The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Patetas Alegres

via Them Thangs

Há situações em que até dizer mal de alguém é um favor que lhes estamos a fazer. É o caso daquelas “personalidades” – leia-se “parasitas” – do design que promovem a boa disposição (e a si mesmos) abafando a crítica: alguns declaram com a gravitas de um prémio Nobel da Paz que nunca diriam mal de um colega, dando a entender que seria falta de chá, talvez até concorrência desleal fazê-lo (mesmo se esse colega faz mau design, se esquece de pagar aos estagiários ou ganha regularmente concursos sem que se perceba como). Outros sentenciam que criticar é afirmar-se dizendo mal dos outros (muito diferente de afirmar-se silenciando as opiniões alheias, o que, pelos vistos, já é aceitável).

Responder a este tipo de afirmações seria tempo perdido, se não houvessem pessoas que as dizem em público, se algumas delas não dessem aulas, onde propagam estas tretas em voz alta aos seus alunos, que até podem acreditar que são um modo de argumentação válido. Apenas por isso, vale a pena dedicar-lhes um niquinho de tempo, lembrando o óbvio: estes apelos à boa disposição não são boa argumentação; antes pelo contrário, são exemplos perfeitos da falácia do Apelo às Consequências, que desvaloriza a argumentação do interlocutor, não porque seja falsa, mas porque piora o ambiente – como todas as falácias, é apenas uma maneira mais ou menos educada de mandar calar o parceiro quando não se tem argumentos para lhe responder. No fundo trata-se apenas de pôr a música mais alto para abafar as queixas.

No caso dos palermas que acham que o objectivo do crítico é afirmar-se dizendo mal dos outros, a falácia é distinta: desvaloriza-se uma opinião não porque seja falsa, mas por causa dos motivos que levam alguém a tê-la: “só dizes isso porque tens inveja” é um exemplo clássico. Mais uma vez: as razões que levam alguém a dizer qualquer coisa não afectam em nada a validade daquilo que diz. Ou seja: denunciar uma mentira por altruísmo ou por inveja é indiferente – os motivos do denunciante não atenuam aquilo que denuncia.

Este género de falácias são perigosas porque, disfarçando-se de apelos à harmonia e às boas intenções, limitam ou mesmo silenciam opiniões alheias. Em último caso, dão a entender que não há outro motivo para discutir que não a má disposição ou vontade de armar confusão. Quando são levadas a sério, têm como consequência a diminuição da participação democrática, substituindo debates por trocas de palmadinhas nas costas, abreviando reuniões porque discutindo não se chega a lado nenhum, etc.

Filed under: Crítica, Cultura, Design

27 Responses

  1. Ana Pais diz:

    e depois há aqueles que falam mal de professores em quizzes.

    esses são do piorio segundo ouvi dizer.

    😉

  2. Atrevo a dizer-me que não raro a promoção de aldrabices em aulas tende a correr mal: em primeiro lugar, a recorrência a esse tipo de “tretas” acaba, a longo prazo, por se evidenciar em especial através do hábito para a contradição (“mais depressa se apanha a um mentiroso do que a um coxo”); em segundo, existem várias formas dos alunos sentirem o carácter de um professor, isto porque – a menos que esteja muito iludido – não somos parvos de todo, e quando sentimos as tretas de um professor numa determinada área pedagógica (conhecimento científico limitado, avaliação contraditória, parcialismos, etc), geralmente começamos a criar “bullshit antibodies”. São uma boa forma de defesa e prevenção.

    E isto tudo vem de um aluno para outros potenciais alunos ou ex-alunos.

  3. Para os leitores que não conhecem o(s) caso(s) específico(s) a que te referes (e eu, neste momento do aeroporto de Denver, estou mesmo longe), será que podes dar algum contexto (nomes, incidentes, etc) a este post? Ou este texto é apenas mais uma lamentação em abstracto? Sinto que aqui está o começo de uma polémica, e de uma possível defesa (baseada em epsiódios ou exemplos concretos) do papel do crítico perante a sociedade, a instituição a que pertence ou a classe a que se dedica. Se está mesmo, começa-a, sê polémico!!! Se não, “passa por cima”, parte para outra ou vai apanhar sol!

    • A primeira frase do texto é: “Há situações em que até dizer mal de alguém é um favor que lhes estamos a fazer.” Deveria ser um bom indício que acho uma perda de tempo nomear quem quer que seja dessa classe de tristes cuja única pretensão ao discurso público é atormentarem com estes “apelos à boa disposição” trinta ou quarenta alunos por ano nas salas de aula de uma universidade. Escrever o nome desse tipo de gente aqui ou onde quer que seja é mais publicidade do que merecem ou já alguma vez tiveram.

      O objectivo deste texto – para que fique soletrado – é dar ferramentas de argumentação aos infelizes que são obrigados a ouvir estas baboseiras regularmente e não sabem como lhes responder.

  4. O pior é quando alguém que fez mau design quase insulta o nosso (por vezes bem melhor) só para que o seu trabalho se possa destacar mais em frente aos outros colegas. É quando nos dizem, por exemplo: “demoraste tanto tempo só para fazer essa porcaria? Olha eu fiz isto em três tempos e está muito melhor do que isso!” E depois olhamos para o trabalho que ele nos mostra é um completo desastre para o tipo de cliente a que se destina.

    É um caso clássico no dia-a-dia profissional de um designer.

  5. Entendido! Mas fico curioso para saber quem são esses patetas alegres…

  6. carlos pontes diz:

    vamos então perceber.
    há alguém que sempre que fala aqui é para dizer a meio mundo que anda em viagem, e a outro meio mundo… bom, que anda em viagem. disfarçando tal orgulho e pretensiosismo com uns humildes parêntesis.
    Este é claramente um pateta alegre!
    há também quem escreva aqui, umas vezes por escrever, outras para se mostrar. mas com este texto mostra uma faceta que ainda não se tinha visto. hoje, este é um pateta irado.

    • Pensei duas vezes antes de aprovar o comentário acima, mas aproveito a oportunidade e deixo-o aqui pendurado como um aviso: mais outro bom exemplo do tipo de argumentação de que me queixo no texto (apelo a motivos e não a razões – no caso do orgulho e pretensiosismo –, comentário da forma ou da emoção como um argumento é apresentado e não do seu conteúdo – no caso da referência ao pateta irado), a que se junta ainda o insulto gratuito só para elevar a discussão.

  7. carlos pontes diz:

    então vamos lá ver:

    – os insultos começam com o texto. chamar de patetas algumas pessoas que sabe quem são mas não as quer referir, não diminuem em nada o facto de as insultar.

    – se condena os insultos e é coerente consigo mesmo, tem bom remédio: deixa de escrever.

    – andam os designers e oc críticos do design há muito tempo a dedicarem a sua discussão sobre forma/conteúdo, mas é expectável que aqui só se discuta o conteúdo.

    – se não lhe agrada discutir a forma, também tem bom remédio: é deixar de falar de design.

    queira publicar ou não o comentário e fica na mesma como aviso: há gente no país que não se resigna a qualquer texto e que queira escrever o que bem lhe apetecer

    • Três coisas:

      -Quem começou os insultos de forma tortuosa, cobarde, mas evidente, é quem sugere que a crítica é mero desacato ou vontade de afirmação pessoal. considero-o um insulto profissional, que por ser feito não em público e por escrito, mas em salas de aulas numa posição de autoridade perante alunos, só o torna pior.

      -Quanto a nomear essas pessoas, isso em nada valoriza ou desvaloriza a argumentação que usei no meu texto. Já por mais de uma vez me pediram para nomear/denunciar pessoas, situações ou fontes que eu decidi manter anónimas ou genéricas: é um direito meu fazê-lo ou não. Essa política do “Ou dizes tudo ou não dizes nada” é mais outra maneira de mandar calar alguém – para quem se interesse, é mais outra falácia, a da Falsa Alternativa, que apresenta apenas duas alternativas como as únicas possíveis, quando é perfeitamente possível um meio termo. Já agora se lhes incomoda o anonimato, porque não vão chatear o Rick Poynor (a propósito deste texto, por exemplo; hão-de reparar que critica negativamente gente que não nomeia).

      -a comparação entre forma e conteúdo no design e forma e conteúdo na argumentação é uma falsa analogia. De outro modo, seria possível desmentir o que um filósofo escreveu porque a fonte do texto era Comic Sans.

  8. carlos pontes diz:

    longe disso. não se perca.
    de certeza, não seria o filósofo a escolher a letra, de modo que a má decisão não lhe poderia ser imputável.
    aqui há uma mesma pessoa a escolher o conteúdo e a sua forma.
    se não acreditamos na comparação, então de pouco nos vale dedicar ao design.

    lá porque o rick poynor o faz, não é desculpa. é a triste justificação à lá pedro santana lopes… o governo anterior também fazia…

    e no fundo, esta história de mandar piropos para o ar lembra-me o pouco educado típico português (desculpem lá, se é insulto):
    – “eles” levam tudo! “eles” só sabem é roubar!
    mas “eles” quem?
    e assobiam para o lado…

    • Comentando o mais ponto a ponto possível e reparando que não respondeu a praticamente nenhum dos meus argumentos:

      – Mais uma vez cai na Falsa Alternativa: é perfeitamente possível acreditar que os termos “forma” e “conteúdo” desempenham funções diferentes em filosofia e em design sem com isso ter de deixar de pensar sobre design ou exercê-lo.

      Já no comentário anterior você tinha dito que, se não me agradava discutir a forma, deveria deixar de falar de design – mais outra Falsa Alternativa, mas que me obriga a reparar que você recorre com frequência a argumentos do género “Ou aceitas o meu ponto de vista, ou deixas de escrever, fazer design, etc.” Ou seja: tendo você e os patetas alegres do texto razão, sou obrigado a calar-me, não apenas agora mas em geral; tendo eu razão, podemos todos falar, embora discordando uns dos outros. Naturalmente, e à falta de melhor oferta, é-me mais vantajoso ter razão.

      – O facto do filósofo escolher ou não a letra é irrelevante. Poder-se-ia demonstrar o mesmo ponto dizendo que não deixou de ter razão porque escolheu uma má editora, um mau designer, porque estava chateado com a vida, ou porque estava irritado. Em todos os casos é exactamente a mesma coisa: a forma como se apresenta um argumento não afecta a validade da argumentação: dizer uma mentira educadamente e com eloquência não é melhor que dizer a verdade aos berros. Parafraseando as suas palavras, o muito educado típico português prefere quase sempre o estilo à substância. Acredita que a boa educação pode substituir a razão, com os resultados do costume.

      – Falei do Rick Poynor como poderia ter falado de mais meia dúzia de críticos de design e de toda a profissão jornalística em bloco, que tenho a certeza consideraria tudo isso um mau exemplo apenas porque fui eu a dá-lo. As fontes anónimas e as situações genéricas são bastante comuns na imprensa e só se tornam graves no caso de terem sido inventadas. Neste caso, há alguém que tenha dúvidas que existem pessoas que dizem este tipo de asneiras? Estão a dizer que nunca viram ninguém a silenciar a crítica apelando à boa disposição ou desvalorizando-a como mera afirmação pessoal? Liguem a televisão à hora do telejornal!

      Mais uma vez, a única justificação que realmente me interessa para não revelar esses nomes já a dei: dar um exemplo específico não afecta nada a minha argumentação – se alguém, quem quer que seja, disser esse tipo de asneiras contra a crítica, pode-se responder-lhes usando os argumentos que avancei no meu texto. É tudo o que me interessa.

  9. anónimo diz:

    que sova de lógica! boa sr ressabiator, muitíssimos parabéns. se não os podes por a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes.
    As minhas insinceras condolências Sr. Pontes.

  10. carlos pontes diz:

    ahhh… como é bom ter um anónimo que presta vassalagem.
    e que ajuda que dá nestas alturas.

    também gostava de ter um, sobretudo nestes momentos em que, ao tentar debater um tópico, parece que é falar para uma parede.

    • – Você já me mandou calar umas tantas vezes;

      – Já me acusou de só fazer crítica para me afirmar;

      Só me resta perguntar: dá aulas?

      P.S. – Discutir consigo é como discutir com uma sobremesa de gelatina Royal.

  11. anónimo diz:

    isso é que é por o dedo na ferida sr. pontes!
    parabéns por essa manifestação.
    lamento que o sr. ressabiator se inscreva num labirinto de pouca razoabilidade, desde o ínicio.

    • Durante toda esta discussão demonstrei longamente a fundamentação das minhas posições; o sr. Pontes pouco mais fez do que me mandar calar com falácias óbvias. Até um galinheiro de tela de arame com três galinhas raquíticas amparado por uma azinheira morta pareceria um labirinto comparado com a maneira como o sr. Pontes argumenta as suas posições.

    • Já agora Sr. Pontes: da próxima vez que mandar comentários anónimos, experimente mudar de computador. A imagem abaixo é um screengrab da minha página de gestão de comentários, onde aparecem os IPs dos comentadores:

      imagem

      PS – Se com isto ainda não percebeu porque não quero revelar nomes, não consigo imaginar mais nenhum argumento que o convença.

