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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Modinhas

É costume dizer-se que o design gráfico é uma actividade interdisciplinar, mas o que quer isso dizer realmente? Que está aberto a todo o tipo de conhecimentos ou experiências? Esta não é uma resposta particularmente interessante ou esclarecedora, na medida em que dá a entender que o design aceita tudo e todos de braços abertos, enquanto, na verdade, seria talvez mais rigoroso afirmar que escolhe bem os seus aliados, pesando bem o que pode ficar a ganhar com a ligação. Algumas disciplinas são bem-vindas enquanto outras nem por isso – ninguém gosta de ouvir dizer que aquilo que faz tem pontos comuns com o secretariado, por exemplo, mas toda a gente gosta de se associar ao cinema, à fotografia ou à literatura.

De qualquer modo, quando o design gráfico se aproxima de outras disciplinas não se pode dizer que se trate de uma escolha consciente mas – correndo o risco de personificar demasiado – de uma atracção à primeira vista, que no primeiro momento parece tão inevitável e absolutamente necessária que muitas vezes só é racionalizada quando as coisas correm mal.

Por exemplo, houve uma altura em que a fotografia parecia ser aquela “coisa”. Ai do designer que não tivesse a sua máquina ou que não passasse a sua quota parte de tempo na câmara escura. A paixão era tanta que transbordava para o discurso teórico, tornando a fotografia numa analogia universal, uma maneira de falar sobre tudo. Chegou a propor-se uma fusão definitiva entre as duas disciplinas, quando Moholy-Nagy, por exemplo, começou a chamar Typophoto ao design.

Esta ligação, enquanto durou, pareceu inevitável, necessária, mas foi sustentada em parte por questões tecnológicas, em particular a ideia de fotocomposição, mesmo antes desta ser uma realidade prática. Graças a ela, era possível conceber uma página de forma orgânica sem ser preciso separá-la entre texto e imagem, tal como acontecia com a impressão com tipos de chumbo, onde cada caracter e cada imagem correspondiam a um objecto físico isolado. Com a fotocomposição a página tornava-se num todo.

No entanto, a fotocomposição seria ultrapassada pela composição digital e, com o computador pessoal, o exercício do design modificar-se-ia dramaticamente, levando a novas alianças interdisciplinares. Traria a ideia do designer como programador, toda a questão dos Novos Media, desde a programação pura e dura até ao VJing. Traria também a ligação entre o design e a música, que iria criar todo um batalhão de designers-DJs ou de músicos mais ou menos experimentais. Há cerca de dez, quinze anos atrás, tudo isto parecia ser o futuro, “a” tendência, mas rápida – e ironicamente – os Novos Media se tornariam datados.

Neste momento, todas estas tendências sobrevivem enquanto géneros mais ou menos desenvolvidos dentro da área disciplinar do design, mas a sua filosofia já não é central à sua prática e teoria. Uma das novas atracções do design é a edição independente, descendente próximo da ideia do Designer como Autor, muito em voga no final dos anos 90, mas que, hoje em dia, já parece embaraçosa. Pode-se apreciar a vitalidade actual da edição através do número de mestrados, workshops, exposições e teses dedicadas ao assunto, para não falar das próprias edições e editoras que se multiplicam como coelhos. Talvez se possa argumentar que sempre houve auto-edição ligada ao design, mas não com esta intensidade e escala; basta uma olhadela aos materiais expostos na exposição Kiosk, de Christoph Keller, por exemplo, para nos apercebermos disso.

Naturalmente, especulando que existe aqui um padrão, que dentro do design há uma série de tendências que assumem temporariamente o papel de uma vanguarda para depois perderem o seu protagonismo, integrando-se mais ou menos como géneros dentro do corpo da disciplina, podemos antecipar que a edição independente irá perder em breve muita da sua intensidade e protagonismo – que no fim de contas é uma moda. Esta é uma palavra que os designers estranhamente não gostam muito de ouvir. Dizer que algo é uma moda implica uma mania fútil e inconsequente, mas dentro de uma actividade como o design, onde é particularmente importante estar em sintonia com os tempos, não parece uma acusação particularmente justa ou mesmo pertinente. Não me parece que uma coisa seja menos perene ou importante por se tratar de uma moda – de certo modo, a história do design gráfico pode ser lida como apenas um registo de modas e tendências ao longo dos tempos.

Mas, apesar da contradição evidente, o termo é usado frequentemente para diminuir pessoas, estilos ou objectos. Pode ser uma maneira de tentar apressar qualquer coisa, no fundo uma maneira de desejar que passe depressa. Isso é bem visível na maneira como Paula Scher, numa entrevista recente (também comentada no Reactor), assume que a ética dentro do design é uma espécie de moda mais ou menos ingénua, mais ou menos nefasta, que seria bom ultrapassar, regressando a uma ética baseada essencialmente em valores económicos (Scher defende que se uma empresa gerar emprego já é socialmente responsável quanto baste). Seria mais realista admitir que existem dentro do design inclinações éticas muito distintas, mesmo antagónicas, que assumem em momentos diferentes o protagonismo. Não se pode dizer que a ética empresarial defendida por Scher seja mais ou menos integral à identidade do design gráfico enquanto disciplina do que a ética defendida no manifesto First Things First, mas a ética em si mesma não é uma moda.

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Filed under: Autoria, Ética, Crítica, Cultura, Design, Economia, Exposições, Publicações

5 Responses

  1. João Lima diz:

    Óptimo texto!

  2. […] acho que a ideia central de Bicker foi a de rejeitar o culto de um estilo pessoal (quase as modinhas que o Mário aborda num dos últimos posts) para aceitar a ideia que o conteúdo deve ditar a forma como se desenha o projecto (não é […]

  3. josé santos diz:

    concordo plenamente de que a ética não seja uma moda. vejo-a definitivamente como um dos alicerces necessários à protecção da actividade de designer que por cá (Portugal) ainda não se verifica devido a não existir um código que regulamente esse e outros aspectos basilares.
    gostei do artigo. parabéns.

    josé santos

  4. Situr Anamur diz:

    Princípios de Conduta Profissional dos Designers
    http://apdesigners.org.pt/?p=354

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