The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Design e Museus?

Soube por um artigo no Público, que o Museu do Design e da Moda (Mude) inaugurou há um ano. No seu aniversário, apenas desejo que o design gráfico estivesse mais presente no Mude. O aspecto inacabado da arquitectura pode ser argumentado, sabe-se que é intencional, mas o mau design gráfico e a infografia negligente não. São um péssimo exemplo para todo o género de museus portugueses, onde o design gráfico é habitualmente tratado como uma mera formalidade. É triste (e não apenas no Mude) que se invista dinheiro na melhor arquitectura e nas melhores exposições, desleixando o design gráfico, que funciona como interface quotidiano entre a instituição e o seu público.

Não se trata de decidir se um Museu do Design deve ou não favorecer mais a moda ou o equipamento mas de compreender que não é possível, hoje em dia, ter um museu – qualquer tipo de museu – sem um bom design gráfico de apoio, seja na sinalética, seja nos catálogos ou nos posters. Nesse aspecto, o Mude deveria ser um exemplo a todos os museus portugueses, não se limitando a expor o design gráfico, mas demonstrando-o na prática. Infelizmente, a qualidade do design nas exposições do Mude tem sido muito fraca: desde a má tipografia das legendas até ao uso frequente de imagens com baixa definição provavelmente tiradas da net, à sinalética ambígua que torna a navegação no museu difícil (em geral, é preciso perguntar as direcções aos vigilantes).

Tudo isto é triste porque, mesmo em Portugal, o bom design não custa nem mais tempo, nem mais dinheiro do que o mau – na verdade, até pode ser bastante mais barato. Infelizmente, não há muita cultura do design entre as instituições culturais ligadas às artes visuais. Do lado do teatro (Teatro Nacional São João, mais uma vez) ou da música (Centro Cultural Vila Flor ou a Casa da Música dos últimos tempos) aparecem aplicações consistentemente mais interessantes. Nas artes visuais, só as instituições mais pequenas é que se safam bem (a ZDB, por exemplo). Pode-se especular que, por parte dos programadores ligados às artes visuais, existem mais preconceitos sobre o que deve ser a apresentação visual dos seus próprios eventos, bem como uma capacidade maior para argumentar os seus pontos de vista – enquanto os designers gráficos não são treinados para sustentarem as suas posições em situações adversas (ou seja, perante clientes inteligentes e articulados).

A culpa vai, por um lado, para a velha treta do “trabalho deve defender-se a si mesmo” que ainda é martelada na cabeça dos jovens designers nas salas de aula; por outro, vai para a incapacidade dos designers definirem publicamente o que acreditam ser bom design.

Claro que nunca há-de haver um ponto de vista único sobre o assunto; claro que o bom design é discutível. Mas onde está essa discussão? Tirando a pouquíssima crítica (para um país com mais de dez mil designers), ninguém está disposto a tê-la. Quando muito, defende-se timidamente que o design deveria ser apenas exercido por designers formados, como se isso fosse garantia de qualidade, quanto mais de excelência.

Infelizmente, a discussão (mais ou menos) pública do design continua a ser considerada por muito boa gente como mera dor de cotovelo, inveja apenas. Enquanto esse preconceito dominar e asfixiar o seu discurso público, o design português nunca será levado a sério. Continuar-se-ão a tomar decisões absurdas e incompetentes sem que haja qualquer tipo de discussão pública sobre elas.

Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Design

6 Responses

  1. Obrigado Mário por falares de novo esta questão, que eu próprio levantei em Janeiro. Mas também por ligares o valor do design gráfico na comunicação interna e externa de instituições culturais, como teatros ou salas de espectáculos. Com efeito, o design gráfico é muitas vezes remetido como dano colateral de uma estratégia de comunicação ou um plano de meios. Ou seja, é visto como aquilo que vai custar menos dinheiro e para o qual, depois de gastos todos os orçamentos em compra de espaço publicitário e outros meios, raramente sobram fundos (e cabeça, e respeito, e curiosidade…) para que estas instituições possam estabelecer colaborações profissionais, construtivas e frutíferas com designers gráficos. Um bom e raro exemplo, como disseste e bem,TNSJ+João Faria.
    O design gráfico raramente é visto como uma mais valia, não uma formalidade, por muitas destas instituições, sobretudo para as pessoas que as dirigem. E sim, é no mínimo irónico que o MUDE esteja no topo desta lista. Com mais de 10,000 designers profissionais em Portugal, não é por não haver (muita e tão pública quanto seria desejável) crítica de design que não haja desculpa para que as pessoas à frente destas instituições não exijam, também a este nível, o melhor que podem ter e oferecer. Que tenham a cabeça, o respeito, a curiosidade e o orçamento para poderem estabelecer as relações construtivas, frutíferas e significativas que lhes permitam sair da mediocridade (gráfica e não só). Mas como já dizia Camões, fraco rei faz fraca a forte gente.

  2. Dário Cannatà diz:

    Veja-se o caso da Holanda. É o país com mais concentração de museus e eles aprenderam de facto a lidar com o design. Veja-se o #13 da Graphic (http://graphicmag.kr/index.php?/issues/13-visual-identity-issue/), que faz uma constante referência ás identidades desenvolvidas para os museus Holandeses.

    De facto ainda há muito por fazer em Portugal.

  3. Andrev diz:

    Bom dia professor Mário Moura.
    Há muito tempo que queria fazer um comentário aqui no seu espaço. Aconteceu agora, Mas vou ser breve.

    Queria apenas agradecer as suas excelentes palavras, inspiradores e demonstrativas da realidade. Algo que é totalmente essencial num país que, de design que siga os verdadeiros pressupostos da profissão, tem muito pouco. Vejo-o constantemente a comentar, criticar e a debater questões relacionadas com o design, tenho pena, tal como o senhor, de não haver muito mais pessoas a fazerem isso. Tenho pena, destas palavras (deste post, e de muitos anteriores) não chegarem a “mais sítios”, ou se calhar até chegam, mas não interessa muito. Enfim.

    Sigo atentamente o seu blog, e espero que assim continue. Nunca pense que as suas palvras não são seguidas.

    Parabéns e continuação deste fantástico trabalho.

    André

  4. Situr Anamur diz:

    Eu parece-me que por vezes se critica demasiado o designer que tem que trabalhar numa fábrica de design (porque existem). Ora este designer-operário é costantemente delegado para segundo plano. Fala-se muito das estrelinhas e pouco daqueles que diariamente dão muitas e muitas horas de trabalho sob alçada de verdadeiros directores(criativos?) esclavagistas.
    Valorizam-se tanto as estrelas que depois admiram-se de casos como o do centenário. Nem para falar da contribuição maravilhosa para o design nacional que é a EXD e a sua directora dos 7 ofícios que faz tudo desde apresentar tv a organizar exposições (e quanto suam de graça na EXD para que ela se realize?)
    Ou seja, por falar em museus, está na altura de se colocar alguns nomes na prateleira antes que se tornem em múmias.

  5. Luciana diz:

    Recebi a semana passada a newsletter do MUDE. Deixou-me bastante triste a apresentação, e completamente indignada pelo que recebi de um museu de design e moda.
    Obrigada Mário pelo que escreves.

  6. Njacinto diz:

    So tenho uma coisa a dizer: Obrigado

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: