The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Para a próxima é que é

De vez em quando, demasiadas vezes, duas ou mais por dia, se for época de avaliações, aparece-me alguém, em geral um aluno, mais raramente colegas – porque não é comum falar-se destas coisas entre professores de design –, aparece-me alguém que não se sente preparado para começar a escrever sobre design e que deixa que essa insegurança vá adiando indefinidamente a escrita.

O único conselho que posso dar é: a preparação para a escrita deve ser como a preparação para uma viagem: se nos vai impedindo de sair de casa, não é certamente preparação nenhuma (excepto para ficar em casa). Tal como se diz na publicidade do Johnny Walker, mesmo a maior viagem começa com um pequeno passo.

Muita desta insegurança deve-se talvez àquilo que se costuma chamar “mentalidade nacional” e que, dando a entender uma deficiência genética, descreve na verdade toda a rede de hábitos, instituições e tiques sociais que vai criando a nossa identidade pelo processo simples de nos impedir de ser como os outros.

No nosso ensino superior, vai-se dizendo aos alunos que ainda não estão preparados para escrever – ou fazer design, ou investigar. O que vão fazendo é prepararem-se para isso. Ao longo dos três primeiros anos do meu curso, iam-nos dizendo que ainda estávamos muito verdes, que no quarto ano íamos finalmente estar preparados para trabalhar a sério. Na primeira aula do quarto ano, o professor, depois de um breve inquérito, concluiu que não sabíamos nada daquilo que já devíamos saber.

Todo este adiamento provoca um medo muito concreto de nunca se estar realmente preparado, de nunca estar realmente à altura. Não é uma preocupação saudável – como tentar antecipar os problemas que um determinado trabalho pode trazer, as ferramentas ou processos que serão necessárias para os resolver, o tempo que levará a fazer –, mas de algo distinto, que vai criando nas pessoas uma infantilização que também desresponsabiliza: se não se está preparado para uma tarefa, mais vale nem a fazer.

Talvez tudo isto seja uma vestígio do catolicismo: ao longo desta vida, vamo-nos preparando para a outra – o que até seria útil se houvesse alguma garantia que S. Pedro aceita propostas de tese ou que há peer reviewing no Paraíso. Na campa de cada português deveria estar escrito “Para a próxima é que é”.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ensino

5 Responses

  1. Antes demais penso que um design só percebe e começa a construir a sua descrição e definição de DESIGN pós-curso.. é aí que toma realmente o primeiro passo para uma grande viagem.. Porque durante o curso diz amen a isto e aquilo, bater palmtas a teorias influenciadamente éticas e supostamente correctas, e depois a coisa muda dramaticamente..

    Costumo dizer “para seres um designer, primeiro terás de ser humano e depois terás de saber que género de designer queres ser, trata-se de uma escolha e não de uma obrigatoriedade em nome do lucro, pelo menos assim deveria ser..”

    Por exemplo um docente nunca deveria incenticar um aluno a coleccionar “gurus” ou preferências que depois se reflectem imenso naquilo que os mesmos fazem.. (alguns professores parecem ter um gostinho especial em que os 25 “gueishos” façam quase-cópias dos seus trabalhos comercais fora-da-escola) Isto é claramente uma deficiência fruto do ego.. “então nao é bom saber que alguém se aproveita do que fazemos e faz igual ou muito parecido? É prova de que o fizemos bem” dito por um professor esadiano 🙂

    Os alunos não se preparam muito para escrever mas sim para aquele momento chato em que o professor lhe diz “isto é colado, copiado ou simplesmente decorado” (riso)Penso que os professores deveriam promover uma atitude mais crítica e reflexiva nos frequências/exames e não apenas em trabalhos práticos ou trabalhos escreitos.. isso iria resolver um grande problema.

    Recentemente soube de um concurso organizado por uma aluna em que ela divulga o juri, e o juri inclui-se totalmente no que acabei de referir no parágrafo anterior (hilariante)..espero que os 100 cartazes a concurso não resultem em 100 cópias do estilo gráfico que esse mesmo juri/professor usa nos seus trabalhos comerciais (de rua)

    Como se explica a deficiência e pouca preparação para escrever e “fazer” design? Começa logo no copy paste (riso), passando pela preguiça mental, passando também pela falta de carácter e essência, falta de preocupação em relativos a assuntos políticos, economicos e sobretudo sociais… e acaba no ser e não ser e não pelo ser tudo o que se é no que se faz (enquanto designer).. Poderia entrar em estimativas e percentagens da quantidade de “designers” que existem mas ia soar mal.

    Soube deste blog por um aluno seu. Vou estar mais atento 🙂

    • O melhor que o designer pode fazer é mesmo criar o seu próprio estilo gráfico. Tudo bem… pode haver uma certa inspiração em algo já feito por outros, numa espécie de contribuição para a criação e afirmação de uma qualquer “moda estilística” num determinado contexto social e artístico.

      As modas, por um lado, são resultado de uma “sociedade” do design e prova de que o Design existe não só como profissão como também como “comunidade”, em que cada um contribui com um pouco de si para o desenvolvimento e enriquecimento da Cultura do Design. Por outro lado, a “moda” também pode gerar “Clones”, tornando o Design bastante viciado, quase como se não se pudesse fazer mais nada para além do que é feito. E então saímos à rua e acabamos por encontrar cartazes todos parecidos uns com os outros, mudando apenas uma cor ou outra, um logótipo ou outro…
      Contribuir com algo novo e original (mas que seja também funcional, equilibrado e de qualidade) é o melhor que um designer pode fazer. Mas a criação de modas numa determinada comunidade de design é difícil, senão impossível, de evitar…

      🙂

  2. natenine diz:

    Como eu em identifico com este texto, os alunos em portugal são muitas vezes reduzidos e não são incentivados a visionar o potencial do seu trabalho. Acho que no fundo alguns professores têm medo que os alunos venham a ser melhores que eles. Muitos professores esquivam-se do seu papel de instrutor e passam a ser meros juízes a avaliar segundo os seus próprios conceitos de estética (tantas vezes presos no tempo). E quantas vezes denigrem trabalhos sem estimular e ajudar o aluno a chegar a uma outra abordagem.

    • Eu vi disso, senti isso, critiquei isso e ainda saí visto como arrgante.. Presenciei erros atrás de erros que os docentes em conugação com os alunos nunca os deveriam ter cometidos. (mas isto é fruto da escole superior de design que frequentei, escola essa que goza de uma fama e reconhecimento não tão justo ou merecedor como se pensa.. vale por 4-5 professores..infestada com 15 professores faz-de-conta e 3 ou 4 que NUNCA deveriam estar a dar aulas)

      Afinal de contas temos todos de ser iguais aos outros..politicamente correctos, convenientes..sobretudo amiguinhos dos professores e nunca os contestar..(risos).. O carácter e a personalidade, muitas vezes qualidades resumidas à suposta arrogância, saiem muito caros.

  3. “Para a próxima é que é…” Faz-me lembrar dos momentos em que estou cheio de trabalho para fazer e já ando com uma ideia para um projecto pessoal há meses, só que sem possibilidades de o fazer por falta de tempo. Assim que a minha lista de trabalhos programados chega ao fim, avanço logo com esse tal projecto pessoal que acaba por ser interrompido a dada altura porque começam a surgir novos projectos profissionais de estrema importância. Então eu penso “para a próxima é que é!”. Hehehe

    Na maior parte das vezes, acabo por abandonar as minhas ideias em pastas que se vão acumulando no meu pc sem nunca chegarem a ver a luz do dia. Há prioridades que não se podem ignorar, tais como a renda de casa e a conta da luz e da água, etc.

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