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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O ensino do design e o fim da crítica

Quando comecei a escrever, pensava que a crítica de design era uma coisa rara e recente em Portugal. Pensava que o design português era uma actividade pragmática mas calada, muda. Pensava inclusive  que muitos dos problemas crónicos da disciplina derivavam precisamente dessa incapacidade de reflectir em público sobre si mesma. Continuo a acreditar nesta última parte mas, com o tempo, fui descobrindo que a critica de design em Portugal não era uma coisa assim tão recente e que o design nem sempre foi tão mudo.

Depois de ler os textos de Sena da Silva, mas também os de Daciano, Aurelindo Ceia ou de José Brandão, fui mudando lentamente de opinião. Sena da Silva, por exemplo, escrevia regularmente para jornais e revistas, apresentava os seus  textos em conferências; tinha pontos de vista bastante opostos às correntes dominantes do pensamento sobre design da época. Ia sendo regularmente polémico, defendendo coisas ainda hoje tão controversas como a ideia do design como uma forma de cultura geral – que no limite pode ser entendida como uma crítica ao design como algo que só pode exercido ou comentado por pessoas com formação especializada.

Boa parte dessa critica de design que ia polvilhando as revistas e os jornais das décadas de sessenta e setenta tentava argumentar uma função para o design na vida pública portuguesa, reflectindo sobre o seu papel social, ético, pedagógico e político. Foi, em larga medida, essa actividade critica que foi demonstrando a necessidade de cursos universitários onde se ensinasse o design, de associações profissionais e de legislação que regulassem e estimulassem a sua prática.

Mas, curiosamente, mal começaram a aparecer os cursos e as associações, a crítica foi-se apagando rapidamente.

Por vezes, pergunto-me se uma coisa não terá a ver com a outra – pelo menos no que diz respeito ao ensino – e se a concretização desta institucionalização do design não deu cabo da crítica que lhe deu origem. Quem dá aulas numa universidade, por exemplo, sabe que a sua carreira depende sobretudo de trabalhos de longo curso como dissertações de mestrado e teses de doutoramento. Estes trabalhos tendem a ocupar quase totalmente a sua disponibilidade para a escrita. Quando se está a meio de uma tese é difícil arranjar tempo para escrever o que quer que seja para além disso. Há também a tendência para adiar para depois das teses as opiniões que possam pôr em causa a carreirita. Na maioria dos casos, nem aí chegam a aparecer. Por outro lado, as próprias instituições tendem a ver com maus olhos quem  avalia o trabalho dos seus membros com outros critérios que não os seus. Muita gente acredita que está acima da critica simplesmente porque dá aulas num estabelecimento de ensino, porque é doutorado, porque já deu provas quanto basta, etc.

É claro que ninguém devia de estar acima da crítica. Ou, mais exactamente, ninguém deveria estar acima de ser alvo de uma opinião por algo que faz em público. No entanto, muita gente acredita no oposto e o problema é que muita dessa gente dá aulas e transmite esse ponto de vista aos seus alunos, criando deste modo mais uma geração medrosa e conformada, que anseia, mais do que tudo, subir rapidamente até aquele ponto da carreira em que não tem que prestar contas a ninguém. Gostaria de acreditar que o sonho da critica de sessenta e setenta era algo melhor do que isto.

Filed under: Crítica, Cultura, Design

5 Responses

  1. Pedro diz:

    Não poderia concordar mais. A dificuldade em falar sobre design de uma forma clara e lucida, como tem vindo a fazê-lo aqui (e muito bem), não se compadece com as cumplicidades das instituições e dos “grupos” que conhecemos. Como estudante, sempre foi muito dificil que aceitassem uma opinião genuina, uma critica. Normalmente ficava com a ideia que não era válida porque ainda não tinha dado provas suficientes (públicas) de estar à altura. Mais, a grande maioria dos professores de design evitam um discurso tangível aos “mortais”. Os designers formados por eles, tendem a ter a mesma atitude.

  2. Pedro S diz:

    Tal como diz, infelizmente aquilo que vejo é que muitos desses críticos do antigamente se encontram colocados num pedestal, logo acima da crítica, não prestando contas a ninguém, por vezes desligados da realidade do mercado comum, exercendo como professores mas não como designers há algum tempo, passando por vezes alguma deturpação para os seus alunos.

    Por outro lado pergunto-me será que existem designers de elite em Portugal, ou um grupo de designers elitistas? Não será tão válido o trabalho do designer que faz os folhetos para um supermercado quanto o trabalho daqueles que fazem catálogos para museus? O que faz alguns designers sentirem-se superiores aos restantes, será a educação, a experiência, a idade, os clientes que tem ou teve, o volume de facturação que tem ao fim do mês?

    E quem pode desafiar esse status quo, esse sistema de elites invisivéis? Com que armas? Nenhum aluno poderá desafiar o seu professor sabendo que este lhe poderá dificultar a futura vida profissional se tiver influência para isso. Existe tráfico de interesses ou de influências no design em Portugal? Quem deve favores a quem?

  3. Caro Pedro S
    Tentarei responder a duas perguntas com a minha opinião. São as que consigo responder rapida e sucintamente.
    “Não será tão válido o trabalho do designer que faz os folhetos para um supermercado quanto o trabalho daqueles que fazem catálogos para museus?”
    É sim senhor… mas normalmente não corre tão bem por causa dos gestores e directores de marketing. Esses tendem a passar o limite das suas competência exercendo funções no desenho da comunicação. Normalmente não Serralves, são já agências de publicidade que desenvolvem a imagem de instituições culturais e o trabalho, a identidade do cliente, vai-se desfazendo na imagem que adopta.
    “Existe tráfico de interesses ou de influências no design em Portugal?”
    Que eu saiba não. Trabalhe sem se preocupar com isso.

    🙂

  4. Onde se lê: Normalmente não Serralves
    Deve ler-se: Por exemplo hoje em dia em Serralves

  5. Isabel diz:

    Não posso concordar com alguns pontos desta crítica, pois a ideia que tenho é diferente de algumas das coisas aqui referidas ;).
    Sou licenciada em design gráfico, pelo IPCA, e enquanto estudante sempre tive professores que sublinharam a importância da crítica, das discussões, do levantar questões, de participar, de forma activa, nas palestras, conversas, discussões, eventos, … Em momento algum os meus professores me passaram qualquer tipo de medo no que diz respeito a este assunto, muito pelo contrário sempre passaram a ideia do quanto é necessário opinar, criticar e trocar ideias de forma consciente para puder crescer e evoluir enquanto designer. Fizeram do respeito pelas diferentes opiniões, ordem, assim como a troca de ideias, a crítica, a exposição da nossa opinião, sempre que assente em factos credíveis.
    Não sei se foi apenas sorte com os professores que encontrei durante o percurso académico que fiz até agora ou se é um caso raro 😀 no entanto acho que isto mostra que cada vez mais as pessoas da área sentem necessidade de falar sobre o design e de mostrar os seus trabalhos, esperando e valorizando cada vez mais a opinião do outro. Havendo, na minha opinião, uma necessidade crescente de trocar ideias e da valorização, não do designer mas sim do design.

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