The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Pentagram Marks

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Habituei-me a só escrever sobre livros que pude consultar com vagar – meus, porque os comprei, porque me foram oferecidos; ou emprestados, por amigos ou por bibliotecas. De algum modo, sinto que só posso avaliá-los se tiver passado por esse ritual de posse, mesmo que temporário. Apercebo-me que a minha crítica acaba por funcionar como uma critica de consumo – como um direito básico de reclamar objectos mal feitos ou de elogiar (gabando-me um bocadinho) os bons negócios que fiz.

Esta é, no entanto, uma ética que tem os seus pontos cegos. Por exemplo, encontrei na Fnac um livro que não comprei, mas que me irrita. Já me aconteceu comprar livros apenas por isso, por me irritarem, mas, neste caso, o preço – 32,18 euros, 28,96 para aderentes – bloqueou-me essa hipótese.

Não sei o que estava à espera, mas quando tirei Pentagram Marks: 400 Symbols and Logotypes da prateleira e o folheei, fiquei um pouco chocado por só encontrar páginas e páginas de logótipos reproduzidos a preto e branco, ordenados alfabeticamente, um por página, apoiados apenas por uma legenda datando-os e identificando o cliente para quem foram feitos.

Tentei perceber se a introdução adiantava mais alguma coisa: apenas um pequeno texto, admitindo num tom que me pareceu defensivo que aqueles logótipos seriam talvez melhor compreendidos no contexto do seu uso e não isolados numa página, mas que o livro seria sem dúvida útil aos designers.

Acredito que sim: lembro-me perfeitamente dos calhamaços da Graphis que ia folhear para a biblioteca da escola quando a inspiração falhava. Já vinham convenientemente arranjados por formatos – desdobráveis, logos, brochuras, posters – e identificados discretamente por autor e cliente. Tal como a Graphis, Pentagram Marks é um objecto perverso – celebra o design exposto, mas é um incentivo implícito ao seu roubo. A sua própria organização, à imagem de um catálogo, apela ao consumo irreflectido.

Para a Pentagram, como para os designers da Graphis, o roubo dos seus próprios trabalhos é vantajoso: a influência de um designer pode-se medir pela quantidade de imitadores que o seguem. No entanto, o livro é inútil para quem queira compreender como aqueles logótipos foram feitos, se são originais ou remodelações de outros, se ainda estão em uso – resumindo, é um livro que em termos de crítica só serve para ser criticado.

Consultando o site da Pentagram fiquei a saber que o livro da Fnac era uma versão em capa mole de uma edição limitada a 1000 exemplares bastante mais cara. Não é difícil imaginá-la a esgotar rapidamente – a Pentagram ainda é uma figura de culto dentro do design gráfico, uma grande empresa multinacional que, apesar da sua escala, ainda consegue conotar tanto um clube exclusivo de génios do design como uma instituição quase cultural sem que o paradoxo sobressaia demasiado. Os quatrocentos logótipos deste livro correspondem a outros tantos clientes invejáveis – no fundo, é um cartão de visita volumoso, um portfolio (de design e de clientes) apresentado como um exemplo ao mundo.

Nada disso seria um problema se o livro fosse mais do que uma colecção de logótipos. A Pentagram, mesmo mantendo este tom elegantemente satisfeito consigo mesmo, já fez melhor.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Publicações, Publicidade

13 Responses

  1. rawckee diz:

    A mim parece-me um catálogo até interessante de ter. Um daqueles livros que se abre em qualquer página e com o qual se regala a vista a título de ócio durante um pedaço. É obviamente masturbatório para a a pentagram mas e depois? 🙂

  2. para mim este livro não faz sentido. se se trata de um elogio ao trabalho que tem sido desenvolvido pela pentagram, então considero-o incompleto. fica a faltar algo que contextualize aqueles logos, qualquer coisa! também o folheei no outro dia na strand e foi uma desilusão. nunca na vida o compraria. não me ensina nada sobre as identidades criadas, nem sobre a pentagram e aquilo que a torna única.

    porque é que se publica tudo e mais alguma coisa?

  3. rui diz:

    Tenho uma opinião diferente. Talvez o objectivo dessa edição não seja ensinar design de logótipos e marcas, mas sim (e apenas isso) a exposição de um conjunto de logos, tal como acontece muitas vezes em livros e revistas de arte. Se somos capazes de comprar um livro de Escher que apenas apresenta a sua colecção de obras, página a página, porque não (enquanto designers gráficos) comprar um desses livros sem textos explicativos só com marcas? Eu ia criticar o facto de as marcas aparecerem só a preto, sendo que perdem algum do seu valor. Mas o objectivo deve ser este: expor uma pequena colecção de logos para serem admirados e contemplados. Se eu fosse um designer super conhecido já tinha andado por lá à procura de uma qualquer criação minha. 🙂 Portanto, acaba por resultar como uma tentativa (conseguida ou não) de apelar ao designer gráfico como uma área artística, tal como o são a pintura, a escultura e a arquitectura. Essa afirmação implícita do design gráfico como expressão artística pode ser benéfica para qualquer designer.

