The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Porto?

© Martino e Jana


Depois do texto da semana passada, onde conclui que já não havia uma cena de design no Porto,  torna-se necessária uma clarificação posterior: ainda existe trabalho interessante a ser produzido no Porto. Um bom exemplo, no que diz respeito ao design mais independente, é a Braço de Ferro, a editora do Pedro Nora e da Isabel Carvalho que, além de já terem publicados mais de vinte títulos incluindo o primeiro número de um panfleto sobre design chamado Lebre, têm também um espaço na Rua da Alegria, o Navio Vazio, onde têm feito todo o género de eventos: exposições, instalações, vendas, etc. Dentro do design mais mainstream, João Faria, R2, Martino e Jana têm continuado também a fazer bom trabalho.

No entanto, não se pode dizer que estes e outros exemplos se condensem numa cena. As pessoas com quem falo e que continuam a produzir design com qualidade mencionam frequentemente o isolamento que sentem. Se o seu trabalho é interessante, já não se liga a outros trabalhos, a outras obras. Já não há um ambiente de comentário, de crítica, de influência mútua. Neste momento, a atmosfera do Porto é triste e compartimentada.

Outro esclarecimento: na semana passada, não referi, por lapso, a importância que eventos como o Personal Views tinham na criação de uma comunidade no Porto (e mesmo a nível nacional). Embora fossem raros os oradores nacionais, a possibilidade de encontrar e conversar com colegas enquanto as conferências não começavam era uma desculpa perfeita para pôr os assuntos em dia. Infelizmente acabou e os ciclos de conferências que vão acontecendo entretanto não têm nem a periodicidade regular das Personal Views, nem a característica mais subtil de serem um evento internacional e portanto capazes de mobilizar pessoas que de outra forma não apareceriam na conferência de um ou outro designer nacional. Eram eventos neutros na mesma medida em que uma embaixada é neutra.

Todos os exemplos de situações onde o design português parece formar uma comunidade – Porto 2001, cena independente, Personal Views – fizeram-no inadvertidamente. A cena foi uma espécie de efeito secundário positivo de outro tipo de iniciativas – quando essas iniciativas acabaram, a cena também acabou.

Daqui se pode chegar talvez a uma generalização: pela sua própria iniciativa, o design português não consegue gerar e manter espaços de discussão alargados. Por outras palavras, a  grande falha do design português é que não é um assunto público. Não porque fora do design não haja interesse por ele, mas porque os próprios designers não conseguem fazer dele um assunto público – o que não é uma coisa fácil: implica capacidade crítica exercida em público e abertamente. Esta incapacidade leva a que o design português não seja uma actividade transparente. Os problemas e as diferenças de opinião, não se resolvendo em público e através de argumentação, resolvem-se apenas em privado, perante amigos e alunos – que, naturalmente e por diferentes razões, têm a tendência a concordar com o que lhes é apresentado. Continua a não haver a capacidade de produzir um discurso público mais alargado.

Filed under: Crítica, Cultura, Design

One Response

  1. O link para a Braço de Ferro já está corrigido. Em todo o caso, aqui fica:

    http://www.bfeditora.net/

    As minhas desculpas.

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