The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Sumo de Limão

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A meio dos anos noventa, na cidade americana de Pittsburgh, um homem de cara descoberta entrou em dois bancos, um a seguir ao outro, de arma na mão. Enquanto os assaltos decorriam, ia lançando olhares despreocupados e divertidos às câmaras de vigilância. Através dessas filmagens, mostradas na televisão local, foi possível identificá-lo rapidamente. Foi preso na sua própria casa e, enquanto o algemavam, disse que não podia ser, porque tinha posto o sumo de limão.

Aparentemente, alguém lhe tinha dito que, se esfregasse sumo de limão na cara, as câmaras de vigilância não o iam ver. Antes dos assaltos fez a experiência, fotografando-se a si mesmo com uma Poloroid mas – talvez por causa do sumo de limão nos olhos – a câmara desviou-se e só apareceu  a parede.

Publicada mais tarde na rubrica das notícias estranhas de um almanaque, a história inspirou um professor da universidade de Cornell, David Dunning, a escrever com a ajuda de um aluno de pós-graduação, Justin Kruger, um paper com um nome sugestivo, “Unskilled and Unaware of It: How Difficulties of Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-assessments”, onde se defendia que, quando uma pessoa é incompetente não só toma más decisões como é incapaz de perceber que é incompetente. Este problema de auto-percepção viria a ser conhecido como o efeito Dunning-Kruger.

Li esta história no blog de Errol Morris, que a usa como um ponto de partida para uma reflexão sobre a possibilidade de conhecer realmente e objectivamente o mundo – uma preocupação que não surpreende, vinda de um documentarista. No fim da longa série de posts dedicados ao assunto, onde entrevistou neuropsicólogos, o polícia que prendeu o assaltante do sumo de limão e o próprio Dunning. Morris acaba por concluir que a nossa percepção do mundo depende do modo como nos relacionamos com os outros, das informações que eles nos vão dando sobre a nossa própria prestação (se o assaltante não tivesse sido enganado deliberadamente, a sua falta evidente de inteligência não o teria posto em sarilhos).

Ao ler esta história, no fundo uma versão contemporânea do Rei Vai Nú, não consegui deixar de fazer um paralelo com a ideia de discurso público e de crítica: é através da troca pública de ideias e de opiniões que conseguimos exercer as nossas tarefas de modo eficiente. Somos tão competentes quanto a nossa sociedade nos permite ser; a nossa sociedade é tão competente quanto lhe exigimos que seja.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Não é bem design, mas...

8 Responses

  1. A. B. diz:

    atrevo-me a mencionar um livro que considero oportuno para este post: um livro que analisa a percepção do mundo e a auto-percepção de um ponto de vista biológico e filosófico, de Humberto Maturana: “la Objetividad, un argumento para obligar”, onde aparecem outros conceitos como a objectividade, a realidade, etc. Há, inclusive, um capítulo dedicado à nossa sociedade e à forma como reagimos perante o discurso público. É interessante e com certeza se enquadra neste discurso.

  2. rui diz:

    A própria sociedade chega a incutir ignorância e irresponsabilidade. Tantos são os casos que eu poderia referir… Há coisas tão habituais no dia-a-dia das pessoas, que ninguém chega a pensar nos perigos em que se pode meter. Por exemplo, ninguém manda as pessoas construírem as suas casas em zonas de perigo, tais como ravinas e precipícios. No entanto, isso está sempre a acontecer. Ora, se os “vizinhos” fazem é porque é “normal”!? Ninguém manda as pessoas habitarem zonas perto de vulcões. Mas, porque todos o fazem, acaba por parecer “normal”. As pessoas fecham-se na sua própria ignorância porque a própria sociedade o permite, ou mesmo porque lhes chega a incutir essa mesma ignorância.

    Tudo bem, um vulcão fica imenso tempo inactivo. Chega a parecer durante décadas, ou mesmo séculos, uma paisagem bonita de se ver, um monumento natural de grande envergadura. “E se os outros fazem, porque não fazer o mesmo?” “aquilo só daqui por não sei quantos milénios é que entra em erupção!”… Lol

    Mesmo depois de se saber de casos tais como o do vulcão Mayon das Filipinas, que obrigou à retirada de milhares de pessoas daquela zona, muitos continuam, por exemplo, a habitar dentro de vulcões, tal como acontece no Curral das Freiras, na Madeira.

    A sociedade alimenta a ignorância e a incompetência nas pessoas e os mais ingénuos acabam por cair em tudo o que lhes contam, dando origem a situações ridículas tais como a desse assaltante do sumo de limão.

    E depois há aqueles que acreditam em seres invisíveis, aparições de Fátima, deuses e santos… A sociedade minou a mente humana à nascença.

  3. Obrigado pelo link do Errol Morris. O artigo é fantástico, pelo menos na primeira secção (ainda só consegui ler a parte 1 de 5).

    Quanto a estas questões de contexto, há quem prefira estar rodeado de medíocres para se sentir o melhor, resta saber se essa “estratégia” é consciente =)

  4. Dentro do mesmo espirito, a perspectiva de John Cleese sobre Criatividade….

    http://gregorywood.co.uk/journal/cleese-on-creativity

  5. […] liga à qualidade do pormenor do design português. Aproveito até para criar eu mesmo o prémio Limão D’Ouro que premeia a capacidade do design português para reconhecer e premiar a competência (quem não […]

  6. […] Borges, não me resta senão diagnosticar-lhe uma variante particularmente grave do Síndroma de Dunning-Kruger. Share this:FacebookTwitterGostar disto:GostoBe the first to like […]

  7. […] Como é possível acreditar que Primeiro Ministro e Presidente da República não tenham visto as imagens do que se passou ontem? É evidentemente uma estratégia conjunta. Ou isso, ou estão a demonstrar a sua total incompetência. Neste caso, nem vale a pena argumentar o que quer que seja: são incompetentes de mais para perceber que o são. Estamos em pleno território do sumo de limão. […]

  8. Só conhecia a versão do John Cleese

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