The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Conclusão

Chegado o dia 31 de Janeiro, tenho que confessar que esperava – embora sem convicção – que o site do centenário da República se tivesse transformado em algo diferente, talvez melhor. Na realidade, a única diferença visível foi o acrescento de um banner irritante e mal posicionado a anunciar eventos ou funcionalidades (pelo menos no meu browser, só aparece o canto esquerdo antes de desaparecer). O resto continua, tanto quanto pude perceber, na mesma.

Pode ser que o novo site esteja apenas atrasado mas, como de costume, nada o indica. Os problemas que tinha, continuam lá. Por exemplo: num site baseado em verdes e vermelhos não era possível ter uma paleta de cores coerente? Porque têm as barras de separação mais protagonismo que os elementos que separam? Porque tem a barra de separação maior uma borda escura na margem superior, parecendo um jpg ratado? Dir-se-á que são apenas pormenores, mas estamos a falar de design cobrado a preço de ouro e não de dois estagiários de engenharia a martelarem distraidamente um site enquanto jogam World of Warcraft online.

Em todo o caso, a situação coloca-se para além do mero profissionalismo no que diz respeito ao design gráfico. Trata-se de um caso em que designers trabalham em público e para o público, o que implica uma postura rigorosa e a capacidade para prestar contas convincentemente perante o público e os pares.

Todo este caso começou nos blogues monárquicos, foi referido no i online (não sei se chegou à edição impressa) e antes de ir parar aos blogues de design já tinha feito um percurso turbulento pela internet (consigo imaginar uma sucessão de carinhas iluminadas por ecrãs a exclamarem sucessivamenta “porra”, “foda-se” e “que escândalo”). Durante esse tempo, nada se ouviu da parte de Cayatte ou dos responsáveis pelas comemorações. O pouco que me chegou dessas bandas foi através de testemunhos indirectos em inaugurações ou saídas à noite. Desse diz-que-disse percebia-se que o caso não era levado a sério porque estava a ser discutido online e não nos meios de comunicação “sérios” (leia-se nos jornais ou na televisão). Porém, e já me cansa lembrá-lo, a respeitabilidade de quem denuncia não afecta a validade da denúncia. De resto, o primeiro – e tanto quanto pude perceber – único comunicado apareceu naquele pilar internacionalmente reconhecido do jornalismo de investigação: o Diabo online! Nesse contexto, já nem parece muito despropositado que esse comunicado seja usado para deitar as culpas da situação para cima do cidadão preocupado, tal como é tradicional numa boa celebração da República.

Quanto ao facto da responsabilidade desta situação continuar a ser muito pouco clara, nem devia ser preciso notá-lo: uma imagem gráfica cujo concurso é anulado e atribuída directamente a um atelier pelo dobro do preço, e que é aplicada por outro por dez vezes isso, sem que tenha havido concurso ou pelo menos uma declaração pública de responsabilidade por essa decisão? Já nem pergunto, como José Bártolo, quem tutela o design; bastar-me-ia saber quem o encomenda e de que modo Cayatte se tornou o designer de facto do Estado Português. Notem que esta não é sequer uma questão de gosto ou de animosidade pessoal: gostaria apenas de saber como o Estado escolhe os seus designers.

No fim de contas só pedia, como cidadão que vota, uma politica para o design. Eu sei que o design não é uma primeira necessidade e que há famílias com fome e que o pais está endividado e que há mais coisas em que pensar, mas – já que estão a gastar dinheiro em design – porque não fazê-lo de maneira séria e consequente?

Filed under: Crítica, Cultura, Design

7 Responses

  1. Diana Vieira da Silva diz:

    Parece-me que tudo começa pelo logótipo, que não funciona em nenhum dos suportes.

  2. O logo até me parece bom. É um balão de fala vazio. Aberto a possibilidades discursivas individuais e colectivas. Se partirmos do princípio que este logo simboliza um acto de comunicação do representante que elegemos para a nossa República, se considereamos que só os que poder igual a “vox”, se numa República todos têm responsabilidade, deixar em branco era a única possibilidade. É um raciocínio possivel… Se é mais ou menos interessante este raciocínio? Dependerá de quem julga. Tecnicamente, não lhe encontro grandes falhas. Funciona em pequenas dimensões. Tem várias possibilidades de articulação entre elementos… As cores são as da bandeira da República Portuguesa mas um pouco esbatidas… Está leve. O tipo é elegante e legível e tem detalhes interessantes. Talvez não seja a cara do nosso presidente, mas é o que se arranja e safa muito bem.
    O mesmo não se pode dizer do site.

  3. JL Andrade diz:

    O banner(s) fazem publicidade às páginas já mencionadas à direita, “em cartaz” e “nas escolas”. É por isso que uso vários browsers, ainda existem aqueles que não testam, mesmo por 99 500.

  4. Luis Ferreira diz:

    Caro Mário, conversava hoje com um arquitecto sobre esta questão que se riu de mim, mostrando-me um caso que se discute na arquitectura sobre algo semelhante.
    Fica aqui o link para mais uma situação de ajuste directo neste país, dedicado sobretudo a quem acha que uma ordem dos designers resolveria a questão (estou obviamente a ironizar): http://5dias.net/2010/01/20/parque-escolar-a-escolha/
    A lista de ajustes está nos comentários. A primeira parte da listagem diz respeito a arquitectos com relação directa com a Ordem.

  5. Shizuka diz:

    O site é tão simplório e desinteressante quanto a actual politica portuguesa!
    Não poderia de certa forma retratar melhor o estado da nossa república.
    Mostra-a frágil, mal estruturada, tacanha…e pior a gastar o que não tem.

  6. […] Site Oculto 23 de Fevereiro de 2010 por Tiago Mota Saraiva O Mário Moura tem publicado diversos textos sobre a forma como a República, digo o Estado, adjudicou sem […]

  7. Pedro Neta diz:

    Tanto quanto sei o Cayate era Júri do concurso para a identidade mas anulou o mesmo (por suposta falta de qualidade das propostas) e depois fez abjudicação directa e manteve o controlo sobre a produção dos materiais. Isto é o que eu ouvi algures, OK, prontos! De fonte segura 🙂

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