The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Suspense

Àquela hora da madrugada, cerca das quatro e meia, quando o organismo está mais em baixo e são comuns as insónias de quem tende para a depressão crónica, não duvido que muitos artistas e designers acordem sobressaltados e de estômago tenso. Não por causa de algum tipo de obsessão estética – pesadelos à David Lynch ou paisagens à Hieronimus Bosch – mas algo mais simples, mais prosaico, mas também mais assustador: a Segurança Social[1].

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Cravanço

(via)

Nos velhos tempos do escudo, alguns supermercados tinham a politica de ficar a dever troco miúdo. Era comum chegar-se à caixa e a senhora perguntar se “não podia ficar a dever” um ou dois escudos. Tendo em conta que antes do euro era legal fazer preços impossíveis de traduzir em moeda real (12.342, por exemplo), não era difícil dar de caras com um arredondamento que, na maioria das vezes, revertia a favor do super, e que podia ser duplicado ou triplicado impondo a dívida de um ou dois escudos ao cliente. Naturalmente, se disséssemos que não, estaríamos a atrasar a fila, dando problemas a toda a gente, tudo por causa de um mísero escudo – era a mesma coisa que admitir publicamente a nossa forretice. Finalmente, tendo em conta que não havia registo da dívida, não havia grande hipótese de recuperar o dinheiro “emprestado”. Como isso acontecia em diferentes supers e com várias funcionárias fui assumindo que esta suave chantagem emocional se tratava de uma política da casa que, diariamente, dava um bom lucro sem qualquer tipo de gasto.

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Ritmo, etc.

(via)

Durante os últimos anos tenho mantido um ritmo semanal no blogue. Demoro entre duas e três horas a escrever o texto e depois passo o resto da semana a pensar no da semana seguinte. É uma boa disciplina, a que se junta uma ou duas horas diárias (sete dias por semana) de escrita para a tese de doutoramento, que agora está em fase de revisões, com o último capítulo a fechar até Agosto.

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Designers que fazem design sobre designers

Embora o trabalho de design e promoção em torno da exposição We Are Ready for our Close-Up[1] seja a todos os níveis bastante melhor que o habitual, ainda assim tenho ouvido algumas críticas, em particular ao destaque dado às fotografias dos participantes (interpretado por algumas pessoas como mero exibicionismo) e aos recursos que se ocupou a reproduzi-las, tanto nos posters como nas páginas de abertura do catálogo (recursos esses que poderiam ser usados, por exemplo, numa reprodução mais apurada dos trabalhos expostos).

Pessoalmente, prefiro perceber qual é a função que estes retratos cumprem dentro do contexto particular desta exposição do que atribuí-los levianamente a um desejo de auto-promoção ou de vaidade, resvalando deste modo para a posição, infelizmente bastante comum, de criticar uma exposição apenas porque expõe, de desvalorizar a promoção publicitária porque promove, de rejeitar um auto-retrato porque é egocêntrico ou um western porque se passa no Velho Oeste.

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Os Artistas-Mercadores

John Evelyn em 1641 (via)

Há tantas maneiras de lembrar como o mercado da arte é apenas uma extensão do mercado económico que se pode até escolher as mais sórdidas, as mais científicas ou as mais bonitas conforme a ocasião. Nesta última categoria, por exemplo, ficou-me na cabeça uma citação que encontrei há uns anos num ensaio de E. H. Gombrich sobre os usos decorativos da pintura. Tirada dos diários de John Evelyn, escritor e jardineiro de renome, descreve a sua chegada a Roterdão em 13 de Agosto de 1641:

“Chegamos tarde a Roterdão, onde estava a decorrer a feira ou mercado anual, tão guarnecida de pinturas (especialmente paisagens[ …]) que fiquei maravilhado. Algumas delas comprei e enviei para Inglaterra. A razão para esta quantidade de imagens tão baratas deriva da falta de terra onde aplicar o capital, tanto que é habitual um vulgar agricultor gastar duas ou três mil libras nesta mercadoria. As suas casas estão cheias delas, e vendem-nas nas feiras com muito lucro.”

