The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Ensinar Design

via Christoph Niemann

Dar aulas numa universidade é, neste momento, uma actividade penosa – muitas cadeiras, muitas turmas, muitos alunos. A culpa é em parte de Bolonha, em parte da economia, em parte da gestão particular das instituições que, confrontada com decisões difíceis, pode – como é evidente – decidir distribuir a carga por todos ou apenas por alguns. Contra a fadiga e desalento, vale talvez a pena, como antídoto ou até como mero passatempo, perguntarmo-nos o porquê disto tudo: porquê um ensino superior do design?

Muita gente achará a dúvida despropositada ou até subversiva. Dirão: porque se queixa ele? Se não gosta que arranje outro emprego. Mas cada pessoa lida com os problemas de maneira distinta. Pessoalmente, tentar perceber a situação onde estou é a minha maneira de a confrontar ou mesmo resolver. Ensinar e – mais ainda – investigar implica descontentamento com aquilo que se sabe e com aquilo que nos é apresentado como conhecimento; implica um dever para com a verdade. Acreditar na necessidade deste dever é incompatível com acreditar que ser membro de uma instituição universitária implica calar toda e qualquer dúvida sobre o seu desempenho.

Mas porquê então um ensino superior do design? Tendo em conta que estamos a falar sobre o design, uma actividade pragmática que muita gente acredita poder ser ensinada melhor pela prática do que pela teoria, porquê ensiná-la num curso com disciplinas como História (da Arte ou do Design), Estética, Antropologia, Sociologia, etc.

Talvez seja mais eficaz responder com um exemplo: quando era aluno, era costume alguns professores de design dizerem-nos que os melhores trabalhos não precisavam de explicação. Quando um aluno começava a explicar um logótipo, um poster ou uma paginação era interrompido, porque o trabalho não estava a cumprir bem a sua função (o melhor design funcionava sem explicações). Até certo ponto isso é verdade: seria ridículo se um cartaz ou uma sinalética de casa de banho precisassem de ter ao lado um designer a explicá-las. No entanto, uma sinalética de casa de banho não funciona apenas no contexto do seu uso. É preciso falar sobre ela quando se tenta convencer um cliente a adoptá-la, ou quando se tenta fazer dela uma norma europeia ou quando se tenta justificar a sua integração num determinado contexto social ou histórico. E não é apenas o designer que a fez que fala sobre ela: o utilizador, o legislador, o critico e o historiador participarão nesse discurso, muito depois do designer ter terminado o seu trabalho.

A tarefa do ensino universitário é preparar os designers para exercerem a sua profissão em sociedade e o sistema operativo da sociedade é a linguagem, que funciona – em democracia – através do debate. Uma disciplina como Estética, por exemplo, que pode parecer inútil aos designers mais pragmáticos, é na verdade a história das discussões de gosto em sociedade. Para os mais pragmáticos, pode funcionar como uma caixa de ferramentas, contendo argumentos que podem ser usados para defender a eficácia ou revelar a fragilidade de um trabalho de design. Como é evidente, o mesmo pode ser dito da história, da sociologia, da antropologia ou da crítica.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ensino

5 Responses

  1. Dário Cannatà diz:

    Olá

    Interessante artigo.

    Os professores do teu passado seriam um oposto ao ensino holandês onde todos os alunos começam a descrever o trabalho pelo conceito como se fosse o mais importante aspecto do documento.

    Eu lembro-me de falar com um amigo da Willem de Kooning em Roterdão que se referia a “High Design” a “Low Design”, sendo que a diferença qualitativa seria o conceito e a diferença metodológica a investigação. A mais valia deste sistema é que valida qualquer tipo de trabalho desde que tenha digamos um “Motivo”, uma razão de ser e de existir.

    No entanto, na William de Kooning não existe o mesmo ensino teórico que existe no Porto. De facto ele é bastante inferior e reduzido. Contudo, estão tecnicamente mais bem preparados. Isto pode parecer contraditório, uma vez que o conceito é tão importante. Bem o que me parece que eles fizeram foi uma estrutura de ensino onde a prática desenvolve conceitos através dos métodos necessários à realização dos exercícios.

