The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Imprensa Tradicional?

Durante muitos anos resisti a mandar vir livros pela net: porque gostava de os sentir na mão antes de os comprar, porque gostava do ritual de passar pelas livrarias a ver o que tinha chegado de novo – mas sobretudo  por causa da minha objecção de consciência ao uso do cartão de crédito. Como alternativa, tentei o MBnet, um serviço que gera números de cartão de crédito virtuais – que no meu caso eram duplamente virtuais porque nunca funcionavam. Fui ao banco, ninguém me conseguia resolver o problema e acabei por desistir. Continuei a comprar livros à antiga.

Um dia, muito tempo depois, num acesso de tédio e frustração tentei outra vez o MBnet. Para minha surpresa, funcionou e desde então tenho-me dedicado a encomendar livros pela net.

O processo é simples e prático: fazemos o pedido e uns dias depois está em nossa casa. Descobri que, embora na maioria dos casos se conheça a capa, o aspecto do livro é sempre uma surpresa, sobretudo se são livros de design. O pacote onde veio The Liberated Page, de Herbert Spencer, era mais pequeno do que eu estava à espera, mas excedeu as minhas expectativas ao nível dos conteúdos, páginas e páginas de experiências tipográficas vintage. 8vo: On The Outside era literalmente in octavo, mas numa das versões mais pequenas deste formato (a capa parecia maior online). Pelo contrário, o álbum de banda desenhada Wally Gropius: The Umpteen Millionaire, de Tim Hensley foi uma boa e grande surpresa, um pastiche paranóico e muito bem feito dos álbuns do Spirou da Dupuis.

Uma das minhas melhores encomendas foi o número 33 da revista McSweeney’s, sob a forma do número único de um jornal de fim de semana, o San Francisco Panorama, com suplementos de actualidades, desporto, artes, cinema, música, tudo dentro do saco de plástico da praxe – uma espécie de versão hipster do Expresso, com bom design, bons conteúdos e colaboradores de sonho (Daniel Clowes, Art Spiegelman só para começar). Por vezes, poucas, o design fraquejava, sobretudo nas revistas agrafadas onde a mancha de texto não era muito bem proporcionada, ficando a nadar na página – mas, mesmo assim, bem acima da média.

O editor da McSweeney’s, Dave Eggers sempre defendeu as virtudes e as possibilidades da imprensa tradicional na era da internet – indo ao ponto de se ter oferecido para responder pessoalmente com um mail de encorajamento a quem lhe escrever manifestando receios que a imprensa está morta. No mail, um dos argumentos de esperança é precisamente o San Francisco Panorama, mas toda a produção de Eggers poderia ser apontada como um sinal da vitalidade da imprensa tradicional: a própria McSweeney’s, que de número em número assume sempre um formato diferente (livro, revista, caixa, conjunto de livros presos com ímanes, etc.); a Believer, uma revista tão constante como a McSweeney’s é irregular – sempre com a mesma composição, só mudando as cores e os conteúdos.

Sublinhando a sua suave resistência ao mundo electrónico e às cibercoisas, toda esta panóplia de livros, revistas e caixas parece ter sido produzida noutra época, um fin de siécle de fantasia, com design de Chris Ware e textos de Jonathan Safran Foer. Mas a verdade é que este mundo todo, apesar do seu aspecto conservador, apesar de se estabelecer por oposição à net, sobrevive graças a ela. Numa livraria generalista, estas encadernações, capas e jornais não sobreviveriam ao manuseamento prolongado. Compradas na net, chegam-nos a casa em segurança, novas dentro das suas embalagens de plástico seladas a vácuo, protegidas por cartão canelado e entregues por correio-expresso.

O futuro aparece quase sempre com o aspecto do passado – com o seu design, enfim. Neste caso, um sistema de distribuição novo dedica-se a entregar à nossa porta edições frágeis, raras e antigas (a internet como loja de curiosidades) mas pergunto-me que objectos novos e que design novo já andarão por aí?

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Publicações

5 Responses

  1. Apenas umas notas pouco reflectidas:

    No último parágrafo é que se questiona o que me parece ser uma problemática realmente nova, com a relação entre os novos suportes e o design (dos conteúdos).
    É curioso como poucos parecem ter em atenção que o facto de o suporte ser novo (assim como alguma da sua fruição) irá afectar os próprios conteúdos.
    A forma de comunicar influencia aquilo que se comunica, sendo a “realidade aumentada” um bom exemplo, onde a forma de vivermos as cidades será muito diferente daqui para a frente -não sei se melhor- mas diferente de certeza)

    É ainda uma questão que me fez lembrar algumas das primeiras máquinas industriais (infelizmente não encontro estas imagens) cuja aparência tentava esconder a brutalidade (mas também a beleza, de que os modernismos depois se apropriaram) com uma “pele” muito século XVIII…

    E as compras… a minha wishlist na bookdepository é extensa (a ideia de não ter de fazer contas a portes, com a entrega gratuita é imbatível). Convém confrontar os preços entre a versão .com e a versão .co.uk do mesmo site que são diferentes!.

  2. André Sousa diz:

    Sem dúvida, no meu caso, uso a Fnac (bem como outras livrarias/bibliotecas) como meio para chegar ao fim: folheio lá os livros para então decidir-me a comprá-los online, normalmente via BookDepository.

    Carlos Soares, ainda sobre a BookDepository, os portes não são gratuitos, variam consoante o seu IP e meticulosamente, se estiver no Cais do Sodré vê um preço e no Marquês do Pombal vê outro. Ainda assim sai muito em conta.

    • @andré. Sim, quando dizia gratuito, queria dizer que já está incluído no preço e não é necessário (como na amazon) juntar portes e taxas adicionais. Quanto às variações geográficas não fazia ideia… só verifiquei as dos domínios diferentes. vou testar o eixo carnaxide-saldanha!

      Mas, claro, esta questão pratica não acrescenta muito à discussão de fundo, sorry =)

  3. Ana Pais diz:

    olá professor!

    eu comecei há um ano com isso do mbnet e compras de livros online e prefiro porque a sensaçao de ver aquele livro embrulhado em cartão castanho cheio de autocolantes e abrir e ver como é tocar nele, e ler é algo mesmo que nunca senti por exemplo a ver os livros na fnac e a comprar. lol como é óbvio.

    eu uso muito o thebookdepository.com não se paga nada de portes de envio, são muito rápidos e eficientes. Nunca tive problemas 🙂

    Qual é que usa para comprar livros sobre design?

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