    • rui diz:

      Exigir que o livro em causa tivesse textos explicativos e que o seu objectivo fosse mais didáctico, só iria deitar abaixo o conceito que se pretende explorar com esse livro:

      o design gráfico como obra terminada.

      Tal como acontece na grande parte dos livros sobre arte.

      Exigir o contrário desse livro será o mesmo que afirmar que todos os designers se encontram em aprendizagem. O público alvo, neste caso, serão os designers profissionais, ou mesmo “veteranos”, cujas preocupações académicas foram há muito ultrapassadas.

      • “Exigir o contrário desse livro será o mesmo que afirmar que todos os designers se encontram em aprendizagem.”

        Sim, é precisamente isso que defendo, talvez com uma diferença: que todos os bons designers se encontram sempre em aprendizagem.

  4. maria nogueira diz:

    podemos analisar projectos de design nas paredes de uma exposição, e em livros também, não digo o contrário. Mas se a prática do design e as premissas a que vai de encontro tão largamente diferem das da arte pura e dura, então considero que uma exposição deste género não me acrescenta nada. ainda se os logotipos estivessem no seu habitat natural, em contexto, e não estampados, encostados a uma parede lado a lado todos com a mesma roupa. um logotipo não é uma pintura, ou pelo menos não é só uma pintura e ve-los assim é como ver um quadro que foi tapado por um tecido quase opaco. a meu ver, claro. alias de certa forma é a diferença entre ler posts no google reader ou no seu blog original. eu prefiro a segunda opção 🙂

  5. zécas diz:

    A comparação é entre ver o esboço final e a pintura. Ora, para se ver quadros no seu habitar orginal teríamos que deixar de lado o conceito de museu e ir vê-los nas mansões dos mecenas ou nos ateliers dos pintores. Da mesma forma é este livro, retratando a obra per se e não a obra viva e integrada numa vicência. Certo que existem obras bem feitas mas mal aplicadas, e vice-versa.
    Assim, este livro é um catálogo de borboletas e não as borboletas no prado, e há apreciadores para ambos.

  6. quando se fala de gosto realmente não há contra-argumento possível. há gostos para tudo! 🙂 mas entao porque publicar? daqui a um ano o livro está obsoleto, daqui a 15 anos ninguém o vai ler. temos de ter cuidado com o que trazemos para o mundo material, e pensar se é algo com o qual queremos ter de lidar mais tarde. sabem a quantidade de livros que se queimam por ano? eu nao sei, mas acho que nao deveria ser preciso queimar nenhum.

    • rui diz:

      Só para contra-argumentar 🙂
      Eu até gostava de saber de um livro que pudesse comprar só com marcas de há 15 anos atrás. jejeje
      Gosto de me inspirar em todo o tipo de design, mesmo o mais “retro” consegue resultados surpreendentes em suportes web e de impressão mais actuais. 😀

  7. zécas diz:

    e não se pode discutir o gosto, é tabu?

  8. rawckee diz:

    nao são só os designers que estão sempre em aprendizagem, está sempre toda a gente em aprendizagem de seja la o que for.

    e o gosto discute-se e nem tudo tem de ser de extraordinário e elevadíssimo gabarito académico-intelectual e pedagógico.

    ás vezes só queremos olhar para uma coisa preta em fundo branco.

  9. rui diz:

    “Sim, é precisamente isso que defendo, talvez com uma diferença: que todos os bons designers se encontram sempre em aprendizagem.”

    Também sou dessa opinião. Claro que estamos sempre em aprendizagem.

    A questão é se devemos comprar apenas livros de teor académico ou se podemos romper de vez em quando com essa barreira académica e comprar um livro com logótipos só para os vermos, um bocado como quem compra um livro da Taschen só com fotografias artísticas ou só com pinturas de autores conhecidos.

    Penso que romper com essa barreira académica é também um acto de valorização da marca enquanto obra artística propriamente dita. Neste caso, a marca deixa de ser apenas o resultado de uma técnica de construção, para ser uma obra terminada. Deixamos de pensar nos propósitos conceptuais e construtivos, para apenas admirarmos a obra. Assiste-se, desta forma, a um reconhecimento do designer enquanto artista.

    Decerto que compraria livros mais “académicos”. Este, só não compro porque não estou em boa fase económica. Mas preferia que os logos estivessem impressos com as suas cores originais, dado que da forma tal como estão impressos seria o mesmo que comprar um livro com obras de Van Gogh a preto e branco… 😐

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