The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A História (mas só daqui a bocadinho)

via aqui.

Uma das sensações mais frustrantes para quem lida com o design gráfico é a sua relação ambígua com a história. De vez em quando, por exemplo, aparecem livros (em geral mais povoados de imagens do que texto) onde se declara – modestamente – que ainda não são, nem pretendem ser, a verdadeira história, mas que lhe preparam o caminho. Na introdução do anuário da Graphis Annual 67/68 declara-se por exemplo que:

“Um debate fervilha entre um certo grupo de historiadores sobre a validade da história. A questão é se os eventos discretos que tiveram lugar em outros séculos não são mais do que um grande ‘acontecimento’ e se a história não é apenas o conceito posterior inventado pelos historiógrafos. Sem enfrentar esta questão difícil, poderemos talvez afirmar com segurança que se o homem tivesse um catálogo sensato da sua voz popular como parte do património cultural, a vista do nosso actual Olimpo seria consideravelmente menos nebulosa. Certamente muitos das características de uma era poderiam ser extraídos daquilo que os artistas e designers gráficos produziram. Neste sentido, uma antologia gráfica anual pode servir como uma espécie de ponto de referência histórico.”

Resumindo: a história tem os seus problemas mas não estamos aqui para enfrentá-los (de qualquer modo, fica aqui um belo catálogo, com bonitas imagens para ajudar a fazer a história, se algum dia for possível fazê-la, claro). É uma declaração modesta, mas não demasiado: quem a faz, está-se evidentemente a fazer ao piso. É como quem diz: se a história aparecer, lembrem-se de mim.

Mais subtilmente, este género de afirmações também dão a entender que ainda não há história ou que nem sequer é possível fazê-la. Tendo em conta que, mesmo em 1967, já havia algumas histórias do design publicadas, um artigo deste género está levemente, educadamente, a desautorizar a produção histórica da sua época. O debate sobre a validade da história referido no texto não impede os historiadores de trabalharem. Só determina o género de história que produzem: Foucault, por exemplo, fala desses diferentes modos de encarar a história na introdução da “Arqueologia do Saber”. Pode-se escolher fazer uma história das pessoas ou uma história das disciplinas, uma história da politica ou a história de uma ideia como o medo, a cor, etc.

O facto de aparecerem em livros mais visuais do que escritos pode indicar que, ao dizer que aquilo ainda não é bem história, se está a querer dizer que ainda não há uma história que trate convenientemente as imagens. Contudo, há bastantes metodologias dentro da história e da crítica que permitem lidar com imagens. Não é uma preocupação muito convincente, portanto.

O maior problema destas afirmações é que têm o condão de adiar subtilmente a história: para já, não se pode, mas talvez daqui a bocadinho. Graças a ela, o design vive num presente permanente, o que até dá jeito numa actividade que gosta de ser o último grito.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, História

2 Responses

  1. Luís Ferreira diz:

    Não sei se conheces o texto, mas talvez te interesse: http://tigger.uic.edu/~victor/articles/teachdesignhistory.pdf

  2. Há cerca de um par de semanas atrás dei por mim a participar numa discussão semelhante, mas sobre o conceito de Arte Digital (enquanto Arte).

    A certa altura foi apresentado o argumento do quarto parágrafo—”ainda não é possível perceber a história porque ainda a estamos a viver” […] “não temos o distanciamento suficiente”.

    Acontece que tenho em casa um punhado de livros (só) de imagens e um outro punhado de livros (só) de texto dedicados aos 40 anos deste tipo de expressão artística (para já não falar das dezenas de livros que se encontram à venda sobre o tema).

    Por isso, assim de repente, acho que qualquer actividade deve estar sujeita à sua análise e enquadramento histórico/teórico. Não pode e não deve ficar “para daqui a um bocadinho”. Os registos, críticas e observações históricas também serão elas alvo de observação do futuro.

    A distância dos eventos no tempo, certamente que fornece uma maturidade e uma capacidade de observação mais global para os podermos entender… mas a pergunta que deixo é quantos anos são precisos? Quantos livros de imagens?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: