que, para além das três primeiras letras, tem pontos de contacto inesperados com o design.

Não é difícil verificar que os portugueses se revêem no desenrascanço, considerado-o uma aptidão essencial, talvez mesmo o único ponto contagiante da nossa deprimente identidade nacional. Por exemplo, o primeiro resultado no google dá uma lista das dez palavras mais cool que poderiam ser importadas para a língua inglesa, onde o desenrascanço aparece surpreendentemente em primeiro lugar, à frente de palavras que descrevem “uma cara a precisar mesmo de um murro” ou “alguém que interrompe inoportunamente uma refeição”.

Nesse site resume-se o desenrascanço invocando a figura tutelar de MacGuyver, que conseguia safar-se de qualquer situação construindo mísseis a partir de mortalhas de cigarro ou bombas com iogurtes quase fora do prazo. Contudo, mesmo aqui há um pequeno mal entendido: enquanto as proezas do MacGuyver se fundavam de modo mais ou menos convincente nos seus conhecimentos de física e química, o desenrascanço assenta na ignorância de quem o pratica – no mesmo site, sublinha-se que o desenrascanço faz parte do ensino universitário português, onde é considerado uma característica positiva. Segundo outro site, esta aptidão é estimulada por professores que exigem aos seus alunos conhecimentos sem contudo lhes indicar a forma de os obter. Assim, o desenrascanço seria o acto de resolver um problema à última da hora, sem conhecimentos, meios ou planeamento.

Pelo contrário, poder-se-ia definir o design como o acto de projectar ou planear qualquer coisa. Concluir que os dois conceitos se opõem como o quente e o frio ou o dia e a noite é tentador, mas a realidade é mais complicada. Por exemplo, quando consultei os meus alunos sobre este assunto, eles responderam que, segundo a experiência deles, não só o desenrascanço tinha a ver com o design como até era essencial à sua prática[1]. Do mesmo modo, e pelo que conheço dos meus colegas que exercem design profissionalmente, o desenrascanço também faz parte da sua metodologia habitual: também eles trabalham à última hora e com poucos ou nenhuns meios[2].

No meio disto tudo, ninguém se parece dar conta da possível incompatibilidade entre design e desenrascanço. Utopicamente, o design seria uma boa metodologia para combater o desenrascanço – com doses homeopáticas de design os portugueses seriam um bocadinho menos portugueses e um bocadinho mais suíços, britânicos ou teutónicos. No entanto, é fácil perceber que a coisa não funcionou e se calhar nem existe design em Portugal mas apenas uma forma especializada de desenrascanço gráfico – ou, segundo as últimas tendências – de comunicação.

[1] Sobre desenrascanço e ensino, ver acima.

[2] Desde há anos que acredito que, em Portugal não se deveria comemorar o Dia do Design mas a Véspera do Design.

Filed under: Crítica, Cultura, Design

23 Responses

  1. cruz diz:

    Ó Mário, não estaremos a esquecer o factor adversidade. O desenrascanço do McGuyver faz-se notar sobretudo em situações de adversidade. Contra a adversidade não há plano que resista.

    Podemos mesmo encarar o desenrascanço como forma de implementação de planeamento em situações de grande adversidade, e já agora também não nos podemos esquecer do destino e do grande desígnio, factores de grande importância em sociedades cristãs como a nossa. Design sim, mas against all odds (só para juntar o Phil Collins ao McGuyver), só mesmo com desenrascanço.

    • Já tinha pensado nisso e cheguei à conclusão que o desenrascanço entendido como uma virtude é uma treta. Se um português é desenrascado das 4 às 5, no resto do tempo é um chico-esperto (empreiteiro, designer, burocrata, etc) dedicado e extremamente competente na arte de enrascar a vida dos outros, inventando mil e uma maneiras de lhes moer a cabeça. Se por um lado tem orgulho de fazer alguma coisa com poucos meios, o português típico não trabalha (quase que escrevia “não descansa”) enquanto a firma não lhe arranja um carro de pelo menos 100.000 euros (mas consegue-se desenrascar com um de 50.000). Boa parte da nossa adversidade é apenas o efeito do desenrascanço dos outros.

