The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Contexto do Design Português e Como Falar Dele

A história é comum ao ponto de se tornar trivial: um designer qualquer assume um cargo público que não tem directamente a ver com a prática do design, e acaba um dia a fazer ele mesmo o design da instituição, não por isso fazer parte das competências do seu cargo, mas porque é um designer que – além de o ser – exerce um cargo público. Esse designer hipotético estaria a ser pago duas vezes para fazer duas actividades distintas. No fundo, funcionaria como duas pessoas, trabalhando uma para a outra, o que levanta uma questão: para quem iria a sua lealdade em caso de conflito – para a instituição ou para o seu próprio interesse enquanto designer praticante? Por outras palavras: se a decisão dependesse apenas dele, o designer despedir-se-ia se a instituição achasse que precisava de um designer mais barato? Ou se a instituição decidisse produzir internamente o seu próprio design? Em qualquer outra profissão esta situação seria considerada um conflito de interesses. No design, é uma história banal. Toda a gente conhece uma ou duas.

Muita gente encolherá os ombros e dirá que é assim em todo lado, apresentando de seguida exemplos semelhantes nas artes, na arquitectura, no futebol, etc. No entanto, é bastante mais comum estas histórias serem denunciadas em qualquer uma destas áreas. Argumentar-se-á que isso acontece porque o design ainda não tem visibilidade, ainda é uma profissão nova em Portugal, ainda precisa de regulação, de associações, de uma ordem, de um código de ética. No entanto, acredito que o problema do design não é a falta de integração mas, pelo contrário, a sua perfeita assimilação do modo como se faz negócios em Portugal.

Encontrou um pequeno nicho orçamental onde ninguém o chateia. É relativamente barato, no panorama geral das contas públicas (custa muito menos que uma estrada ou um TGV).  Ao contrário da arquitectura – a sua parente próxima – onde cada decisão estética implica decisões patrimoniais, logísticas e económicas importantes, uma decisão em design pode ser justificada apenas em termos de gosto – e, como se sabe, os gostos não se discutem, o que significa que qualquer entidade pode contratar o designer que lhe apetecer sem grandes justificações para além do gosto (mesmo que esse designer já trabalhe para essa entidade com outras funções: basta dizer que a qualidade do designer o justifica).

No entanto, a verdade é que os gostos se discutem. Quando se diz o contrário, não se está a dizer que não é possível discuti-los, apenas que quando se discutem, os ânimos tendem a exaltar-se. Em certos bares irlandeses – e pela mesma razão – há avisos proibindo a discussão da política ou da religião. Dizer que os gostos não se discutem é apenas uma advertência – uma coisa que se diz para manter o ambiente descontraído.

O gosto discute-se; foi feito para ser discutido. A criação do conceito contemporâneo de gosto é inseparável da do conceito de esfera pública. O gosto divide a sociedade. Reflecte a sua organização, participa nela. Não está isolado de interesses políticos, económicos ou religiosos. Dentro de uma sociedade democrática, e como peça essencial de uma esfera pública saudável, o gosto discute-se. Neste aspecto, as críticas de arte, de cinema e de design são parentes próximos das colunas de opinião.

Mas o que tem o gosto a ver com conflitos de interesse? A pergunta seria difícil de responder se estivéssemos a falar de arte, mas como falamos de design é fácil: o design é feito num contexto de utilidade – adapta formas a funções. Idealmente, não se trata apenas de adaptar um rótulo a uma garrafa de vinho ou uma caixa de cartão a um saco de muesli, mas de produzir formas dentro de um contexto, social, político, económico e (porque não) religioso muito específico. O sucesso do design depende disso.

É claro que há quem avalie esse sucesso apenas pelo lado formal, argumentando que, se o design é bonito,  se está equilibrado, se cumpre as regras da tipografia, que interessa se foi produzido numa situação menos ética? Talvez se possa apreciar a eficácia do design da suástica nazi ou a beleza dos filmes de Leni Riefenstahl sem com isso apoiar a ideologia nazi. Contudo, isso é difícil. Qualquer um destes objectos foi produzido dentro de um contexto produtivo, económico e politico que condicionou as suas opções formais. Em relação aos filmes de Riefenstahl, Susan Sontag demonstrou facilmente essa ligação no seu ensaio “Fascinating Fascism” – as grandes coreografias de multidões, a exaltação do corpo saudável, tudo isso se integrava perfeitamente na ideologia nazi. No caso da suástica, pode-se ler, por exemplo, o ensaio de Erica Nooney, “The Silence of the Swastika: Uncovering Absence and De-mythologizing Modernism in Contemporary Graphic Design Discourse”, sobre a incapacidade da história e da crítica do design integrarem objectos tidos como negativos, produzindo uma mitologia de sucesso que exclui sistematicamente os objectos mais embaraçosos.