    A minha grande crítica a este método é que eventualmente a qualidade dos conceitos torna-se subjectiva e acaba produzir trabalhos no espectro arte-ciência, acabam por se perder no mundo da arte. Um pré-estudo dos conceitos permite direccionar os métodos de forma a atingir argumentos mais válidos.

    Este pré-estudo pode ser visto como a moral, ou a intuição, simplesmente um olhar inicial, orientado por motivos e paixões que direccionem os conceitos a desenvolver. De facto a história, sociologia, antropologia, crítica, etc todas nos ajudam a desenvolver este pré-estudo.

    A meu ver o Porto é bem capaz de atingir um equilíbrio entre dois extremos: a prática e a teoria. Se virmos os Designers que saíram da Belas Artes vemos que existe de facto um equilíbrio entre estas realidade. O caso de João Faria, recuando ao João Machado ou mesmo em tempos de arquitectura…o caso de Siza Vieira. Existe um equilíbrio entre a metalinguagem e a realidade. É essencial que assim se mantenha ou mesmo que se suporte ainda mais este equilíbrio. Isto é um equilíbrio entre as dualidades; entre arte e ciência; entre prática e teoria; subjectivo e objectivo; etc.

    Eventualmente o que pode faltar no Porto será actualização. Tanto a teoria como a prática poderá estar desapropriada ao tempos que correm, assim como os métodos de ensino. Isto tudo já é mais complexo uma vez que é necessário analisar o que significa “os tempos que correm”. Outra questão é perceber se uma Instituição Académica consegue ter mudanças radicais através de reformas, ou se acções radicais serão necessárias.

    O que me parece importante é perceber que o método instituído não é único e de certeza que não é o melhor. Ele tem aspectos positivos que deveriam ser mantidos e maximizados e aspectos negativos que poderiam ser resolvidos e ultrapassados.

    Abraço

  2. De facto, sou da mesma opinião. No design deverá existir um equilíbrio entre função e estética. É o que digo sempre aos meus melhores clientes. Para um pequeno trabalho, tanto faz se existe esse equilíbrio, até porque não vou perder muito tempo com ele. Mas assim que tenho um grande projecto em mãos chego a pensar e repensar vezes sem conta antes mesmo de avançar. O melhor design é assim. De que interessa que o design seja apenas bonito, se este não tiver uma relação conceptual segura naquilo que ele irá representar? Será que o logótipo do JN funcionava numa empresa como o Macdonalds? Será que a marca de azeite Galo funcionava num banco como a Caixa Geral de Depósitos? E se trocássemos a marca da Galp com a de um partido político como o PSD, por exemplo?

    As grandes marcas foram estudadas antes e durante a sua concepção. E mais vale até um design feio, mas com grande peso conceptual, do que um design fantástico sem qualquer vinco de funcionalidade.

    O trabalho conceptual é o que distingue o designer licenciado, mestrado ou doutorado de um técnico de gráfica com estudos até o 12º ano, cursos técnico-profissionais, etc. Porque muitos pensam que basta saber a técnica da produção gráfica e da impressão, mas quando confrontados com a realidade acabam a fazer só pequenos trabalhos durante todo o seu percurso profissional.

  3. Ana Pais diz:

    Boa tarde professor,

    Fui sua aluna em Design de Comunicação há pouco tempo e sendo uma designer que sempre se preocupou com esta questão do ensino na Faculdade de Belas-Artes da Up, gostaria de dar a minha opinião sobre o tema…

    Antes de mais, parabéns pelo excelente conteúdo aqui apresentado nos seus posts.
    Quero que saiba que é um orgulho poder fazer parte deste processo de troca de informação com um dos professors da fbaup.

    A nossa turma apanhou Bolonha no 2º ano, ficando com cadeiras de desenho de um ano num só semestre e outras tantas na mesma situação. Foi bastante complicado mas, penso que não há uma fórmula mágica para se saber exactamente o que devíamos ter mudado para que pudéssemos ter o máximo de produtividade.
    Na minha opinião, a nossa actividade vai sempre ditando ou orientando os próximos passos.

    Concordo plenamente quando explica que confrontar/enfrentar o problema é não estar satisfeito com a situação actual e isso serve de motor para a mudança.

    Agora, quanto ao tema “teoria face prática”, ou “ideia face a resolução” etc, é mesmo uma questão intrigante.
    Primeiro, por ser o que sou hoje, não poderei saber o que poderia ter sido ontem, se as minhas decisões tivessem sido outras.
    Podemos apenas questionar-nos sobre as coisas e comparar as nossas decisões com as dos outros e assim adquirir conhecimento.

    Eu penso que o conhecimento advém (quase) sempre da prática. Ao ler um livro,
    o que lá está foi conhecimento adquirido por alguém que praticou e experimentou algo. O que o professor nos ensina, é fruto da sua experiência também.

    Assim, poderíamos dizer que bastava andarmos a experimentar que lá chegaríamos… Mas também penso que não é bem assim. Ou então temos simplesmente a necessidade de justificarmos o uso da mente para tudo só por uma questão de nos sentirmos mais racionais e inteligentes perante a sociedade.

    Para responder à sua “questão” sobre o porquê de um ensino de design, talvez seja melhor dar o meu próprio exemplo.
    Eu entrei para a Fbaup porque achava que design tinha tudo a ver com o Photoshop que, na altura eu dominava razoavelmente. Foram-nos explicando que design era muito mais que isso, mais do que técnica, resultado ou processo, era também muito teórico e conceptual. Basicamente tudo teria de começar com um conceito.

    Toda a nossa actividade como estudantes passou então a basear-se numa constante procura de sentido e de uma ideia para que no final, tudo fizesse “sentido”. E estamos a falar de projectos de curtíssima duração.

    Para além de não dominarmos a técnica, já nos era exigida uma grande carga conceptual nos nossos trabalhos e, sendo tão jovens e inexperientes, acabávamos por inventar um grande palavreado para vender o nosso trabalho. O que na minha opinião começa a distanciar-se um pouco do que é o design de comunicação e se calhar começa a entrar um bocado no campo do marketing?! (peço desculpa a algum marketeer que tenha entendido mal esta frase)

    Tive professores completamente diferentes na Fbaup, uns mais teóricos outros mais práticos mas todos, todos, tentavam introduzir a teoria como parte fundamental do processo.

    E foi isso que absorvi e trouxe comigo da fbaup, todos os conselhos e experiências relatadas em torno do design fizeram todo o sentido quando eu mesma as experimentei em contexto de trabalho real.

    Porque na faculdade tudo era muito teórico, fazia sentido mas não se sente realmente o que nos querem dizer se não experimentarmos num contexto real.

    Daí que podería dizer que começar com uma boa base conceptual e teórica, histórica, é o ideal para nos tornarmos um bom designer, pois a prática, iremos adquirir de qualquer forma e, tudo fará sentido nessa altura. Quase como um puzzle que se resolve.

    Se tivesse começado a trabalhar primeiro sem me preocupar com a parte teórica, teria-me tornado uma técnica, alguém que domina o processo de criação mas a um nível pouco conceptual.
    Mas é bom que também existam técnicos, porque apesar de apreciar a transdisciplinaridade e a autonomia do designer em vários ramos de design, eu penso que deveríamos aprender a trabalhar em equipa e a produzir algo com a colaboração de outros profissionais. É bom sabermos várias coisas mas também reconhecer que a determinado momento precisamos de uma ajuda em prol do sucesso do projecto ou da empresa.

    Em vez de nos centrarmos no indivíduo apenas, acho que seria bom construir um ensino que primasse pela colaboração de várias pessoas com habilidades diferentes num todo. Porque senão penso que estamos a criar freelancers e isso também não é saúdavel para o design. Isto não passa apenas por colocar grupos de trabalho, mas sim pela correcta avaliação do projecto num todo e não apenas nas suas partes.

    Para finalizar, lembro-me de uma altura em que tive de fugir da Fbaup no último ano em Erasmus durante um ano porque não aguentava mais conceitos e ideias e pouca prática. Não conseguia trabalhar assim. Não gostava de quase nada do que fazia e não me identificava com isso o que acabou numa grande depressão.
    Estudei na Moholy-Nagy em Budapeste (nome pertencente a um dos professores da Bauhaus) e lá assisti a um tipo de ensino muito diferente. (não digo que seja melhor)

    As turmas eram pequeninas e o professor passava mais tempo com os alunos tentando acompanhar cada um na sua individualidade.
    Usavam referências de trabalhos que num determinado contexto fazia sentido e procuravam que cada aluno encontrasse a sua forma de trabalhar específica.