  12. Reactor diz:

    …e o melhor estava guardado para o fim 🙂

  13. carlos pontes diz:

    sr. ressabiator, repare como oportuno foi o comentário do primeiro anónimo.
    não revele por favor o IP dele também… mas que é coincidência, é.
    e o sr. tem a “faca e o queijo na mão”.

    obrigado por finalmente ceder ao meu comentário inaugural e revelar alguma coisa, nem que seja, mesquinhez.

    cumprimentos e fico-me por aqui.

  14. gaspar diz:

    Arguing on the internet is like running in the Special Olympics. Even if you win you’re still retarded.

  15. Caro Mário, como saberás sou um teu heterónimo. Por isso, muitos parabéns pelo texto. O que descreves que sucede nos campos do design é igualmente latente na arquitectura.

  16. Ana Pais diz:

    Se as pessoas em vez de se sentirem ofendidas, aproveitassem o tempo para criar algo útil o mundo era bem melhor.

    Se ofendemos alguém directamente somos cruéis e mal-educados, se o fazemos de forma indirecta somos cobardes, e se não o fazemos, bem se não o fazemos há-de sempre haver outra coisa c/ a qual nos vão chatear.

    :/

  17. Interruptor diz:

    O mesmo IP pode indicar simplesmente que usaram o mesmo ponto de acesso, como um router por exemplo – podem ser colegas de trabalho.

    Devo confessar que fiquei surpreendido e desiludido com a forma como a discussão descambou para a troca de ofensas, sobretudo da parte do Mário, que desde o início do blog se tem mantido como um exemplo a seguir na moderação e respeito que tem mostrado face às críticas “típicas” que tem recebido no blog.

    Em relação à decisão de não nomear os ditos “patetas”, não entendo porque ficou tudo ofendido. Ainda por cima quando se refere a uma atitude generalizada e que se estende para além do seu círculo pessoal e onde não há necessidade imediata de estabelecer ligações directas ou gerar conflictos.

    Mal faz quem aponta dedos sob a cobertura do anonimato.

    O pessoal fica muito inflamado com estas coisas de internet. Antigamente a malta resolvia isto à porrada ou calava-se com medo dela.

    • Peço desculpa aos leitores. Só posso dizer em minha defesa que a minha paciência (quando escrevo) tem limites que infelizmente já conheço demasiado bem, mas que ainda assim não consigo evitar ultrapassar, em particular quando se trata de atropelos maiores ou menores à liberdade de expressão. Em todo o caso, fica a lição para o futuro: continuar a não aprovar comentários que se limitam ao insulto injustificado ou não.

  18. Hélder Mota diz:

    Retirando a parte dos insultos, haverá problema no facto das pessoas exaltarem-se de vez em quando?
    Se perdêssemos mais tempo a pensar antes de opinar talvez as coisas não fossem tão lamechas como têm sido.
    Vivemos rodeados de hipocrisia e o design em Portugal e vítima dela. Não sou nenhum doido anti-nacionalista mas o que acontece dentro do nosso pequeno rectângulo é bem diferente daquilo que se passa fora. Não se preocupem tanto com o vizinho da casa ao lado, preocupem-se em conhecer o mundo em que vivemos.

    – Falam em insulto.
    Ou não passo de um jovem realmente estúpido ou as pessoas são cegas. O primeiro post do Sr. Pontes é insultuoso e em nada contribui para o tema abordado. Talvez não seja necessário sair de casa para viajar e aprender.
    Não sei se é professor ou aluno mas acredito que não é nenhum dos dois. Como é possível comentar este tema sem demonstrar a mínima preocupação com o que se passa no ENSINO. Os alunos do último ano são completamente incapazes de fazer um comentário crítico acerca do trabalho de um colega! Está sempre “fixe” ou “fish”. Parecem robots!

    Nós não temos de concordar com o Sr. Mário Moura, nem temos de ler os posts. Se intervimos temos de pensar no assunto e partilhar conhecimento, por muito verde que este seja.
    Quem quer propaganda não vem para aqui, vai sim para os casting da tvi ou para os ídolos cantar algo sobre design (do género “tá fixi, fixe, fixe…”).
    Quanto a enunciar, não faz sentido. Cada um com a sua consciência. Por vezes ajuda-se mais falando para o ar do que apontando o dedo. Cada um que pense por si e faça o que considera melhor. A iniciativ tem de partir de dentro. Se não discutirmos mais os designers nunca passarão de falsos amigos, nunca teremos identidade nacional.

    É necessário fazer um desenho?

    Tenham criatividade.

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