The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O que é uma ilustração?

Recentemente, escrevi um texto em circunstâncias pouco habituais: o Júlio Dolbeth e o Rui Santos, meus colegas nas Belas Artes do Porto e donos da Galeria Dama Aflita, dedicada à ilustração, pediram-me um texto que servisse de tema a uma exposição colectiva. Resolvi escrever sobre o Dandy, um tema que já me obcecava há algum tempo e os resultados foram, como seria de esperar, variados – alguns literais, outros inspirados, outros inesperados, outros irónicos, outros meramente banais (tudo o que seria de esperar de uma exposição colectiva).

Durante a inauguração, não conseguia deixar de pensar na forma  como esta variedade toda, espalhada pelas paredes brancas de uma pequena galeria tinha sido produzida a partir do meu texto. Muitas ilustrações são feitas de propósito para um texto específico; neste caso, eu escrevi este texto para ser ilustrado, não uma, mas dezenas de vezes. O resultado era fascinante, embora o processo não fosse – sem dúvida – a maneira mais comum de fazer uma ilustração. Mas qual é a maneira mais comum de o fazer? Ou melhor: o que é uma ilustração? Quando é que um desenho começa a ser uma ilustração? Quando deixa de o ser?

À primeira vista, uma imagem começa a ser uma ilustração quando de algum modo foi feita para representar visualmente um texto. Poderíamos começar por afirmar que esta pode ser uma das características possíveis de uma ilustração. Não se pode afirmar que esta é uma das características essenciais porque pode representar um filme ou uma música, por exemplo. Poderíamos generalizar, dizendo que uma ilustração é uma imagem que não foi produzida para funcionar por si mesma, mas para estar de, algum modo, ligada a outro objecto (entendido aqui não como uma coisa estritamente material – pode tratar-se de uma narrativa, de um conceito, etc.) Mas o que separa então uma pintura narrativa renascentista de uma ilustração? As duas podem ilustrar precisamente a mesma passagem da Bíblia, por exemplo. Uma resposta possível é que a ilustração foi feita para ser reproduzida em massa, enquanto a pintura renascentista não. Esta resposta é interessante, mas não me parece satisfatória. As ilustrações nas paredes da Dama Aflita não foram feitas para serem reproduzidas em massa, por exemplo, embora apareçam num catálogo, muitas delas reenquadradas e redimensionadas. Neste caso, são ilustrações porque foram feitas por ilustradores e estão expostas nas paredes de uma galeria especializada em ilustração. Existe assim um lado institucional da ilustração que faz dela a emanação de uma certa estrutura que forma e legitima certo tipo de profissionais.

Muita gente dirá que, ao ser exposta na parede uma galeria uma ilustração deixa, pura e simplesmente, de ser uma ilustração – pelo menos no sentido clássico. Naturalmente, isto é um argumento essencialista, que defende que algo só pode ser uma ilustração em circunstâncias muito precisas. Essas circunstâncias não incluem, por exemplo, o facto da grande maioria das publicações portuguesas dispensarem cada vez mais o recurso à ilustração, levando os ilustradores a redireccionarem os seus talentos para exposições e para formatos mais experimentais, o que pode até aperfeiçoar as suas qualidades (já o defendi em outro texto):

No entanto, se acreditarmos que existe uma ilustração clássica, quais são as suas características? O que se perde ao colocar uma ilustração numa parede ou reproduzindo-a num catálogo? Na maioria dos casos, perde-se muito pouco; mas alguns raros ilustradores perdem alguma coisa. Esses ilustradores pensam a ilustração não apenas como um desenho que representa um texto, mas como algo que o acompanha fisicamente, que partilha o mesmo suporte, adaptando o seu estilo à tipografia e paleta de cores de uma determinada publicação. Um dos meus exemplos favoritos é André Carrilho, que desenhava grandes formas sinuosas e escuras para casar com as Clarendon do antigo Y e usava um desenho mais delicado e colorido, sem grandes formas negras quando tinha que lidar com a Bodoni condensada do antigo Público. Não duvido que muito desse esforço se devia a um bom art director. Nos exemplos atrás, estava a pensar no Jorge Silva, mas um ilustrador como Carrilho é suficientemente versátil para encontrar um novo estilo para cada nova publicação. Enquanto publicava cá em Portugal, Carrilho costuma fazer as suas ilustrações como apontamentos quase abstractos, quase tipográficos, isolados sobre um fundo liso; agora, ao trabalhar para a New Yorker, por exemplo, tem feito fundos e paisagens, como na imagem que ilustra este post.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Exposições, Ilustração

8 Responses

  1. Ana Afonso diz:

    Olá Mário, deixo uma sugestão:
    Penso que o conceito de Ilustração, difere se é objecto ou acto. Objecto (i minúsculo) Acto/ disciplina (I maiúsculo)
    Enquanto objecto, a ilustração é uma reprodução impressa de desenhos ou pinturas originais. O objecto original pode ser Arte, mas a imagem que a representa numa folha não é.
    Enquanto acto, a Ilustração é a actividade, profissão ou disciplina que visa ilustrar uma ideia ou conceito por iniciativa própria ou a pedido de um cliente.
    Portanto, o ilustrador cria imagens originais (desenho/pintura/colagem) por diversos processos, mas não faz ilustrações – essas são feitas pela impressora.
    Se separarmos as coisas facilitamos a distinção: Um desenho que foi feito para ilustrar algo pode ser uma obra de arte,mas continua ser um desenho. Assim como um desenho feito para dar origem a uma tapeçaria, continua a ser um desenho. (hum? até pareço o prof. Joaquim Vieira)

    Agora, «quais desses originais são Arte?» isso é assunto para os críticos e para as micro-comunidades da Arte que seleccionam uns e excluem muitos…

  2. Manuel San-Payo diz:

    Texto muito útil para as minhas aulas de ilustração na FBA-UL
    Obrigado

  3. J Costa diz:

    Ana Afonso, arranje pf um tradutor para o seu site.
    Ah, e vou deixar de chamar arte aos quadros do Picasso que tenho num livro. Obg pela sugestão. Cumps,JCx

  4. Ana Afonso diz:

    Exacto. Excelente observação: os quadros do Picasso (os originais) são Arte, mas possuem 3 dimensões e portanto, não cabem dentro do livro de ninguém. O que todos temos são algumas ilustrações que reproduzem essas telas. – O exemplo é perfeito J Costa – Obrigada.

    Quanto ao site, já estou a tratar disso!!
    Cordialmente,
    Ana

  5. Carlos Sabbah diz:

    Olá.
    Vim cá parar por sugestão de um conhecido. Ou quase.
    Sempre que me acontece ler um texto e comentários assim não deixo de me surpreender.
    Quanta turbulenta insignificância.
    Caríssimos, quem faz faz, independente de semelhantes considerações. Depois de estar feito, seja lá porque propósito ou para que suporte, lá vêm para cima dos autores as etiquetagens.
    Tanta coisa interessante para dizer, como o conteúdo das próprias ilustrações, e ficam-se pelas paredes, pelos catálogos e pelas reproduções…
    Fica o desabafo.

    Carlos

  6. Carlos Q diz:

    Olá. Excelente texto, partilho da mesma opinião em praticamente todos os pontos.

    Esta é realmente uma matéria na qual me “debato” e faço debater nos workshops que dou, aliás, é bastante difícil explicar claramente as diferenças entre ilustração como imagem associada a um pensamento ou acção, e a ilustração como matéria que acompanha ideia, contexto, manifesto, e que é forçada a estar acompanhada destes. Porquê? pelo facto de se cruzar com diversas áreas nas quais o “ilustrar” é essencial ao clarificar qualquer coisa através de uma imagem, seja qual for o método projectual.

    a minha noção de ilustração é talvez mais simplista. Começo basicamente por reduzi-la à área profissional, por exemplo, o ilustrador que faz os “bonecos” para o jornal, diga-se bonecos como figurações, que após ordem de um briefing, assunto ou ideia os vai colocar a operar dentro do mercado legítimo, seja ele infantil, publicidade, editorial, moda, capas de livros, capas de albuns, etc., e usado através de um suporte bidimensional. Esta minha definição de ilustração é redutora no significado, mas concreta Q.B, para apontar o significado da actividade ou profissão.

    Esta palavra é de certa forma, prima da palavra “lustro”, ou mesmo do “lustre”: dar brilho, evidenciar, tornar claro, talvez tornar atractivo, etc. e aí é que eu acho que entra o confronto na definição desta palavra. Se dissermos que as iluminuras medievais teriam sempre uma ideia e texto indissociável, poderiam ser elas ilustração? para mim, não, embora a a sua prática e método, aplicados aos nossos dias, o fosse. Porquê? Não foi o ilustrador que as fez.

    Em relação à galeria de ilustração à qual tenho bastante apreço e venho seguido com algum interesse as suas actividades :
    Uma galeria que mostre ilustração e tenha essa a sua “Raison d’Etre”, deverá mostrar obras no contexto da produção e prática do ilustrador ou do objecto ilustrado, ou seja: dentro do seu contexto profissional, ou pelo menos acompanhada da informação que ajude a compreender como foi editada ou projectada. por ex.: cliente, Assunto ou objecto ilustrado; data. (digo objecto como texto, artigo, coluna, campanha, whatever..)
    Ao mostrar arte de ilustradores, não deixa de ser galeria de ilustração, mas isso fica à interpretação daquilo que o artista convidado quer expôr ou promover. Claro está, há uma fronteira quase invisível quando se criam imagens livremente e a título pessoal, diria pintura ou desenho figurativo, e quando essas imagens são criadas e pensadas para serem mostradas no âmbito do mercado da ilustração.

    é o meu ponto de vista,
    Um bem haja!

    /CQ

    PS. vou passar a seguir este blog mais frequentemente

  7. Carlos Q diz:

    acrescento mais. ilustrar pode ser tão válido como “desenhar um mapa com direcções para apontar o caminho de alguém, assim como pode ser a “reprodução de um sentimento numa tela”. pode ser e é legítimo ser o desenho, quando se pergunta: “percebeste ou queres que faça um desenho?”

    A diferença está no estatuto do “ilustrador” como “o que executa as ilustrações” e o faz como actividade ou profissão. (prefiro pensar assim)

  8. […] há muitos textos atrás tentei definir quais as características de um bom ilustrador “clássico”, […]

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