The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Problemas de escala

Na semana passada, escrevi que o ensino não deveria beneficiar um género de designer – o empresário do design – por sobre os outros. Para equilibrar as coisas, deveria ser mais neutro, mais geral. Agora, cabe-me dizer algo na mesma veia, mas ainda assim distinto: que enquanto crítico não tenho encontrado grandes motivos para dizer bem do design mais empresarial – a maioria dos grandes estúdios, aqueles que estão quase no limiar de se tornarem numa agência, não me interessam particularmente – em larga medida porque não têm produzido trabalho interessante.

Não o fazem, porque um grande estúdio, tal como uma agência, tende a compartimentar o design, dividindo-o num conjunto de tarefas discretas: alguém fala com o cliente, alguém fala com o designer, alguém elabora o orçamento, alguém coordena a logística, etc. Tudo isto se reflecte num design também ele compartimentado, onde cada parte pode ser removida e substituída sem problemas de maior, se por acaso não for aprovada em qualquer uma das etapas. O estilo é fácil de reconhecer: parece quase suíço, com muita distância entre as partes, texto e imagens separados por espaço negativo. Dá a sensação superficial de distinção, mas é apenas distância, um apartamento de solteiro esvaziado, um candeerito num canto, uma mesita da Ikea do outro lado, tudo a esforçar-se o mais possível por invocar em vão a palavra design – elegância na melhor das hipóteses esquálida. Pessoalmente, prefiro trabalho onde as hierarquias se confundem, tanto na forma, como no modo como foi produzida.

Já houve tempos em que a organização empresarial no design não era um meio, mas um fim em si mesmo, quando o logótipo não era apenas a identidade de uma empresa em particular, mas a encarnação da própria ideologia do design. No entanto, dentro do design os formatos mais populares vão e vêm com o tempo: capas de livros, capas de revistas, capas de discos, logótipos tornam-se no formato que os designers mais gostam de fazer acima de todos os outros (estes géneros têm também a sua pertinência geográfica, em alguns sítios prosperam, em outros definham). Não significa que desapareçam de todo, apenas que deixam de ser os formatos dominantes. Do mesmo modo, certas maneiras de organizar o trabalho têm também as suas modas.

Estes modos de organização não são isoláveis do plano formal. Dentro de um estilo empresarial como o “Big Idea”, por exemplo, defendia-se que o melhor design era aquele cuja ideia se podia descrever pelo telefone. Isto dava a entender um modo de aprovação que não era feito cara a cara, sugerindo uma certa dose distância e de mediação corporativa como um factor positivo. Traduzia-se em trocadilhos visuais que podiam funcionar independentemente do suporte ou técnica usada, mas que valorizavam um estilo próximo do cartoon, que durante os anos sessenta conotava uma certa sofisticação por aproximação à estética pop. Pelo contrário, durante os anos noventa, começou-se a valorizar um modo de design onde a organização corporativa era reduzida a um mínimo, exacerbando-se a autonomia ou a criatividade individual do designer – David Carson, Dave McKean, Ed Fella –, mesmo quando este trabalhava dentro de uma estrutura de estúdio – tomato, Bruce Mau. Assim se vê que organização do trabalho e estilo se determinam mutuamente e têm as suas modas.

Mas quem estiver a ler este texto e trabalhar numa empresa de design ou for o dono de uma vai pensar: ele escreve sobre design, o que sabe ele sobre empresas? Pouco, mas não precisam de confiar em mim: leiam as palavras de Paula Scher. Numa entrevista, ela lamenta que muitos jovens designers tenham abandonado o seu papel de melhorar o ambiente visual em geral, preferindo trabalhar para clientes da cultura. Segundo ela, estes designers “têm medo de se envolverem em trabalhos relacionados com embalagens, promocionais ou corporativos, esquecendo que estes são os produtos e mensagens que as pessoas realmente encontram nas suas vidas diárias, que esses produtos e serviços se situam no cerne da condição americana, e que nós, designers,  temos a responsabilidade de elevar sempre a expectativa do que pode ser o design.”

