The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Mal Empregado

Ontem fui à inauguração de We Are Ready for Our Close Up, uma exposição de finalistas organizada por um grupo de alunos das Belas Artes do Porto num dos locais que Serralves costuma ocupar no centro da cidade, uma emissora de rádio mais ou menos desocupada e decrépita na rua Cândido dos Reis, com estúdios de som, bares abandonados, alcatifas manchadas de humidade e aparelhos de ar condicionado estragados. Neste caso, e testemunhando o zelo dos alunos, todo o edifício parecia mais asseado – e sobretudo mais elegante – do que quando Serralves o ocupou.

Estantes envidraçadas vintage serviam de montra ao catálogo, bem produzido e bem paginado, com tantos ou mais textos de apresentação do que trabalhos, distribuido em sacos de pano com o nome da exposição serigrafado. Muitas exposições de design acabam por falhar pelo design e pela montagem; esta (que não é só uma exposição de design) não é certamente uma delas. Algumas das ideias de apresentação são lugares-comuns, sem dúvida – os cartões de visita com o contacto dos artistas servindo de legenda às obras, por exemplo –, mas são aplicadas com brio e elegância, o que faz toda a diferença.

Juntamente com os designers Martino e Jaña e o meu colega das Belas Artes, Miguel Carvalhais, fiz parte do júri que seleccionou os trabalhos de design apresentados. Foi uma tarefa levemente frustrante; não sendo uma má selecção, conheço trabalho melhor de quase todos os participantes. Mas este é o problema das exposições de finalistas elaboradas com vagar: os melhores trabalhos só ficam prontos quando a exposição já está quase montada.

Na altura em que me convidaram, critiquei o facto de não serem os organizadores da exposição a fazerem eles próprios a selecção, mas entendo que não quisessem a responsabilidade de excluir o trabalho de colegas (e um júri externo sempre garantia um pouco mais de alcance ao evento). Porém, um dos recursos que mais faz falta ao design português é a capacidade de decidir criticamente e em público. Não era má ideia que os recém-licenciados começassem a fazê-lo desde cedo.

Tanto nas artes como no design português, o comissariado e o design de exposições têm sido tratados como tarefas separadas, levando a boas ideias de exposição mal concretizadas ou a exposições bem executadas mas com pouco assunto. Seria interessante que se começasse a tentar resolver este problema de raiz, formando designers com mais experiência directa de comissariado ou comissários que percebam alguma coisa de design. Dito de outro modo: pessoas que consigam decidir a forma e o conteúdo de uma exposição ou publicação. No entanto, este género de formação é vista como um luxo desnecessário por muita gente, para quem um curso de design se deveria limitar a ensinar “os Adobes”, porque no mercado de trabalho é isso que interessa.

Finalmente, a minha maior queixa em relação a esta exposição, que se torna ainda mais dolorosa pela sua organização e montagem eficiente, é ter como premissa a empregabilidade. Esta é uma das palavras-chave de Bolonha, e uma das mais estúpidas. Leva as pessoas a pensarem em termos de se prepararem para um “emprego como deve ser”, daqueles onde se trabalha das nove às sete a recibos verdes; leva a que, em plena crise, um grupo de alunos tenha conseguido reunir dinheiro suficiente para fazer uma divulgação e um catálogo que não envergonhariam uma instituição profissional, tudo com o objectivo de promoverem a empregabilidade de colegas numa época difícil, sem se darem conta que o próprio acto de terem conseguido montar esta exposição já é em si um emprego – e bastante invejável por sinal.

Anúncios

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ensino, Exposições

8 Responses

  1. Fiquei a pensar no peso do termo “empregabilidade” desde que li este post há uns dias. Como não tive a oportunidade de ver a exposição (apenas o seu site) ou falar com os alunos, professores e outros nela envolvidos, interrogo-me se essa premissa (a de encontrar um emprego “das 9 às 5”) foi algo que tu “sentiste no ar”, ou se foi de facto um desejo expresso pelos recém-graduados. No texto de apresentação da exposição apenas encontrei “Este projecto ambicionou ser, desde cedo, um espaço de projecção da persona artística dos alunos, de forma a propulsionar a sua passagem da Escola para a Cidade e para o seu sector cultural.”, que cola esta iniciativa mais ao mundo artístico (tenho as minhas dúvidas em relação a esta associação…) e às “Grands Mots” da escola e da cidade do que propriamente ao mundo profissional do design com letra minúscula.

    Até esta noite tenho pensado em como verbalizar uma resposta a este pesado termo. Hoje encontrei inspiração para o fazer, no último parágrafo da coluna do Justin McGuirk no Guardian: http://www.guardian.co.uk/artanddesign/2010/jul/13/design-rca-graduation-show. Ele fala de designers de produto “at large”, mas o que diz aplica-se também a esta exposição.

    Fico muito satisfeito em saber do profissionalismo desta exposição e dos seus organizadores. Fazem falta em Portugal mais “diploma shows” como este, e aos estudantes de design mais ambição, mais vontade de se mostrar aos outros, ao público, à imprensa, ao mundo (em publicações, sites e blogs “de referência” internacional, por exemplo). E também, obviamente, a futuros empregadores. Mas aqui gostaria de desafiar o teu termo “empregabilidade”. Serão os futuros empregadores destes novos profissionais não são necessariamente pessoas, empresas ou instituições com quem elas/eles irão a trabalhar para, mas sim com? E não só em Portugal, mas em todo o mundo? Ou seja, exposições como esta servem não promover a “empregabilidade” de designers num país com recursos (humanos e outros) limitados, mas sim o empreendorismo de jovens profissionais portugueses e expô-los à escala global. Entre um termo e o outro há toda uma mudança de paradigma que é preciso promover nas escolas, mas também junto de instituições dedicadas à promoção do design em Portugal—as quais muitas vezes têm dificuldade em saber “o que sai” todos os anos das faculdades e escolas do país. Talvez por não fazer o seu trabalho como deveriam, mas sem dúvida porque nem sempre as escolas lhes facilitam a vida. No ano em que terminei a minha licenciatura em design de comunicação na FBAUL, por exemplo, não houve qualquer exposição de finalistas de design; tal nunca foi sequer encorajado pelos meus professores ou pela Faculdade…

    Sei que este não é o único exemplo recente de uma exposição de finalistas de cursos de design em Portugal. Mas pelo que dizes neste post, acredito que esteja entre as melhores. Espero também que os seus organizadores e participantes a consigam trazer a Lisboa e, se possível, a outras cidades. E que consigam espalhar a sua palavra e mostrar os resultados do seu estudo junto de outros alunos, do público, da imprensa, do mundo e de futuros empregadores. Acredito que isso fará com que, depois de puder ver os projectos nela expostos, mais gente não queira oferecer empregos a estes ex-alunos, mas antes dar-lhe trabalho.

    • O termo não está muito presente no texto de apresentação, mas foi bastante usado desde o primeiro momento, quando os alunos vieram falar comigo pela primeira vez. Também apareceu com bastante destaque nos debates que acompanharam a exposição – o primeiro chamou-se “Empregabilidade no Mercado Criativo”.

      A exposição é antes de mais uma excelente exposição de design, com todos os pormenores no sítio e que demonstra que há pessoas interessadas em pensar, expor e escrever sobre design, e com capacidade para reunir os apoios necessários para o fazer. A exposição é sobretudo uma mostra de quem a organizou.