Propor alternativas a uma crítica baseada nas formas nem sequer é uma novidade: há todo um leque de metodologias críticas, oriundas de outras áreas mas que podem facilmente ser usadas para avaliar o design, revelando a relação das suas estratégias formais com o contexto em que são produzidas – crítica neo-marxista, pós-colonial, feminista, sociológica, discursiva, etc. No contexto do design português, não vejo outra opção senão usá-las.

Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Design, Política

25 Responses

  1. José Rui diz:

    Em relação aos filmes de Riefenstahl, Susan Sontag demonstrou facilmente essa ligação no seu ensaio “Fascinating Fascism” – as grandes coreografias de multidões, a exaltação do corpo saudável, tudo isso se integrava perfeitamente na ideologia nazi.

    Não li o ensaio, não posso dispensá-lo já em duas penadas, no entanto tendo a notar o balofo, a linguagem redonda, o escrever muito para dizer pouco, que enferma muitos ensaios (julgo que o expoente máximo dessa linguagem é a arquitectura escrita e falada, com as suas “relações entre os volumes que se intersectam num equilíbrio precário e desafiador”, etc). Em Portugal se forem teses, convém que tenham 200 páginas, mínimo.
    Mas a minha pergunta era: esta citação não é o equivalente a uma genuína verdade de La Palice? Quer dizer, Riefenstahl ligada à estética nazi, foi demonstrado pela Susan Sontag? Se calhar até a ajudou a criar, no que à imagem em movimento diz respeito. Que isso careça de ensaio demonstrativo é que me admira.
    Diferente é algo que julgo que foi o Steven Heller que questionou há uns tempos é a apropriação dessa estética (ou da comunista por exemplo), para marcas da moda, sem o contexto e aparentemente sem o peso das consequências históricas de tais símbolos. É disso que se está a falar aqui? Já me perdi…
    Confesso que não estou a perceber a relação entre a crítica de design (inexistente) e a ética, conflitos de interesse. Isso é crítica de costumes, mas quando a beleza do gesto de meter dois gravadores ao bolso teve as consequências conhecidas — aplausos de pé, eleição para o conselho nacional de segurança (seja lá o que isso for) no dia seguinte, etc. —, tenho dúvidas que seja a época adequada para grandes caminhadas sobre ética no design…

    • Não é uma verdade tão de La Palice quanto isso: o ensaio de Sontag é uma crítica bastante exaustiva a uma série de tentativas de distanciar os filmes de Riefenstahl da ideologia nazi, recuperando-os enquanto estética “pura”, enquanto arte autónoma, etc. Lembro-me de quando estudava, haver gente de esquerda, de lenço palestiano ao pescoço que se confessava fã dos filmes dela.

      De facto, é mais ou menos a mesma coisa de que fala o Heller, mas tanto o Sontag como Nooney conseguem fazer um trabalho melhor do que ele (o trabalho de Nooney é uma crítica demolidora às fragilidades do ensaio de Heller). Embora qualquer uma delas tenha uma linguagem mais académica que Heller, os seus argumentos são bastante mais sólidos que os dele.

  2. José Rui diz:

    Distanciar? A própria distanciou-se. Eu se fizer um importante trabalho para um evento que é um flop entre outras coisas, pelo meu “importante trabalho”, tenderei a distanciar-me… ou pelo menos, não me ocorre fazer grande publicidade. Se num assunto infinitamente mais complexo, a cineasta se distancia, isso é criticável? Que deveria fazer — assumir-se como culpada pelos resultados que os seus filmes brilhantes ajudaram a obter? Não me sinto com capacidade de julgar isso. A Susan Sontag, judia (vai sempre acabar aqui a discussão), acha que sim. Excelente.

    Por acaso, sempre achei que se os gregos antigos tivessem câmaras, os filmes poderiam ser parecidos… mas isso sou eu a dizer.

    O que não percebo é a relação do que se passou e pelo que passou Riefenstahl — com a falta de ética do design português e como na prática deve ser criticado. Desculpa, não atingi este. Lamento não entender tudo.
    Exemplo concreto?

    • “Distanciar”, neste caso é um eufemismo para “evitar responsabilidade”. Se ela se decide, não muito convincentemente, distanciar-se do seu passado, recorrendo inclusive a mentiras mais ou menos evidentes (Sontag cobre esse assunto no seu ensaio), isso é evidentemente criticável, e até bastante.

      “A Susan Sontag, judia (vai sempre acabar aqui a discussão), acha que sim” e apresenta argumentação bastante convincente. A Riefenstahl, alemã e nazi, acha que não, mas a sua argumentação é baseada em mentiras. Neste aspecto, os argumentos da primeira convencem-me, os da segunda não.

      Do mesmo modo que não acredito que se deva avaliar os filmes de Riefenstahl apenas pelo lado formal e esquecendo o seu contexto, também não se pode avaliar o design apenas pelo seu lado formal e esquecendo o seu contexto.

      Um exemplo genérico: imaginemos que um designer apresenta uma solução brilhante num concurso público, mas não cumpre os pré-requisitos (não ter a segurança social em dia, ou qualquer coisa do género); será que o júri devia fechar os olhos, tendo em conta que a falha não afecta em nada o lado formal do trabalho?

      Um exemplo mais específico: se o site do centenário da república fosse bonito, isso chegaria para calar todas as críticas ao processo de atribuição directa, aos orçamentos, aos concursos organizados pelo CPD de que Cayatte é presidente, etc.?

      • José Rui diz:

        Hmmm… vi um documentário na primeira pessoa que gostei muito. Mas não estava a tentar ser convencido de nada. Tendo em vista o resultado final que gosto muito e que obviamente é um produto do seu tempo, custa-me admitir que seja mau design, ou mau filme, por causa do contexto ou porque a Susan Sontag fez um ensaio. Sim, pareceu-me evidentemente mentira que não privasse com as mais altas figuras do regime… mas para mim não tem comparação com as situações criticáveis hoje. Pura e simplesmente não vejo relação. Ela trabalhou sob a ética do regime e da época.
        Isto parece-me o mesmo que discutir se foi realmente o senhor Winchester da famosa “The Gun that Won the West” que matou todos aqueles índios. Ou se a culpa é de um dos seus predecessores e se recuarmos o suficiente, como em tudo, a culpa é de duas células num charco de água quente.
        Mas acho mais interessante discutir o presente — o primeiro exemplo não colhe pela seguinte razão: é um dado objectivo de qualquer concurso, o júri não devia fechar os olhos mesmo sendo o melhor trabalho — a questão é se deixa de ser o melhor trabalho por causa disso. A minha opinião é que não — não é por ter a ss em dia que seria melhor designer, quando muito seria designer mais pobre.
        O segundo exemplo já foi discutido e eu sou daqueles que não vejo bondade nenhuma em nada do processo. Primeiro, na minha opinião há um sério conflito de interesses ainda para mais precedido por um concurso anulado (que isto seja algo sujeito a opinião, nem entendo, devia ser algo que entra pelos olhos dentro de qualquer pessoa).
        Segundo o trabalho é horrível a muitos níveis (seria interessante uma crítica formal, mas não perco tempo nisso). Muito bom para quem acha o trabalho excelente.
        Terceiro foi exorbitante o que se justificou com um estatuto de provisório (deve ser como as esquadras provisórias da polícia). Não é dizer pouco da república.
        Mas, respondendo mais directamente à pergunta e é aí que quero chegar: todas as críticas não de forma nenhuma, mas a terceira poderia ser muito mitigada ou até totalmente inexistente se realmente estivéssemos em presença de algo sublime o que manifestamente não é o caso, sendo o efeito o inverso. Todas as críticas são poucas a tão fraco e caro trabalho atribuído em tão peculiares condições.

      • Se o Winchester não fizesse espingardas, outra pessoa as teria feito. Nesse caso, o Sr. Winchester estaria sem dúvida mais pobre, mas dormiria bem mais tranquilo. Por outras palavras, nunca passaria pela sua cabeça (ou pela de outra pessoa) que fosse culpado do que quer que fosse. Tendo em conta que dedicou a sua vida a fabricar um aparelhómetro cuja principal função é matar gente, é evidente que as suas opções pessoais hão-se sempre provocar discussões de ética.

        Do mesmo modo, se a Leni Riefenstahl não fizesse propaganda ao regime Nazi…

        É a mesma discussão, de facto. Só discordamos quanto à sua relevância.