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Mulheres, Crianças e Mercado Primeiro

Depois de anos no ensino superior, já me devia ter habituado a ver adultos a peguilharem interminavelmente pelo pouco dinheiro que vem de cima enquanto vão tentando viver acima do orçamento, tal como nos bons velhos tempos. Agora, com a ameaça de cortes nos apoios à cultura, é o salve-se quem puder. Artistas, comissários, galeristas, críticos, gente habitualmente mais cautelosa e calada do que uma cortesã no Japão feudal começou a reclamar timidamente – mas em público (uma novidade) – pelos seus direitos. É como um naufrágio, onde toda a gente tem uma razão de peso para entrar nos salva-vidas que, como manda a tradição, não são suficientes.

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Más notícias

Nos tempos que correm, só o arranjo gráfico parece distinguir o Público do Inimigo Público. A culpa não é certamente dos jornalistas, que continuam a tentar descrever diligentemente aquilo que ainda se vai chamando, à falta de melhor, “factos” e “acontecimentos”.

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Muito, talvez demais

Saindo do sol e calor da Rua do Alecrim para a relativa penumbra do átrio do Palácio Quintela, a primeira sala da exposição Revolution 99-09, parece que entramos numa daquelas mercearias antigas de Lisboa onde, pela profusão de cores, caixas e produtos, fica a sensação que o que está a ser vendido é mais a ideia de abundância em si mesma do que qualquer produto em particular: somos rodeados de centenas de objectos de design, posters, desdobráveis, brochuras, livros, acotovelados pelas paredes, emoldurados ou não, encolhidos à justa em vitrinas, onde mesmo a discreta legendagem mal consegue dar conta do recado, obrigando a algum esforço para perceber quem fez o quê e como.

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O Artista Consumista

Afinal, a ministra da Cultura voltou atrás e anunciou que não haveria cortes, pelo menos este ano. Conseguiu assim, sem dificuldades de maior, hostilizar praticamente toda a gente: a esquerda criticando as voltas e as reviravoltas, a precariedade dos trabalhadores culturais, a arrogância da ministra, o sacrifício dos artistas independentes em favor das grandes instituições; a direita lamentando que Canavilhas tenha voltado atrás, continuando a apoiar esses parasitas, madraços, que vivem à custa do dinheiro dos outros – o costume.

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DFW

De volta de férias onde acabei – como de costume – por ler um livro comprado em viagem: A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again, de David Foster Wallace, em particular um ensaio de cerca de sessenta páginas, com notas de rodapé exaustivas, entusiasmadas e abundantes, sobre a rodagem de Lost Highway, mas sobretudo sobre Los Angeles e sobre a obra de David Lynch, que Wallace vê pela primeira vez a urinar para um arbusto – o realizador é famoso por beber muito café – e do qual nunca se aproximou a menos de dois metros (apesar da distância, que o escritor explicitamente procura manter, o ensaio consegue, ao mesmo tempo, descrever o ambiente das filmagens de forma quase fotográfica, enquanto vai produzindo uma das melhores críticas que já li sobre os filmes de Lynch – apesar de eu ter sido um consumidor fanático, vendo cada um dos filmes várias vezes, Wallace consegue extrair significados atrás de significados que nunca me ocorreriam, tanto dos filmes como das reacções que vão gerando, desmistificando casualmente muito do que se diz sobre o realizador (enquanto lia, não consegui deixar de pensar que a brutalidade honesta e casual de DFW faria maravilhas pela crítica de design, embora não conseguisse – também – deixar de pensar que seria muito difícil aplicar este grau de intensidade a esta área)).[1]


[1] Ufa: andava a ver se conseguia fazer um post num só parágrafo, parodiando o estilo de DFW. Com o remate final desta nota de rodapé, missão cumprida.