    Não senti que eles achassem que existia um só estilo gráfico ideal como senti na Fbaup. Pelo contrário, achei que eles tentavam que o aluno adoptasse o seu próprio estilo e linguagem observando os seus pontos fortes e fracos e isso é importante para que o aluno cresça seguro e fiel a si mesmo. Claro está que isto entra quase no campo da arte mas, devo dizer que existia ali uma tentativa de encontrar a forma ideal, o design, mas através de um caminho mais personalizado.

    Bem, existem tantas formas de se corrigir um problema, que acabam por trazer ainda mais problemas.
    Isto lembra-me uma aula do professor Heitor Alvelos ☺

    Mais uma vez, apesar de ter sido uma das alunas a criticar mais o facto de sermos tão teóricos, penso que trago uma grande riqueza comigo quando recordo o que me foi ensinado pelos diferentes professores.

    Boa sorte para o seu trabalho e continue a escrever sobre design.

    peço imensa desculpa pelo testamento. Adoro escrever…

    cumprimentos 🙂

    ana pais

  4. Boa tarde,
    Caros Colegas

    Este post criou em mim um dilema ainda maior, sobre um assunto que é para mim muito pertinente. Refiro-me a quem exerce a profissão de designer de comunicação, e precisa de orçamentar seriamente um valor coerente a aplicar no desenvolvimento de uma identidade corporativa e respectivo estacionário.

    Todo bem que somos ensinados (Ensino Superior) a saber distinguir o bom do mau design, etc… Mas, o que dizer aos futuros designers sobre a lealdade e compromisso na aplicação de valores justos em trabalhos gráficos? Para não prejudicarmo-nos uns aos outros?

    – Hoje mesmo uma pessoa amiga, pediu-me para desenvolver um logótipo e estacionário para um familiar, e vai dai sugeri o valor de 400,00 (+IVA), o que parece ser um valor justo e low cost.

    Mas, a minha surpresa é continuar a constatar que as pessoas ficam abismadas com estes preços praticados por nós (designers).

    E a frase cliché aparece sempre nos diálogos: – Tão caro! É pah, mais fale ser o meu sobrinho a fazer isso, e bem mais barato!

    Enfim…

    Por isso, a minha questão é: – Qual o valor justo a aplicar em trabalhos gráficos, mesmo sabendo que a nossa profissão ainda não é bem interpretada (compreendida) pelas pessoas (Clientes)!

    Será a crise? a vontade de pagar pouco? Estará a profissão do designer a precisar de se adaptar aos tempos mais dificeis?

    Enfim. São dúvidas, dúvidas!

    P.s – Fui seu aluno na FEUP, e sempre gostei de acompanhar as suas aulas e agora o seu blog, Parabéns!

    • Ana Pais diz:

      Olá Patricio!

      Eu também deparo-me às vezes com essa situação. e penso:

      só tenho duas opções pertinentes: sacrifico o design com a sua autorização em prol de cumprir o orçamento mais baixo (claro que nao aconselho prostituiçao grafica como muitos fazem)
      e a outra é manteres a postura e o design igualmente bom tal como o valor que pedes, que nao vamos dizer que é mau porque se gerires bem o tempo acabas por ganhar bem.

      Eu avalio cada situação e se achar que a empresa nem merece assim tao bom design porque nao vao saber lidar com ele ou promover da melhor forma, as vezes contentamo-nos com algo mais simples. Penso que o ideal é equilibrares a qualidade do design com o preço que te pedem e o contexto da empresa e da exposição do teu trabalho.

      Mas no final, coloca-lhes a questão:

      Se fosse você a fazer este trabalho, quanto cobraria?
      É que todos querem mais barato, e quem acaba por descer o preço sao sempre os designers. Depois eles lucram a longo-prazo e nos só lucramos uma vez.

      Essa do meu amigo faz mais barato não cola. Porque acredito que o amigo não faz melhor que um designer qualificado (mesmo que faça convém defenderes o teu trabalho, penso eu :P)

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