        Partilhar da ética do regime ou da época, significa apenas e literalmente partilhar das suas responsabilidades. Porque é isso que “ética” significa.

        Quanto ao primeiro exemplo: nesse contexto (nessas condições), deixa de ser o melhor trabalho por causa disso.

  3. José Rui diz:

    Podemos discutir a estética do lenço palestiniano nos pescoços portugueses 🙂 .

  4. José Rui diz:

    Tão genialmente talvez não… sem a espingarda de repetição talvez o Oeste fosse hoje diferente. Os filmes seriam de certeza — imagina “O Homem da Carabina” sem a Winchester 🙂 . Talvez seja a genialidade de Riefenstahl que incomoda. Outros poderiam ter feito os filmes (e fizeram diferentes dos quais não reza a história) se ela não existisse. Ou se estivesse dedicada a lavores domésticos. Mas então, juntam-se os avanços técnicos da época que fervilhava de ideias e inovação… são piores porque nasceram do e no regime? Tenho dúvidas. Ainda não percebi o que era suposto ela fazer… partilhar responsabilidades… tipo negar o seu trabalho, auto isolar-se para sempre, oferecer-se para ser julgada em Nuremberga, nunca mais tocar numa câmara, suicidar-se…?

    De volta ao presente e é aqui que ainda não entendi a tua opinião, é pacífico que o trabalho é desqualificado… mas estás a dizer que se tornou também pior em termos do design apresentado? Essa parte é que me está a custar entender.

    Um exemplo da minha parte: o designer pagou a ss, mas não pagou as fontes que utilizou no trabalho. Isso não é um requerimento do regulamento, nem quem julga o trabalho sabe. Mas nós sabemos. Isso tornou o trabalho pior formalmente?

    Outro exemplo: o designer faz trabalho para a BP, para minorar as consequências do derrame no Golfo do México. Greenwash. Algo para mim eticamente deplorável que eu mesmo coberto de ouro teria de recusar. Mas o trabalho vai ser mau por isso? Isto assim é um nunca acabar de julgamentos e se alguns são fáceis o mais certo é entrarem em zonas cinzentas. Repara que muito comentadores mesmo aqui correram a discussão “república” a “dor de cotovelo” (não que eu perca tempo com essas coisas). E para mim seria das “fáceis”.

    Acho que não podes unir a ética à análise formal do design dessa forma. São dois níveis de discussão importantes mas diferentes.

    Desculpa a proliferação de comentários. Estou sem “stamina” para trabalhar 🙂 .

    • Mais uma vez, o maior problema do design é que tende a ser avaliado apenas pelo lado formal; não se avalia nem o contexto, nem os métodos, nem os argumentos de quem o produziu ou ajudou a produzir. A nível imediato, se estamos a julgar um trabalho num concurso sem saber o saber o seu autor, não podemos senão julgá-lo formalmente. Se estamos a escrever um ensaio crítico, temos que ir um pouco mais longe e perceber o modo como o objecto foi produzido e se isso afecta a sua eficácia. Se estamos a produzir história, ainda temos obrigação de ir mais longe.

      A maneira como uma forma é produzida em design e justificada dentro do design, uma actividade altamente negociada, é determinante no modo como essas formas são produzidas. Há um artigo bastante interessante de JAck H. Williamson que demonstra que, mesmo um objecto tão genérico como um grelha já teve variações de esquerda, variações de direita, variações religiosas, etc. Tal como no caso da Susan Sontag, o ensaio de Williamson convence-me.

      Voltando ao exemplo actual, no caso do Portal do Centenário, por exemplo, a divisão forçada de produção entre alguém que faz o logo por atribuição directa depois de um concurso abortado e alguém que faz as suas aplicações por atribuição directa que nunca foi a concurso, torna-se evidente no modo como a aplicação do logo no site funciona: está isolada de tudo o resto e até as cores são diferentes. Neste caso aqui o trabalho tornou-se mau formalmente em função do processo que lhe deu origem.

      No caso do designer que não pagou as fontes, isso não torna o trabalho pior formalmente, apenas o torna num pior de um modo geral. De qualquer modo, há uns tempos li um artigo que sugeria a possibilidade de Stanley Morison ter roubado o desenho da Times New Roman a um americano. Assumindo que sim, com esse conhecimento o carácter genérico da fonte, cuja principal qualidade segundo Morison é poder ter sido feita por qualquer pessoa, pode ser lido de uma forma completamente distinta. O facto de ser usada como uma fonte por defeito nas aplicações da Microsoft, sugere um objecto que nasceu dentro de um meio corporativo e mais ou menos impessoal e que continua a ser usada do mesmo modo.

      O próprio logótipo da BP, a lembrar uma flor orgânica, já foi criticado por ter muito pouco a ver com o que a companhia faz. É bonito, mas em última análise pouco adequado. Tal como a LR, distancia-se e pode perfeitamente ser criticado por isso.

      Em todo o caso, penso que se pode unir questões de organização do trabalho à maneira como o trabalho é produzido formalmente (já o argumentei há dois ou três textos atrás). A questão ética não anda muito longe.

      • José Rui diz:

        Não li o ensaio de Jack H. Williamson, já li o da Susan Sontag. Lá está, devemos estar pré-formatados, porque só aumentou a minha convicção que o principal motor daquela escrita é ser judia e o facto de LR (uma nazi) em 1974 estar a ser “reabilitada” para a arte. São os valores dela, têm razão de ser e só tenho de compreender. Mas não vejo só por isso uma capacidade maior que outro ensaísta para abordar e avaliar o trabalho de LR. Aliás, chama sempre “art” — se calhar queria dizer “artsy”, mas julgo que não porque acaba por dizer à frente “Triumph of the Will and Olympiad are undoubtedly superb films”. Quando muito contesta serem documentários em oposição a propaganda (pura). E de resto, claro, argumenta que são filmes que promovem os valores nazis. Eu leio isto com espanto genuíno… porque aquilo que me admiraria era se por exemplo promovessem valores comunistas, democratas ou católicos…

        O exemplo que dás da BP só aumenta o meu espanto. Porque é exactamente esse o objectivo do trabalho. A BP encomendou, tem os meios e alguém fez (este é mais adequado). É um mau trabalho? Pelo contrário, é um excelente trabalho de design e relações públicas, tem cumprido todos os objectivos de greenwashing da empresa (para meu desgosto e não é o único). Aliás, hoje quem desenha um logotipo para uma entidade ambiental praticamente tem de fugir das folhas, folhinhas e florzinhas que enxameiam todas as empresas más para o ambiente. Não percebo é como vais julgar o trabalho de design nesta base de valores que mudam de pessoa para pessoa (quanto mais de época para época)… se criticar design é difícil, por aí só podes ir parar a um terreno de tal forma movediço ao ponto de ser impossível.

        O paralelo da BP com a LR não existe sequer. E sirvo-me do ensaio para justificar isso: a BP distancia-se de uma actividade prejudicial ao ambiente, com um logo que simboliza exactamente o contrário.
        A tese da Susan Sontag e de facto não tem qualquer relação com a avaliação do trabalho enquanto obra de arte, é que a LR era nazi, continuou nazi e em 1974 por ocasião do lançamento do livro “The Last of the Nuba” continuava nazi. E justifica com uma série de coisas. Ou seja, exactamente o contrário do que estás a dizer — a estética do livro, apesar de ilustrar um povo negro de África é inconfundivelmente (para ela) nazi. Não se aproximou nada dos valores da Susan Sontag (suponho que sejam os valores certos).

        E insurge-se contra a bio oficial das badanas do livro com coisas que chama mentiras e eu chamo mentirolas nada diferentes de qualquer biografia oficial de artista do meio — neste caso minimizando o seu papel no regime (mas podia dizer que era muito pobre, foi babysitter e serviu à mesa numa lanchonete antes de ser descoberta por Arnold Fanck). Que participou no filme “The Mountain” de 1929 que nunca existiu? Mas foi actriz no filme “de montanha” — “Die weiße Hölle vom Piz Palü” em 1929… É um detalhe assim tão importante para abrir as hostilidades no ensaio? Duvido.

        Mesmo a questão ética estás a misturar em dois planos diferentes: o do comportamento individual e o dos valores da época. O site da república é mau hoje em república e será mau se passarmos para uma monarquia, mas não por defender os valores da república. O modo como foi feito, mesmo na república da “ética republicana” de valor facial duvidoso, será sempre criticável e tenho pena que não seja mais ao ponto de existirem consequências.

        Não me posso alongar mais. De qualquer modo, compreendi melhor o teu texto e só mais um comentário: o problema não é denúncia e visibilidade. O site da república foi denunciado visivelmente e vê lá se abalou minimamente os seus autores. Notas alguma diferença para as centenas e milhares de casos denunciados nos últimos anos nas mais diversas áreas? Nenhuma. Foi o processo que o tornou mau formalmente como dizes? Na minha opinião? De forma nenhuma.

      • Penso que só podemos concordar em discordar, e em mais do que uma coisa:

        – O facto de Susan Sontag ser judia não diminui em nada a validade da sua argumentação.

        – A tua interpretação do texto da Susan Sontag é bastante diferente da minha. Não tenho tanta facilidade como tu a desculpar as “mentirolas” da senhora, que são mais do que as que referes. O ponto principal do texto de Sontag, que ela repete várias vezes, é que não se pode apreciar os filmes apenas como arte pura. São o produto directo de um contexto muito específico que condicionou as suas opções formais e narrativas.

        – Quanto ao logo da BP, acreditas que, se o objectivo do trabalho é distanciar-se de uma má imagem, sendo esse objectivo alcançado o design é bem sucedido. Eu, pelo contrário, acredito que se as consequências do trabalho induzem clientes, público e sociedade em erro, trata-se de mau design e merece ser criticado. É como um assalto a um banco: pode ser brilhante, mas continua a ser um crime. Não acredito que pelo simples facto de um objectivo ser atingido, esse objectivo se torne bom apenas por isso. Se o design do logo é bom para a BP; é mau para o resto do mundo, do qual eu faço parte. Se compreendo a vontade da BP de se distanciar das asneiras, nada me obriga a concordar com isso.

        – No caso do centenário, e como eu referi na altura, o processo torna-se ainda mais vergonhoso numa república (quem começou a denunciá-lo foram precisamente os monárquicos). Toda a questão da atribuição directa é mais injustificável numa república, onde é suposto haver uma participação do público nas decisões. Aliás, uma das coisas que me incomodou mais no caso foi a forma como algumas pessoas deram a entender que o problema eram as pessoas que andavam a meter o nariz em sítios onde não eram chamadas. Ou seja, este caso torna-se particularmente criticável tratando-se das comemorações da república.

  5. Situr Anamur diz:

    o logo da BP é desadequado? Então sugeria que tivessem um logotipo como aqueles que estão sendo sugeridos pela Greenpeace? E um logotipo tem a ver forçosamente com o que a companhia faz?
    Se assim fosse deviamos deduzir que os CTT fazem entregas ainda a cavalo, que a PT é uma espécie de Lego portuguesa, etc.
    Ok, falar de branding e rebranding em Portugal é arriscado.

    Quanto à ética. Conhecia um chefe (director criativo) de uma empresa que quando não ganhava concursos mandava o account ir à empresa oferecer o trabalho por menos 10 ou 20% que a empresa vencedora. Não sei se esses 10 ou 20% iam para o bolso de alguém mas tudo é possível. E muitas vezes ganhava o cliente desta forma pouco ética. Assim se fazem grandes empresas em Portugal

    Lembro também o nado-morto que foi o projecto EED que ambicionava dotar de alguma ética o mundo das empresas de design: http://nada.hc.com.pt/?p=19

    • Talvez não fosse má ideia se a identidade de uma empresa estivesse sujeita às mesmas normas que a publicidade (como no caso das tabaqueiras ou do automóveis, por exemplo).

      Dentro das empresas portuguesas por exemplo não é possível registar um nome que dê a entender outra coisa para além do que faz. Lembro-me dos Bolos Quentes me dizerem que não conseguiram registar esse nome porque dava a entender pastelaria e não design. Por um lado, essa norma impedia a ironia ou mesmo a simples poesia. Por outro, ao nível das intenções queria proteger realmente o cliente, o consumidor de um possível engano.

  6. José Rui diz:

    O facto de Susan Sontag ser judia não diminui em nada a validade da sua argumentação.