      É claro que podemos pensar no desenrascanço como quem pensa numa espécie de super-poder. Em Portugal, sujeitos a uma burocracia e a uma chico-esperteza muito superior ao normal, os efeitos positivos não se notam. Mas quando os portugueses são enviados para outros países, Iraque, Afeganistão, Haiti, etc. sob o efeito da gravidade menor e do sol amarelo transformam-se no super-homem. É uma ideia interessante, mas ainda assim, tendo em conta que só tenho de lidar com o problema dos portugueses em Portugal, e em detrimento dos iraquianos, afegãos e haitianos, preferia que houvesse menos desenrascanço.

  2. Mário… Gostava de saber o que diria então, sobre design, um crítico do desenrascanso.

  3. romanear diz:

    Eu achava que isso era uma característica do design brasileiro… Tô vendo que além-mar as coisas são muito similares

  4. Ricardo Figueiroa diz:

    Post interessante : ) Acho que depende da interpretação que fazemos de desenrascanço. Uma escola de pensamento dirá que desenrascanço tem que ver com a capacidade de criar atalhos baseados no chico-espertismo, preguicite aguda e ignorância. Uma escola de pensamento oposta diria que tem que ver com uma postura criativa, de optimismo (ou fezada!) e resolução de problemas de forma não convencional.

    Concordo que a definição anterior impera no panorama nacional e é proclamada orgulhosamente como uma caracteristica definidora da nossa identidade e pouca relação tem com o design. A última no entanto, tem vários paralelos com a actividade do designer. Embora o acto do design tenha que ver com planeamento e execução de um plano, acredito que tem também, em igual medida, que ver com o uso da intuição. Claro está, intuição informada.

    Penso que, culturalmente, estamos mais inclinados a respeitar a intuição como força criativa do que outras culturas. A tal “fezada que isto vai funcionar” ou a “fezada que é por aqui o caminho certo”. Esta postura tem muito que ver com uma atitude de risco e experimentação que multiplica as possibilidades de criar soluções inovadores e não apenas soluções incrementais.

    Proponho o seguinte: que tal usarmos esta ideia em nosso benefício? Sabemos que:

    – O desenrascanço entendido como conceito (embora abrangente nas suas diferentes interpretações) é uma ideia com bastante tracção própria (ou stickiness como diria o Malcom Gladwell) e com grande poder de disseminação.

    – Os Portugueses adoptam o desenrascanço como parte da nossa identidade.

    Que tal começarmos a associar o acto do desenrascanço com o acto de tomar decisões de forma intuitiva? Isto tem que ver precisamente com o que o Mário disse com a analogia do Macgyver. Trata-se de utilizar a fezada com base no conhecimento: The Ultimate Fezada ou The Ultimate Desenrascanço ou Desenrascanço 2.0.

    Vamos usar como veículo o facto deste conceito ser tão memorável e pender a balança para uma definição de desenrascanço que assente no conhecimento.
    Pode ser que a nossa identidade nacional comece a ser um bocadinho menos deprimente : )

  5. Ana diz:

    Devo dizer que se torna cada vez mais deprimente ouvir portugueses a serem tão pessimistas em relação a si. O “desenrascanço” não deve ser uma característica tão comum aos portugueses quanto o pessimismo. Essa alusão ao “desenrascanço” como acção generalizada, não é mais do que xenofobia, aliás é até mesmo muito triste enfiar todo o povo português dentro do mesmo saco e atreverem-se a dizer que esta prática é ensinada nas universidades. Gostaria de saber onde, em Portugal, tal acontece, porque nem mesmo nas piores universidades particulares acredito que o façam.
    Por experiência própria posso afirmar que esse “desenrascanço”, esse fazer tudo à ùltima hora não acontece só em portugal. Na bélgica, onde estive em Erasmus, diria que mais de metade da minha turma (com propostas de um semestre) começou a trabalhar na última semana. Porque será então que nós, portugueses, somos sempre os “preguiçosos”?

    A única coisa que aprendi na minha escola de erasmus foi: VALORIZAR A FBAUP, logo, valorizar o design português.

