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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Pelos Ajustes

À primeira vista dá a sensação que um ajuste directo é menos democrático do que um concurso, mas será que isso é verdade? Quais são as vantagens de cada um destes processos de decisão?

Num ajuste directo, alguém, seja uma pessoa, seja uma entidade, decide contratar outra pessoa ou entidade. Como o nome indica, essa decisão é pessoal, directa – soberana, por assim dizer. Pelo contrário, num concurso a decisão não é tomada directamente, mas através de uma competição, que se pode resumir à comparação de currículos ou pode envolver um teste que permita medir as habilitações relativas dos concorrentes, pedindo-lhes que proponham uma solução para o trabalho posto a concurso, por exemplo. Essa proposta pode ser mais ou menos completa, desde um mero esboço até uma solução final pronta a usar.

Aqui mesmo já se começa a perceber que cada um dos processos tem os seus problemas, os seus prós e contras: no caso do design a ideia de apresentar a concurso uma solução pronta a usar não é muito popular; afinal, significa que um trabalho feito a sério, que gastou tempo e recursos pode não ser pago de todo. Num ajuste directo, o problema não se põe, mas se o designer a quem é oferecido não arrisca nada, todos os outros nem sequer chegam a arriscar o que quer que seja.

À partida, por ser mais aberto, um concurso pode parecer mais democrático. Contudo, não há uma oposição absoluta entre ajustes e concursos, apenas uma série de gradações. Muitos concursos, por exemplo, não são abertos a toda a gente – podem estar limitados por idade, nacionalidade ou a um grupo seleccionado de designers.

Estas gradações estendem-se ao modo como a decisão é tomada. Um concurso pode parecer mais democrático porque a decisão é tomada por um júri – colectivamente, portanto. Porém, mesmo num júri é comum a decisão ser tomada apenas por uma pessoa: aqueles júris que são constituídos por um designer, um presidente da câmara e um vereador, por exemplo. Nestes casos, os membros “honorários” tendem a delegar a decisão nos membros especializados.

O maior problema de cada um destes processos é que são mecanismos que produzem uma decisão que são frequentemente distorcidos de modo a desresponsabilizar quem a tomou. Num concurso, pode-se sempre justificar uma má decisão, dizendo que foram os outros membros que a tomaram; num ajuste directo, e sobretudo quando se trata de design, pode-se sempre negar contra todas as evidências que é uma má decisão – afinal, o design quando lhe dá jeito pode ser subjectivo. Esta última estratégia não é particularmente convincente: o gosto, sobretudo quando é exercido em público ou à custa de dinheiros e recursos públicos, pode ser tão subjectivo quanto se quiser – desde que se possa argumentar convincentemente essa escolha na arena pública.

Mas admitindo que cada um tem os seus problemas – que poderiam ser resolvidos com uma dosezita de transparência –, muita gente argumenta que a grande vantagem do ajuste directo é a sua expediência – poupa-se tempo e dinheiro ao contratar directamente alguém em vez de andar a atrasar tudo reunindo um júri. No entanto, este artigo no Público, sugere o oposto: em condições iguais o concurso é mais barato que o ajuste directo.

Update: Lendo outra vez o texto, penso que precisa de uma conclusão mais explícita. Assim:

1º Ajustes e concursos precisam de mais transparência e escrutínio público.

2º Em condições iguais, e tratando-se de dinheiros públicos, os concursos são mais económicos e portanto preferíveis.

Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Design

5 Responses

  1. Nuno diz:

    Olá,

    Concordo com a legitimidade por príncipio dos ajustes directos, mas um problema óbvio é que estes são abusados de forma a criar favorecimentos, como tem sucedido com as obras do parque escolar, com 20 arquitectos a ficarem com 90% das obras por “ajuste directo”. É um processo permeável a estas situações.

    Um concurso pode ter problemas mas é um processo em que é mais fácil ter participação da sociedade, até mesmo no resultado como é feito na Holanda onde até um centro cultural foi escolhido por votação online (é um extremo).

    Esta questão comparativa, no que toca á arquitectura em obras públicas, não se põe. O que deveria acontecer é mais transparência no processo de concurso, participação pública na elaboração do programa, anonimato garantido, o júri ser constituído em maioria por profissionais escolhidos entre os pares da profissão (como sucede em Espanha) e os programas corresponderem a fases conceptuais, não processos complicados e dispendiosos em tempo e recursos.

    Cumps

  2. O Design, mais do que a arquitectura, trabalha mais para marcas de grande destaque do que para outras menos destacadas. Uma pequena mercearia ou café normalmente não se dirigem a uma empresa especializada em design (embora haja pequenas excepções), mas sim a uma gráfica. Os da gráfica, munidos do seu técnico de impressão com alguns conhecimentos de software de edição gráfica acabam por fazer essas pequenas coisas.
    Ou seja, as empresas de design, normalmente trabalham para (as) grandes marcas, seja de cosmética, indústria farmacêutica, empresas de distribuição, hipermercados, etc. etc. Se todas as grandes marcas, precisamente por terem grande destaque no mercado, viessem a aplicar concursos a tudo o que há para fazer era um caos!! Imaginem o que seria das empresas de design se isso viesse a acontecer! A maioria conseguia completar, se muito, um ou dois trabalhos por ano, chumbando a dezenas de concursos todos os meses… Nenhuma empresa sobreviveria a isso.
    Por outro lado, actualmente vivemos num “campo de batalha” de concorrência entre empresas de design. Isso já em si é uma espécie de “concurso” que se vive cada vez com maiores dificuldades.
    Ainda por outro lado, há empresas de grande destaque que se servem de concursos simplesmente para terem publicidade gratuita nas ruas, dado que a maior parte desses concurso não dão direito a prémio. E se a desculpa é o designer vencedor vir a ter mais um trabalho agrafado ao seu book, esqueçam… esse projecto terá tanto valor quanto os outros, pois todos eles serão realizados para marcas de destaque (nem que seja apenas algum destaque).

    • Como não dá para editar, queria só acrescentar apenas um pequeno comentário.
      Actualmente é mais difícil encontrarmos um designer que ainda não tenha feito coisas ou para a Super Bock, Sagres, Coca Cola, ou uma marca qualquer de roupa, etc. O Estado já será uma coisa à parte. De um modo geral, sou um bocado contra a ideia dos concursos, mas concordo que poderiam existir apenas para instituições de solidariedade/sem fins lucrativos e que fossem de forma gratuita. Nesse aspecto já concordaria com a existência de concursos públicos.

  3. zécas diz:

    Mas o virus do concurso espalha-se e nem sempre as pessoas entendem o trabalho que dá fazer design. Chegou-me aos olhos este exemplo:
    http://autosport.aeiou.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=as.stories/87019

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