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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Crítica e Academia

Depois de Bolonha, a produção de teses de mestrado, de doutoramento e de papers académicos disparou, no entanto, a produção de crítica sobre design continua residual. Como explicar o aparente paradoxo?

Em primeiro lugar, produção académica e crítica não são formatos inteiramente coincidentes. A crítica, tende a ser um formato mais imediato, que pretende alcançar um público mais alargado. Embora não seja necessário, pode também procurar directamente a polémica. A produção académica pode ser critica, no sentido em que analisa criticamente um objecto, mas estando sujeita a mecanismos de avaliação que se podem reflectir na carreira de quem a faz, não costuma ser particularmente incisiva ou mesmo pública – em geral, é bastante cautelosa e conservadora. Também não é um formato particularmente veloz; pode demorar anos a ser produzido, revisto e publicado. Na melhor das hipóteses, a critica produzida no meio académico é um formato de médio e longo curso, que ganha em profundidade aquilo que perde em actualidade.

Em segundo lugar, e mais grave, a produção académica depois de Bolonha trocou nitidamente a qualidade pela velocidade.

Ao nível curricular, as pós-graduações tendem a ser menos exigentes que as licenciaturas. A razão para isso é simples: tendo em conta que são uma fonte de receitas para as escolas, não há grande incentivo para rejeitar alunos, mesmo que a sua formação ou motivação não se enquadre no plano de estudos. No caso de um mestrado em design, torna-se necessário fazer introduções a tecnologias já cobertas na licenciatura porque muitos alunos vieram de outras áreas. Tudo isto demonstra que a ideia da pós-graduação como especialização não passa muitas vezes de retórica.

A pós-graduação como modo de financiamento também incentiva as turmas grandes, o que não só dificulta o acompanhamento durante as aulas como sobrecarrega os orientadores, que em alguns casos chegam a acompanhar dezenas de alunos. Supostamente, a redução do tamanho das teses aliviaria o problema, mas como os prazos também são mais curtos e os alunos tendem a ser avaliados em grupo, um orientador pode ter que ler uma dezena de teses na mesma semana, o que acaba por dar tanto ou mais trabalho que o modelo antigo (onde a flexibilidade maior dos prazos tornava difícil aparecerem várias teses do mesmo orientador a serem avaliadas ou defendidas no mesmo dia).

Apesar da grande produção de papers ou da proliferação de teses, estes trabalhos teóricos são, na grande maioria dos casos, divulgados de modo apenas ritual, meia dúzia de exemplares, impressos para cumprir a formalidade da publicação – embora não o seu espírito. Do mesmo modo, a apresentação pública tende a ser pouco ou nada frequentada – às vezes, só o candidato, os pais e um ou dois colegas à espera da sua vez.

Por tudo isto, torna-se difícil saber o que se anda a fazer em termos de investigação em Portugal. Em certas áreas, como por exemplo a história do design gráfico em Portugal, torna-se difícil ter uma ideia de conjunto do que já foi feito; novos trabalhos de investigação tendem a remoer temas batidos sem criticarem ou mesmo reconheceram trabalhos feitos sobre o mesmo tema. Dentro da mesma escola ou curso, ainda é possível ir evitando a redundância, mas a nível nacional, só por sorte.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ensino

7 Responses

  1. o problema é o trabalho académico por tradição ser feito para este público: http://www.co2partners.com/blog/wp-content/uploads/2010/04/bellybutton.jpg

    =)

  2. Luís Ferreira diz:

    A nível nacional creio que o panorama é um pouco mais grave do que o que apontas aqui.

    Vi trabalhos que configuravam “teses” de mestrado de uma escola com “créditos na praça” que me deixaram perplexo. Eram um “enlatado” que nada acrescentavam a exercícios normalíssimos de licenciatura, sem qualquer tipo de reflexão teórica, sem questionar o que fosse, com erros gritantes, e que foram aprovadas com boa nota.

  3. Dário Cannatà diz:

    Eu imagino que esta proliferação de trabalhos académicos ainda não deu em nada exactamente por serem académicos.

    Talvez os frutos desta proliferação ainda não seja visível.

    Mas se de facto estes trabalhos são superficiais, isso poderia por em causa a capacidade crítica do futuro.

  4. Cada vez mais acho que, não havendo uma ordem no design, a única parede que pode definir a diferença entre um bom trabalho e um trabaho mau é a crítica incisiva. E não me refiro à crítica em género de ensaio, ou comunicado de imprensa (mais ou menos generalista) que essa (por muito mérito que tenha pelo muito que consegue acrescentar a uma comunidade de mil designers) não faz mais do que “tentar cozer um ovo com um isqueiro”. Muito menos apelo à reflexão académica.

    Refiro-me à crítica feroz. Àquela que humilhe o design mediano, seguidista e medroso, e que humilhe principalmente o cliente que paga por esse design para que não meta o pé na argola outra vez. Nos dias que correm, só a vergonha de quem lê a enfia a carapuça, pode controlar a multiplicação e proliferação do mau design. Chamem-lhe crítica que procura polémica, extravagante, ou outra coisa qualquer, “ça m’est égal”, tanto faz, whatever, são nomes e em nada comprometem a eficácia da frontalidade. Sem papas na língua e sem pedir desculpa. Como diz o Rudolfo nos intervalos entre as músicas: “p’o caralho!”

  5. Situr Anamur diz:

    há quem não queira ordem por ter medo, sendo que adicionando a crítica ao mix e muitas cabeças haveriam de rebolar pela montanha do status quo abaixo. Mas por outro lado, quem define o que é “mau design”? O gajo que faz o design dos sacos do lidl é tão bom designer quanto o gajo que faz os sacos da vuitton? Terei que tirar um curso em “Design & Alpinismo Social” ?
    É que por aí andam muitas bichezas que são arrivistas, alpinistas, oportunistas que de original e de útil pouco fazem (quer na crítica, quer nas restantes áreas).

  6. Qualquer pessoa que assuma a responsabilidade de ser designer, pode definir o que é bom ou mau design. Para alguns isso ficou claro na escola e vai ficando mais claro todos os dias. Para outros, nem por isso. Não encontrará ajuda neste departamento em nenhum curso de “alpinismo”.

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