The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Os Anos da Peste

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Com a crise económica, as histórias de cortes na cultura e dos danos e protestos que vão desencadeando vão-se multiplicando. Cada vez que se abre o jornal mais alguém perdeu o subsídio, a verba ou o cargo. Desta vez, e segundo um artigo no Público da autoria de João Fernandes, o director do museu, a vítima foi Serralves, cuja verba para aquisições foi cortada totalmente pelo Estado, confiando talvez que o lado privado da parceria que sustenta a instituição vai resolver o problema. No entanto, a crise também atinge os privados e desde há anos que Serralves apertava o cinto – dispensando serviços, fechando mais cedo, diminuindo a quantidade e qualidade das exposições.

Não é um corte que me preocupe de modo directo: não costumo ir a Serralves – a programação não me tem interessado; o design de Serralves é fraco e a atenção que o museu dá ao design como assunto de exposição só raramente me entusiasmou. Se os cortes afligem é porque, tal como já tinha escrito há uns tempos (aqui e aqui), o estado prefere dar dinheiro a grandes instituições do que a artistas independentes. As instituições dão trabalho aos artistas independentes que financiam assim as suas carreiras. Não havendo dinheiro para as grandes instituições, a arte independente será a primeira a secar – tanto por falta de investimento directo como indirecto.

Mas tal como já tinha dito, não vou a Serralves e mesmo a arte independente no Porto já não me diz muito. Prefiro sem dúvida a edição independente (ou a pequena edição se o termo incomodar). Também aqui o dinheiro é pouco e esta semana a crise também veio fazer estragos. A Rocha, a gráfica onde muitos dos projectos de pequena tiragem eram feitos no Porto, fechou. Entre os alunos da Belas artes, a notícia espalhou-se com velocidade e resignação. Era lá que imprimiam posters e revistas; era lá que a Braço de Ferro imprimia os livros – entre eles o meu próprio.

Dentro do design ou mesmo das artes, a última década foi a da edição independente, de revistas como a Dot Dot Dot ou a F. R. David. Não surpreende muito que aquilo que se faz de equivalente aqui em Portugal passe completamente desapercebido às grandes instituições ou ao Estado – a maior tradição cultural portuguesa é ir perdendo o comboio; seria até estranho se desta vez o apanhasse. Mas ainda assim é triste que se dediquem artigos de jornal aos cortes das grandes instituições e nem sequer se tenha tentado perceber o pequeno universo frágil da edição e do design independente antes de ser tragado pela crise.

Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Design, Publicações, ,

4 Responses

  1. A crise parece que veio para ficar mais tempo do que o esperado… Ainda em Dezembro do ano passado, diziam os políticos e as finanças que o panorama estava a melhorar e que isso se iria reflectir num crescimento económico nacional já em Janeiro. Que iria descer o desemprego, ia haver aumento de salários, etc. etc.

    No entanto, ainda esta semana o próprio Presidente da República disse que a situação nacional está “insustentável”!! E já vamos em Julho!!

    A Arte há muito que foi “cortada”. Em tempos como este, é das primeiras áreas a sofrer. Seja relativamente ao design artístico, seja ao profissional vimos cortes a serem feitos logo nos começos da “crise”. As gráficas vendem agora os seus serviços sem cobrar ao cliente o custo do trabalho de design gráfico, nem sequér o trabalho dos técnicos gráficos. Cobram apenas a impressão esperando que passem a ter mais clientes. As gráficas concorrentes acabam por fazer o mesmo e o resultado disso são designers a irem para o desemprego, porque pedem “salários altos” (que às vezes nem chegam a 500 euros), e acabam por colocar os técnicos de impressão a fazer o design (até porque saber trabalhar no Corel é mais do que suficiente para se ser “designer”)… Por outro lado, os donos de lojas, cafés e pequenos empresários industriais, preferem dar esses “pequenos” trabalhos gráficos à escritorária de lá da empresa, que até sabe trabalhar com o Word e até já fez uma carta de feliz aniversário para a filha da colega de trabalho nesse programa e ficou giro.

    Cheguei a ver, inclusivé, um bar a deixar de procurar as gráficas para fazer os seus flyers e cartazes. Agora é o porteiro do bar que faz isso no Paint e imprime isso em casa.

    Algumas editoras de revistas e jornais de reputação têm mantido os preços “normais” na concepção do design gráfico da publicidade. Por vezes até têm subido esses valores! Face a essa questão, os clientes habituais começam a procurar freelancers para fazer a sua publicidade (pagando à revista ou jornal apenas o espaço de colocação dos reclamos), dado que um designer freelancer hoje-em-dia é “barato” relativamente a esses preços. Por outro lado, os freelancers já começam a ser “caros”, então acabam por fazer concorrencia entre eles… Até já soube de um que não cobra o seu trabalho, ganhando apenas uma comição da gráfica por cada trabalho impresso…

    Os tempos de crise estão a deitar abaixo a profissão dos designers, que já começam a ser vistos como um “luxo dispensável” em alturas como esta.

    Desculpem o “testamento”. 🙂

  2. Se a ordem, a durabilidade e a funcionalidade dos sistemas de comunicação e organização de uma certa entidade fossem um luxo e não uma necessidade, talvez muitas empresas não fechassem tão cedo.

    • rui diz:

      Pois, isso é verdade. O problema é conseguir convencer as empresas quanto a essa importância. Principalmente em épocas de crise como a que vivemos actualmente, o investimento na publicidade é mais do que o ponto de divulgação da entidade, é assegurar a sua permanência no mercado. É não deixar que, entretanto, o público geral se esqueça da sua marca e assegurar um número de vendas e aquisições de forma o mais estável quanto possível. Romper com a divulgação publicitária de uma qualquer entidade em alturas pouco estáveis economicamente pode ter consequências graves.
      Mas se falarmos de uma pequena empresa, cujo método de divulgação é dado por meios verbais (o chamado “de boca em boca”) eles quase que se desligam por completo da publicidade impressa e até mesmo web. As pequenas entidades continuam a pensar que o design e a publicidade impressa são luxos dispensáveis e é difícil convence-los do contrário…

      • E a publicidade é apenas a ponta do iceberg do carácter de uma sociedade. É como se fosse uma caricatura… As sociedades (mais que os projecto pessoais que dependem das oscilações de humor de uma pessoa) devem ter uma estrutura interna bem desenhada e devem ter um hábito de diálogo fluído com o exterior. Esse processo de comunicação transcende largamente a abrangência de uma campanha de comunicação e ultrapassa a capacidade que os seus sócios, quando não formados em design de comunicação, têm para ver as falhas.
        Claro que há pessoas/equipas de pessoas que conseguem fazer isso melhor que outras e muitas vezes nem sequer é preciso uma pessoa formada em design de comunicação com experiência (até porque muitos são apenas designers gráficos).
        A publicidade, quando não é boa (quase sempre), é apenas um remendo. Quando é boa, passa o o carácter da empresa, passa valores, passa um estilo, um estado de espírito que, para “fidelizar” um potencial cliente, tem que transparecer o que a empresa é todos os dias… Será sempre desejável que a utilização dos serviços e produtos de uma empresa cresça com o boca-boca, mas para isso é essencial que a empresa esteja organizada. É necessário que tenha funções delegadas em pessoas competentes e motivadas, distribuição de produtos apropriada (no caso das empresas produtoras), comportamentos bons, acções pertinentes, e tudo isso passa pelo design de comunicação (podemos vê-lo, design de comunicação como design de procedimentos, de registos, de sistemas e procedimentos…). O bom design de comunicação anda de mão dada com uma boa entidade. Por exemplo: uma empresa sem design de comunicação não é uma empresa. É caos encerrado sobre si próprio.

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