Porém, e em primeiro lugar, não se trata de medo, mas de especialização. Houve uma altura em que uma firma de grande dimensão, através dos seus recursos materiais e humanos podia açambarcar uma grande fatia de mercado, trabalhando para indústrias, pequenos negócios, grandes negócios, para a cultura, para o Estado. Neste momento, com cada vez mais designers no mercado é natural que haja cada vez mais especialização, que apareçam designers que se especializam em publicidade, em tratamento de imagem, em identidade corporativa.

Contudo, nem todas as áreas são iguais, nem todas asseguram os mesmos dividendos. Enquanto em certas áreas um designer pode ganhar facilmente dinheiro, em outras ganha renome – a cultura é uma delas (um designer relativamente mediano pode ganhar mais visibilidade do que merece ao fazer o design de uma universidade, por exemplo). O lamento de Paula Scher pode ser interpretado como um resmungo contra todos os jovens designers que tomam a decisão de se especializarem na cultura, que ela própria reconhece ter mais visibilidade dentro do meio do design. Em outros tempos, uma empresa como a Pentagram poderia acumular facilmente clientes da indústria, comércio, cultura; neste momento, isso é impossível, e como consequência, uma firma como a Pentagram perde visibilidade.

Portanto, e em segundo lugar, o dever de “elevar sempre a expectativa do que pode ser o design” pode ser cumprido dominando os trabalhos e os clientes que assegurem mais visibilidade dentro do design. Por outras palavras, existe dentro do design uma vanguarda que determina através da sua influência aquilo que os designers pensam, dizem ou fazem, em termos formais, éticos e políticos. Lamentar que umas áreas têm mais visibilidade do que outras significa apenas que o tipo de design que praticamos não está na moda.

Filed under: Crítica, Cultura, Design

5 Responses

  1. “trabalhos relacionados com embalagens, promocionais ou corporativos”

    É o que eu mais gosto de fazer 🙂 E sei por experiência própria que um emprego desses dá muito mais ao fim do mês do que propriamente trabalhar para a Cultura em geral! A questão é, como dizes e bem, que trabalhar para uma grande marca de produtos de limpeza (por exemplo) não dá destaque nenhum ao passo que trabalhar para a Casa da Música, para a Serralves ou para a Gulbenkian dá visibilidade a qualquer designer de comunicação. Ter sorte é poder um dia trabalhar para os dois tipos de clientes.

  2. Alguma vez foi uma questão de opção? Será que um jovem designer profissional pode escolher os seus trabalhos e clientes?

    • Hélder Mota diz:

      Pintamos a realidade de forma demasiado negra. É verdade que a procura é maior que a oferta mas parece-me que qualquer designer pode ‘ariscar’ no tipo de design em que pretende trabalhar.
      Sujeitamo-nos a receber um salário aquém das nossas expectativas mas é um risco a considerar.
      A partir daí é ir ganhando importância (posição nas decisões) aos olhos do cliente, seja ele o nosso patrão ou não. O resto vem naturalmente (aumento salarial, respeito adquirido..).
      Temos de tentar ganhar posição no ‘mercado gráfico’. Os clientes acabam por surgir e as nossas limitações vão-se encurtando cada vez mais.
      Senão optávamos todos pelo webdesign visto que nada se compara ao mundo virtual a nível de dinâmica.
      Um exemplo da importância que é dada aos logos:
      http://www.logomyway.com/

      Ridículo.

  3. “têm medo de se envolverem em trabalhos relacionados com embalagens, promocionais ou corporativos, esquecendo que estes são os produtos e mensagens que as pessoas realmente encontram nas suas vidas diárias, que esses produtos e serviços se situam no cerne da condição americana, e que nós, designers, temos a responsabilidade de elevar sempre a expectativa do que pode ser o design.” = blá blá ou não aplicável à realidade europeia.

  4. Situr Anamur diz:

    por falar em logotipos:
    http://www.cm-sesimbra.pt/pt/conteudos/noticias+e+eventos/noticias/20100419concursodeideias.htm

    Agora está na moda o pagamento em géneros, qualquer dia pagam em robalos.

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