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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

As Cidades Ainda Mais Invisíveis

Entre os livros de ficção que não têm imediatamente a ver com design mas onde ele desempenha um lugar central na narrativa encontra-se The City & The City, do escritor inglês China Mièville, sobre duas cidades-estado ficcionais do leste da Europa, vizinhas mas rivais, com línguas, politicas e culturas distintas se não mesmo antagónicas.

As cidades não se situam lado a lado mas coincidem no espaço. Uma rua pode pertencer às duas cidades, com nomes diferentes, com as suas casas ou mesmo apartamentos alternando entre dois países. Pode ser uma zona industrial próspera numa das cidades e um centro comercial na outra. Pode estar vazia numa enquanto é percorrida por multidões na outra.

Cidadãos de países diferentes – em países diferentes – podem-se cruzar na rua, podem até viver no mesmo prédio, mas não podem admitir a existência do outro. São ensinados desde crianças a “desver”[1] a outra cidade, as pessoas, os carros, as casas, os posters, os livros, os cheiros, etc. A cultura de cada cidade é subtilmente concebida para se distinguir da outra – as suas fronteiras não são físicas mas semióticas. O único local de passagem é o Palácio da Cúpula que funciona como um posto fronteiriço. Passar a fronteira implica ser treinado para inverter a percepção, deixando de ver uma das cidades para passar a ver apenas a outra.

Estas fronteiras físicas e perceptivas são policiadas pela Brecha, uma organização secreta de métodos formidáveis, que entra em acção quando alguém atravessa ilegalmente de uma cidade para a outra – desde acidentes de automóvel até casos onde alguém demonstra publicamente estar a ver algo na outra cidade.

Não é fácil dizer se estamos perante uma obra de ficção, de um policial especulativo, de ficção científica, de ficção urbana – não há um género evidente, mas a estrutura de base é policial: um assassinato é cometido numa das cidades cuja investigação permite ao personagem principal, um detective, atravessar as duas cidades, as suas instituições, os seus hábitos a sua história. Entretanto, vai-se dando a entender a existência de uma terceira cidade, escondida entre as outras – vista de uma parece a outra e vice-versa. Numa das últimas cenas, particularmente forte, um criminoso foge assumindo uma linguagem corporal ambígua que o torna invisível à polícia de cada uma das cidades (enquanto lia, não pude deixar de pensar naqueles diagramas onde se pode ver alternadamente duas caras ou uma taça, um coelho ou um pato).

Tudo isto pode parecer um jogo abstracto e irreal – algo próximo aos enredos de Borges ou de Calvino – mas Mièville, não sendo tão bom escritor, consegue ainda assim a proeza de tornar toda a situação plausível – realista até. Através do livro, ficámos a saber como funciona a arquitectura, a história, a economia ou o trânsito de cada uma das cidades sem que isso pareça forçado.

Ao lê-lo, é difícil não nos apercebermos do modo como muita da nossa própria percepção depende de sinais no ambiente, de hábitos ou de leis, embutidos no design, na arquitectura, na própria linguagem corporal, que nos dizem o que podemos ou não ver, os sítios onde podemos ou não ir, o que é público e o que é privado. De certa forma, este livro aproxima-se muito do trabalho do filosofo francês Jacques Rancière, cujo conceito de distribuição do sensível trata precisamente do modo como a experiência politica e perceptiva se determinam mutuamente.


[1] O termo usado em inglês é “unsee”.

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Filed under: Arquitectura, Crítica, Cultura, Design, Design Especulativo, Não é bem design, mas..., ,

4 Responses

  1. rui diz:

    Eu ia até mais longe! Pensaria numa cidade particular como multi-versada e não apenas distinguível das outras como também dela mesma, conforme a nossa maneira de a “olhar”.

    Num só local, numa só cidade, podemos viver experiências artisticamente diferentes. Hoje em dia as cidades não se separam apenas das outras. Dentro delas podemos distinguir vários universos paralelos dessa mesma cidade. Porto: a cidade nocturna, a cidade activa e caótica, a cidade dos concertos, a cidade das artes, ou a cidade do futebol e das cervejas… Tudo isso numa só cidade.

    Se queremos ver uma cidade do Porto diferente é só usar os óculos 3D (hehe) e voilá! Temos uma cidade de casinos e salões de jogos, ou então uma cidade de turistas e hotéis, ou então uma cidade de sucessos empresariais.

    Os olhos mudam conforme a pessoa, a sua personalidade,a sua vivência.

  2. […] e ando a namorar mais um livro de China Miéville, Kraken, que espero ser tão bom como o brilhante The City & The City; ou então mais um livro de ficção científica de Iain Banks, de quem tenho andado a debicar a […]

  3. Wordpress diz:

    Do jeito como você escreveu pareceu uma viagem dentro das cidades em questão. A “propaganda” do livro foi muito boa. Parabéns pelo post. Será que existe alguma versão deste livro em língua portuguesa ou espanhola?

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