    Repara que não foi isso que eu disse, mas mesmo assim: o facto de LR trabalhar sob e em prol de um regime, diminui a qualidade da sua argumentação (trabalho). Certas condições parecem afectar mais uns que outros. A questão não é ser judia. É ser judia a escrever sobre determinada pessoa, com determinado passado.
    Na BP, peço desculpa, mas não me parece que seja questão de concordar, parece-me um facto da vida. Eu tenho um bias anti-BP (ainda para mais hoje) e disse o que disse. Mas quem sou eu para dizer isso? E tu? A BP pode legitimamente dizer que o logotipo não representa o presente da empresa e muito menos o passado; representa o futuro, a sua aposta na energia solar, eólica e em tecnologias limpas (tudo verdade), livres de petróleo. Etc, etc.
    Aliás retomo a questão da fonte pirata: como podes avaliar e rotular como mau um trabalho com uma fonte “pedida emprestada” a um colega designer? Em 99% dos casos nunca irás saber nem nenhum designer chegará perto de ti a dizer orgulhosamente que pirateia as fontes que utiliza. O trabalho só é bom até saberes.
    A ignorância é uma benção e com os parâmetros que estás a auto-impôr, mais te vale saber o menos possível sobre qualquer que seja o trabalho que resolvas criticar… assim não há ilusão que resista… só desilusão.

    • Mais uma vez, discordo em pontos fundamentais (os mesmos):

      – Dizendo a mesma coisa por outras palavras: o facto de Susan Sontag ser judia não depende de uma escolha sua. nasceu assim. nem sei se era ou não praticante. nenhum dos textos que li dela o davam a entender. Leni Riefenstahl, ao contrário de Fritz Lang que saiu da Alemanha por discordar do regime, ficou porque concordava (e fez um bocado mais do que concordar). Não foi Nazi por nascimento, mas por opção. Portanto, sim, certas condições afectam mais uns que outros.

      – Quem sou eu para dizer o que quer que seja da BP ou do seu design? Ninguém, mas numa sociedade livre isso não deveria ser um impedimento.

      – Quanto à fonte, e tal como já tinha dito, nos casos em que não sei de nada, nada posso fazer, e isso é uma verdade de La Palice.

      • José Rui diz:

        — Aa Susan Sontag, tendo nascido judia podia ser ou não praticante; a LR tendo sido nazi 10 anos, teve de ser praticante toda a vida. Mesmo na fotografia de tribos africanas como Sontag “demonstrou”. Mas isso não é o essencial: recordo, é como esse facto afectou a qualidade do seu trabalho. Eu digo que não, tu dizes que sim.
        — Ser uma sociedade livre também não é o essencial da conversa e eu não disse “dizer o que quer que seja da BP ou do seu design”. A questão é que essas empresas têm muitos recursos e acesso ao melhor design possível devidamente justificado. Não fica pior design porque eu acho que são empresas abomináveis. Esqueçamos o logotipo da BP, vamos para as publicações — a paginação boa para uma empresa má (na nossa concepção) é uma má paginação? Não me parece.
        —Então não há perigo 🙂 . Além do autor, praticamente ninguém sabe nada sobre nenhum trabalho. Ou costumas perguntar sobre esses pequenos detalhes?

      • Mais uma vez: concordo em discordar (sim, sempre que me lembro – e lembro-me bastantes vezes – pergunto sobre esses pequenos detalhes)

  7. José Rui diz:

    São o produto directo de um contexto muito específico que condicionou as suas opções formais e narrativas.

    Eu não fui nem vou ser exaustivo na análise do ensaio, mentiras, etc. Mas confirma-se de facto a nossa discordância: eu comecei por perguntar se não era uma verdade de La Palice. E cá está ela, desta vez explicita.
    Eu vejo qualquer filme com as minhas referências e não os posso ver de outra forma. Qualquer filme, de “art house” a Steven Seagal tem essas condicionantes. O contexto específico tanto pode ser o ambiente mundial (a Europa dos anos 30 e posteriormente o III Reich no caso de LR), como o orçamento (enorme com dezenas de câmaras segundo Sontag sobre LR — a minha tese é que se a LR tivesse só duas câmaras e um assistente, os filmes tinham sido muito diferentes).

  8. José Rui diz:

    Ah… ok. Mas então não tens escrito sobre isso, ou isso não se reflecte nos teus escritos.
    Um último exemplo mais próximo do trabalho de LR: considero o regime chinês inaceitável. A cerimónia de abertura dos jogos olímpicos foram maus trabalhos (e filme) porque o regime é condenável (por mim)? Nunca me passou pela cabeça tal coisa. A arquitectura que exibem na aldeia olímpica é má arquitectura? Se fosse a Susan Sontag diria que “são o produto directo de um contexto muito específico que condicionou as suas opções formais”. Huh… boa sorte a justificar isso quando o nível de qualidade e produção chega ao da China actual.

    • Não, não tenho escrito nos últimos tempos sobre isso. Também não tenho escrito sobre tipografia ou software opensource em geral. Nada impede no entanto que o faça.