    • Pardo diz:

      O que diriam os espanhois se fossem suficientemente “desenrascados” para conseguir lêr este texto. Mais chico-espertos que eles nao existe igual na Europa.

      A necessidade (pressao, timing, etc.) aguça o engenho (desenrascanso).

  6. Ed diz:

    Relativamente a este assunto queria só deixar a minha solidariedade para com o comentário da Ana.

  7. Mário penso que estás a confundir desenrascanso com chico espertisse, ou melhor, a juntar tudo no mesmo saco. São coisas diferentes. Talvez não será a melhor palavra para descrever o que muitas vezes os designers portugueses e de todo o mundo têm que fazer. O “desenrascanso” significa resolver um problema que necessita de uma solução urgente. Planea-se sim essa solução. E isso também é design. Eu por exemplo quando planeio uma coisa planeio também a sua possivel falha e como resolver essa falha. Se mesmo assim isso não for suficiente há que planear em cima do próprio problema. Isto no meu entender é ser desenrascado. Vejo mérito nisto. Preocupo-me mais com os portugueses que são atados. Até fazem as coisas bem e são bons profissionais mas se algo de errado acontece não conseguem resolver. Se salgas o arroz quando ainda está a cozer, para quê deitar fora e fazer outro? Juntas uma batata e pronto, fica bom. Não vejo mal nisto.

  8. […] Há uns dias, o Mário Moura (que insisto em referenciar) falava no seu blog de desenrascanço. Não vejo exemplo mais esclarecedor do que qualquer um destes logótipos de que o desenrascanço […]

  9. Hugo diz:

    Um post desenrascado. Parece que a interpretação do Mário Moura para “desenrascanço” ligado ao universo do Design Gráfico Português não é a melhor. O comentário da Ana é acertado, não podemos por todos no mesmo saco. E se olharmos para o panorama internacional não é só neste país que vimos em algumas situações no desenrascanço.

    Se entendermos o desenrascanço como fazer muito como muito pouco, não sendo uma grande solução, é uma realidade que todas as empresas passam pelo menos uma vez. Outras tem que viver com isso no dia-a-dia, mas existem sempre vantagens e desvantagens que se compreendem quando trabalhamos no dia-a-dia no projecto em Design. A critica desenrascada ao Design Gráfico Português desta vês não foi a melhor.

    • O meu problema com o desenrascanço não é ele acontecer (ele acontece em todo o lado), mas o facto de se acreditar que ele faz parte da nossa identidade nacional. De haver uma certa obrigação de nos conformarmos e até de nos orgulharmos dele. Todos os países desenrascam, mas aqui isso é feito com orgulho e altivez. Como uma maneira bastante conformista de aceitar que não é possível planear o que quer que seja.

      Toda a gente tem direito à sua opinião sobre o desenrascanço como sobre todo o resto. Pessoalmente, gostaria de ter o direito a planear a minha vida com mais de três dias de avanço, sem ter de estar à espera que um desenrascado/chico-esperto qualquer me passe à frente na bicha, me dê cabo do que fiz, etc. Também não acredito na ideia do desenrascanço como fazer muito com pouco, mas apenas como uma racionalização mal amanhada de se ter deixado tudo para a última. Pessoalmente, acredito que o desenrascanço deveria ser aquilo que o design deveria resolver e não aquilo que resolve o design.

      A quem acha que o desenrascanço é bom, só desejo que tenha de aturar os efeitos de alguém mais desenrascado do que ele ou ela.

  10. Nuno Rodrigues diz:

    Será que uma palavra para definir melhor o que se tem falado de “aspecto positivo” do desenrascanço não será qualquer coisa como engenho?

    Desenrascar não tem por certo um teor positivo, mas é algo que se passa nas vidas de todos pelo mundo fora. Não é necessáriamente um sintoma português.

    De qualquer forma onde vi pela primeira referências a esta associação entre português e desenrascanço foi na wikipedia…O que me leva a pensar que, ou foi feito no gozo, ou foi feito por um não português a quem lhe foi explicado este conceito.

    Quanto ao Design Português…se há coisa de que que o português sofre é do pessimismo já referido e de achar que o que está lá fora é que é bom! Trabalhar num café em Portugal nem pensar mas se for em Londres já pode ser. Essa atitude transparece para tudo o que fazemos e é algo que já vem desde a Idade Média.