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Leituras

Mais uma vez, de férias e em viagem. Como de costume, com algumas coisas para ler na mochila: Netherland de Joseph O’Neill, ficção poderosa para reler; The Murmuring of the Artistic Multitude, de Pascal Gielen, sobre o modo como a arte alternativa é apenas mais um modo de produção Pós-Fordista. Levo também – e isto é uma novidade absoluta – trabalhos de alunos para ler. Não porque esteja atrasado a corrigi-los, mas simplesmente porque valem a pena ler e tenho vontade de os mostrar aos amigos que vou encontrando (não, não é narcisismo; não foram feitos para a minha cadeira, nem foram orientados por mim). Trouxe o catálogo da We Are Ready For Our Close Up e a maquete de uma futura publicação sobre a Nova Emoção, um movimento de design do Porto sobre o qual já escrevi algumas vezes (Marrucho, Bolos Quentes e companhia), embora nunca tenha usado esse nome. Uma das minhas frustrações enquanto professor era não ter alunos que se dedicassem à critica ou pelo menos à escrita. Neste momento, considero o problema resolvido: há cada vez mais alunos com projectos de escrita e edição que se prolongam para além dos limites da escola.

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O passado não perdoa

via

Enquanto fazia a minha ronda diária pelos blogs e tumblrs dei com a imagem acima, um pastiche evidente dos cartazes turísticos ingleses de entre as duas guerras. Não me pareceu um objecto de época, mas algo subtilmente actual, talvez por causa da abrasão entre a violência implícita do seu título – “Nacionalismo” – e a bucólica imagem de tons simplificados.

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Sumo de Limão

via

A meio dos anos noventa, na cidade americana de Pittsburgh, um homem de cara descoberta entrou em dois bancos, um a seguir ao outro, de arma na mão. Enquanto os assaltos decorriam, ia lançando olhares despreocupados e divertidos às câmaras de vigilância. Através dessas filmagens, mostradas na televisão local, foi possível identificá-lo rapidamente. Foi preso na sua própria casa e, enquanto o algemavam, disse que não podia ser, porque tinha posto o sumo de limão.

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Os Anos da Peste

via

Com a crise económica, as histórias de cortes na cultura e dos danos e protestos que vão desencadeando vão-se multiplicando. Cada vez que se abre o jornal mais alguém perdeu o subsídio, a verba ou o cargo. Desta vez, e segundo um artigo no Público da autoria de João Fernandes, o director do museu, a vítima foi Serralves, cuja verba para aquisições foi cortada totalmente pelo Estado, confiando talvez que o lado privado da parceria que sustenta a instituição vai resolver o problema. No entanto, a crise também atinge os privados e desde há anos que Serralves apertava o cinto – dispensando serviços, fechando mais cedo, diminuindo a quantidade e qualidade das exposições.

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Patetas Alegres

via Them Thangs

Há situações em que até dizer mal de alguém é um favor que lhes estamos a fazer. É o caso daquelas “personalidades” – leia-se “parasitas” – do design que promovem a boa disposição (e a si mesmos) abafando a crítica: alguns declaram com a gravitas de um prémio Nobel da Paz que nunca diriam mal de um colega, dando a entender que seria falta de chá, talvez até concorrência desleal fazê-lo (mesmo se esse colega faz mau design, se esquece de pagar aos estagiários ou ganha regularmente concursos sem que se perceba como). Outros sentenciam que criticar é afirmar-se dizendo mal dos outros (muito diferente de afirmar-se silenciando as opiniões alheias, o que, pelos vistos, já é aceitável).

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Filed under: Crítica, Cultura, Design

Mal Empregado

Ontem fui à inauguração de We Are Ready for Our Close Up, uma exposição de finalistas organizada por um grupo de alunos das Belas Artes do Porto num dos locais que Serralves costuma ocupar no centro da cidade, uma emissora de rádio mais ou menos desocupada e decrépita na rua Cândido dos Reis, com estúdios de som, bares abandonados, alcatifas manchadas de humidade e aparelhos de ar condicionado estragados. Neste caso, e testemunhando o zelo dos alunos, todo o edifício parecia mais asseado – e sobretudo mais elegante – do que quando Serralves o ocupou.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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