      Quanto à qualidade e implicações da arquitectura patrocinada pelo regime na China e não apenas nos Jogos Olímpicos, isso tem sido amplamente discutido pela crítica e pela teoria da arquitectura, com opiniões pró e contra.

      • José Rui diz:

        Só conheço o caso da sede da TV do regime da OMA (Koolhas), mas mais por ele ser tão vocal no ocidente e ter aceite trabalhar para a ditadura chinesa em contradição com as bocas que manda. Não me lembro de alguém ter questionado a qualidade do trabalho… ei, mas tudo é possível 🙂 .
        PS: Aparece Terça na Mundo Fantasma a partir das 17h. Para o Fábio Moon e Gabriel Bá (desculpa a publicidade).

      • Ok, são dos meus autores favoritos. espero que tragam o segundo volume do Casanova.

  9. Esta longa discussão só me permite um comentário que talvez consiga fazer com o José Rui a considere reformular o discurso.
    Se o design (como outras disciplinas criativas e criadoras) é, por natureza, um processo, então a sua avaliação deve fazer-se considerando não só o resultado desse processo (a parte criadora) mas também o contexto em que ele se desenvolveu (onde se passa a parte criativa).
    Para mim a resposta é óbvia. Claro que sim.

    • José Rui diz:

      Caro João Alves Marrucho, fico com a impressão que não percebeste o discurso.
      Aquilo que digo, aliás é o que faço também ao analisar história, é exactamente considerar o contexto — que na minha opinião tem de ser analisado à luz da época.
      A minha discordância é sobre o contexto afectar a qualidade formal do trabalho (porque o regime é fraco, porque a empresa é petrolífera, porque faz testes em animais, porque arruína a Amazónia…). Eu digo que não. Se me referi ao contexto como afectando a parte criativa, foi a chamar verdade de La Palice.
      No caso da BP, referi-me aos objectivos do cliente que também faz parte das condicionantes que o designer tem de enfrentar. Não é por isso que o trabalho vai ser mau, nessas empresas que pessoalmente desgosto, o contrário é o mais comum. Têm design de topo, por muitas voltas que aqui se dêem.

  10. O meu nome é Paula Azevedo e sou responsável pelo projecto SOWHAT? –PRODUCTS BY PORTUGUESE PEOPLE.

    Embora, a minha área de formação de base não seja o Design ( mas sim engenharia têxtil, com pós-graduação em gestão e PhD em estratégia e Marketing pela Universidade de Leeds, RU), desde há 5 anos que, após uma experiência internacional – no Brasil – de 4 anos, abandonei a vida académica para me dedicar à criação e desenvolvimento da MyStone.

    A MY STONE é uma empresa que comercializa materiais de arquitectura de interiores(www.mycomercio.pt). Primeiro apostamos numa análise dos materiais de revestimento disponíveis no mercado. Em seguida, e baseados nas conclusões dessa análise, desenvolvemos um sistema de representação exclusiva de um conjunto de marcas.

    Percebemos, no entanto, à medida que a nossa rede de contactos se foi consolidando e diversificando, que em Portugal existe um conjunto de excelentes artesãos e de excelentes fabricantes fortemente prejudicados pela inexistência de canais de distribuição suficientemente especializados para a divulgação e integração de produtos e materiais que, muitas vezes assentes em atributos artísticos e de sustentabilidade de nível superior, correspondem já a nichos de mercado que justificam prémios de preço e apresentam um potencial de crescimento muito significativo.

    É da observação continuada deste fenómeno que nasce a SOWHAT? –PRODUCTS BY PORTUGUESE PEOPLE.
    A- SOWHAT?PRODUCTS BY PORTUGUESE PEOPLE- designação provocadora que procura responder a quem estranha o “made in Portugal” associado às tendências mais contemporâneas, é uma plataforma onde criadores e fabricantes exclusivos, seleccionados a partir de critérios de qualidade e de intransigente defesa do que é nacional, se apresentarão e a partir da qual farão o seu contacto com o mercado

    MAIS INFORMAÇOES EM :
    http://www.sowhat.com.pt
    http://www.facebook.com/pages/SO-WHAT-PRODUCTS-by-PORTUGUESE-PEOPLE/120328767994243?ref=ts

    GOSTARIA MUITO DE TER A SUA OPINIAO.
    OBG
    PAULA AZEVEDO/918484618

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