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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Regresso a Serralves

Durante cerca de três anos deixei de ir a Serralves. Fi-lo como uma forma pessoal de boicote. Na sequência de uma série de discussões, intervenções e textos, alguns amigos meus e eu mesmo tentámos problematizar a relação de Serralves com a chamada “Cena Independente do Porto”[1], em particular no que diz respeito à economia da arte.[2] Um dos problemas que nos incomodava era a maneira como Serralves usava o seu número anual de visitantes para legitimar a validade da sua politica, assumindo que cada pessoa que entra pela porta do museu conta como um voto de confiança incondicional a tudo o que Serralves decide ou não fazer. Já me chateia que se assuma que as pessoas são uma massa acrítica e indiferenciada, mas que se use isso como um mecanismo de legitimação orçamental parece-me uma dose de cinismo diário bastante superior à que um ser humano pode suportar sem sofrer danos permanentes.

A coisa faz-me lembrar o voto útil, quando um grande partido apela a que se vote nele apenas porque tem mais hipóteses de ganhar do que um partido pequeno, mesmo que este último represente melhor os interesses de um eleitor. No entanto, e contra a ideia do voto útil, em Democracia o que conta não é tanto ganhar, como participar – ou seja: que os nossos interesses sejam representados. Naturalmente, para isso acontecer não basta que o partido no qual votamos ganhe; é preciso que os assuntos que nos interessam sejam tidos em conta no parlamento, na opinião pública,, etc. Mas, se temos interesses relativamente marginais, é bem provável que a única coisa que iremos ganhar com um voto útil seja a satisfação de ver o partido em que votamos vencer. Em muitos casos teríamos mais hipóteses de representação votando num partido pequeno. A mesma coisa acontece com as grandes instituições da arte: em muitos casos, ganhar-se-ia mais representação apoiando instituições mais pequenas.

Como tal, e não concordando com muitas das políticas de Serralves, decidi deixar de ir a Serralves. Também ajudou o facto da programação não me dizer grande coisa, das conferências serem em geral fracas, da nova imagem gráfica ser muito má e da livraria do museu estar um tanto ou quanto estagnada.

Tudo isto para dizer que este fim de semana voltei a Serralves para ir espreitar a inauguração da exposição da Lourdes Castro e que, se não escrevesse qualquer coisa sobre isso, muito provavelmente iria ser arrumado com o resto dos visitantes, a maioria silenciosa que legitima regularmente as políticas da fundação.

Quanto ao evento propriamente dito, nenhuma novidade: as inaugurações de Serralves obedecem quase sempre a dois géneros mutuamente exclusivos: a do artista internacionalmente falado onde vai toda a gente e mais os amigos e se bebe tudo e mais alguma coisa, em geral demais; a do artista português da geração zen onde vão os amigos da vítima e os suspeitos do costume, pouca gente, enfim. Neste caso, tratou-se da segunda modalidade. Quanto à exposição propriamente dita, desiludiu-me um pouco. Muitas das obras, em particular as silhuetas em acrítico transparente pareciam-me um pouco “Moviflor” demais para o meu gosto. Apesar de tudo, num cantinho há uns cartazes naquele estilo suíço do início da década de oitenta, rigorosos mas descontraídos, que vale a pena ver.


[1] Neste momento, a Cena Independente do Porto é apenas uma designação convencional para nomear certo tipo de espaços, certo tipo de eventos ou, mais apropriadamente, um período (aquele em que se acreditava numa cena independente do Porto).

 

[2] O livro da Braço de Ferro, A Economia do Artista, é uma das consequências desse esforço.

Filed under: Design

2 Responses

  1. carlos soares diz:

    Vivendo e trabalhando em Lisboa, e perdendo por certo as nuances da discussão em torno das políticas de Serralves, sempre me pareceu um pouco forçado o argumento, de obrigação quase “moral”, de que a Instituição teria de apoiar os artistas locais emergentes. Aliás, o colocar da questão nestes moldes, parece jogar a favor de uma instituição como Serralves que repudiou com relativa facilidade as críticas feitas na altura, pelo menos na comunicação social.

    Evidentemente que isto não põe em causa a necessiade de o estado e os privados (galerias, espaços alternativos, etc.) deverem criar condiçõos para o surgimento e crescimento de novos artistas / tendências /whatever… mas se calhar isto é um outro campeonato, no qual Serralves não se quer envolver.

    Como comparação, não conheço a Casa da Música a fundo mas também me parece que a lógica é semelhante. Mesmo no Clubbing, dificilmente estará em cartaz algo sem uma certa afirmação internacional ou nacional (o que confere este grau de afirmação é discutível e, é claro seria outra longa conversa).

    • O problema nunca foi o facto de Serralves não apoiar os artistas locais emergentes (porque Serralves sempre o fez, apesar de nunca o admitir). O problema é que o faz com condescendência, voluntarismo e sem uma política explícita. Nesse aspecto, mais valia que não fizesse nada.

      Os argumentos com que Serralves “repudiou facilmente” as críticas limitaram-se à reprodução da velha máxima: não vamos apoiar artistas locais apenas porque são locais. O único problema é que Serralves fazia precisamente isso, dando dinheiro a projectos locais não por achar que tivessem qualquer tipo de qualidade, mas apenas por serem locais. O catálogo do Salão Olímpico e o discurso que João Fernandes fez na altura do seu lançamento são um bom exemplo disso (Fernandes afirmou que Serralves apoiava financeiramente o catálogo, mas que não o legitimava, reduzindo desta forma o seu apoio a uma esmola).

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