    O “Design” não é de ninguém e é de todos. Há mentes criativas pelo mundo fora e se não se fala mais em Design Português é porque não temos a capacidade de o promover. Ainda à uns tópicos atrás se falava de Sena da Silva…

    Desenrascar faz parte do quotidiano de todos nós, é algo intrínseco ao ser-se humano, não vamos fazer disso um sintoma nacional nem por sombras associar à profissão que é ser-se designer.

  11. c.m diz:

    A”vida” parece-nos estar planeada para o ser-se desenrascado. Mas a “vida” não é isso (desenganem-se), a prova-lo está o tempo.

  12. Nelson diz:

    Acho que este tema foi levado ao extremo. O saco de incompetência imposta aos portugueses pelos portugueses está cheio, em parte, devido a dissertações como esta.
    Não somos tão bons como gostaríamos de ser, mas jamais somos tão maus como nos querem pintar.

    Nos dias que correm hoje, a maldita “crise”, o desemprego constante, a falta de confiança, o medo de investir… Parece o cliché do costume mas o que quero dizer com isto é que a meu ver não é o design/designer o perito em desenrascanço.
    É mais o cliente que não pretende arriscar demasiado e não quer cair da corda bamba em que se encontra à muito tempo. Com isto digo que é mais fácil ouvir um cliente dizer “desenrásca-me”.

    Dava pano para mangas esta conversa mas vou também eu trabalhar antes que a minha corda bamba tambem ceda e já não possa desenrascar os clientes.

  13. c.m diz:

    Mais rápido que a própria sombra. He he

  14. Eu sou designer e sou desenrrascado…

  15. Aqui no Porto, apenas na empresa onde trabalhei me foram ensinadas algumas fórmulas para resolver impasses… umas coisas de marketing onde, por exemplo, os “brainstorms” desordenados são substituídos por uma espécie de jogos regrados… Na escola, as maioria das aulas práticas de design gráfico foram o “vê te t’avias”.
    Estudei na Holanda, meio ano, e lá ensinaram-me um método na escola. Aqui não. Pelo contrário, durante os meus tempos de estudante, fui incentivado a pensar pela minha própria cabeça na escolha do método. Isso tem aspectos positivos e aspectos negativos… mas não que estivesse nesta diferença a razão pela qual a “paisagem gráfica” lá fosse ligeiramente melhor.
    Na Holanda o design que aparece na rua é melhor é porque os clientes têm mais dinheiro e podem escolher melhores designers. É simples. Aqui não… A maior parte dos trabalhos são feitos por pessoas que não trocam o sono pelo aprofundamento do estudo e da prática do Design. Trocam o sono para trabalharem ao metro.

  16. design351 diz:

    Nunca tinha comentado neste blog e faço-o agora pela coincidência que há com o primeiro post que coloquei no meu blog – http://design351.wordpress.com/ (ainda um pouco desafinado, ºpeço desculpa).

    De facto, somos conhecidos pelo desenrasque e fazendo uma analogia com o design, parece-me, realmente , que entram contradição: na teoria o design é metodologia.

    Mas a realidade pura e crua é que o design é realizado, na maioria das vezes, sobre pressão. E então aí pensamos: Não será o desenrasque uma boa metodologia? Porque se o mercada (não digo que correcto, pelo contrário) pede o trabalho num pequeno espaço de tempo, não será melhor alguém desenrascado, (atento ás boas ideias e capaz de produzir a partir disso, bons resultados) em vez de alguém que fica bloqueado com a pressão.

    É claro que todos gostaríamos de dizer que não, porque uma boa ideia não nasce com o estalar dos dedos e merece o seu tempo de maturação… mas quando “no terreno” esse tempo não existe…então sim, será útil o desenrasque.

    Outro assunto (e é esse que retrato no meu texto) é fazer do desenrasque o estilo do design português. Acabamos na cópia e sem identidade. É esse o tipo de desenrasque que devemos combater, o que nos tira o estilo.

  17. […] o desenrrascanço e o design by Mario Moura : The ressabiator […]

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