  2. uma questão que ultimamente não me sai da cabeça: porque é que a relação entre futuros designers e empregadores só começa no final do curso? porque é que no norte da europa é comum os alunos estagiarem enquanto estão a estudar e em portugal acabamos o curso e somos assim como que atirados às feras, essa coisa do mercado de trabalho, do qual apenas temos uma ideia difusa? não faz sentido.

    sei que este comentário não vem na linha de raciocínio dos que o antecedem. surge sim como expressão de uma indignação crescente que não quer ficar calada. estou numa cidade nova, num contexto novo e as pessoas que conheço, com histórias também elas novas para mim, fazem-me questionar o que antes era aceite, ou mais aceite.
    mas não sei se é o ensino, e os cursos de design, que são mal projectados, ou se é uma mentalidade do país que é francamente arcaica em certos assuntos. os portuguess são dos últimos na europa a sair de casa dos pais porque não se mexem, não se fazem à vida e culpam a crise por todas as dificuldades que se lhes deparam. dizem mal dizem mal mas não fazem nada para mudar o que está mal. para não cair no erro de fazer o mesmo, vou ficar por aqui e concluir com uma sugestão: estágios em ateliers de design como parte do programa curricular, como se de disciplinas opcionais se tratassem, com avaliação, com direito a créditos especiais. algo que acabe com o medo do bicho que é o mercado de trabalho, quando ainda não é altura de ter medo, quando é altura de experimentar e de falhar.

  3. É um comentário pertinente. Nas Belas Artes do Porto, assim como em outras escolas, tem-se tentado fazer um programa de estágios integrados no curso. Pessoalmente, acredito que, a haver um estágio, deverá estar integrado no curso por uma série de razões:

    – A qualidade do estágio pode ser avaliada pela escola.

    – O aluno não é largado sozinho no estágio, mas pode trocar impressões com colegas e professores.

    – Com um estágio feito durante o curso, o aluno pode defender-se de pseudo-estágios não remunerados, dizendo que já tem um estágio no currículo.

    Mas a integração dos estágios nos cursos também tem os seus problemas:

    – Com a diminuição de anos de curso decorrente de Bolonha não é possível dedicar um ano ou mesmo um semestre apenas ao estágio, e os alunos têm dificuldades em lidar com as cadeiras e com o estágio ao mesmo tempo.

    – Muitos alunos pura e simplesmente preferem não estagiar e fazer projectos.

    – Mesmo dentro da escola, o estágio tende a ser bastante traumático e alguns alunos chegam a abandonar a área do design depois de confrontados com a realidade profissional.

  4. muito bem visto, e parece-me que assim sendo, e a meu ver, pesam mais as vantagens. nos cursos de enfermagem, por exemplo, também há estágios curriculares e isso sim pode ser traumatizante! ui nem quero imaginar…
    mas enfim, acho que se a escola servir de suporte e apoio, não há razão para traumas. e para os que não quere, se calhar pode haver outro tipo de coisas que possam fazer, que basicamente contribuam também para o envolvimento do aluno com o mercado e sua desmistificação. Um designer que trabalha comigo, alemão, teve um professor fantástico que levou a turma toda a londres. foram a todos os museus, visitaram ateliers… estamos a caminhar nessa direcção ou estamos só enroladinhos a um canto com medo do bicho papão que não nos deixa abrir os horizontes? sabemos o que queremos conseguir ao menos? aspiramos a algo melhor? ou não?

  5. “A exposição é sobretudo uma mostra de quem a organizou.”— cá está a verdadeira empregabilidade.

    Bem expostas as condições para um bom estágio (e também os argumentos contra), Mário. E bem escolhida a analogia entre design e enfermagem, Maria. De facto, falar de “trauma de estágio” e de choque com “realidade profissional” dá vontade de rir… Ou será que os enfermeiros que escolhem a profissão depois de ver a Anatomia de Grey também têm semelhante choque?

  6. […] entendidas à primeira vista como defeitos, que mais interessam. [1] Já falei dela aqui. Também se pode consultar um texto de José Bártolo sobre ela […]

  7. […] fui falando com os alunos que organizaram a exposição We Are Ready for Our Close Up reparei num estranho paradoxo da vida pública portuguesa. O evento teve apoios, mecenas e […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: