The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Artista Consumista

Afinal, a ministra da Cultura voltou atrás e anunciou que não haveria cortes, pelo menos este ano. Conseguiu assim, sem dificuldades de maior, hostilizar praticamente toda a gente: a esquerda criticando as voltas e as reviravoltas, a precariedade dos trabalhadores culturais, a arrogância da ministra, o sacrifício dos artistas independentes em favor das grandes instituições; a direita lamentando que Canavilhas tenha voltado atrás, continuando a apoiar esses parasitas, madraços, que vivem à custa do dinheiro dos outros – o costume.

Entretanto, e por causa dos cortes, o director-geral das artes demitiu-se, para regozijo da ministra que o substituiu três minutos depois. Seis minutos depois, o dinheiro voltava, sem que se perceba como ou porquê – alguns sugerem até que os cortes foram apenas uma estratégia para obrigar Barreto Xavier a demitir-se. Explicação interessante mas que não invalida outras, mais simples. Por exemplo: fica sempre bem cortar na cultura quando se quer mostrar que se poupa dinheiro; é das poucas áreas que está sempre ameaçada haja sol ou haja crise: se as coisas correm bem à economia, haverá sempre quem defenda que correriam ainda melhor atirando a cultura (todo o tipo de cultura) pela borda fora; se as coisas correm mal, a cultura será a primeira coisa a ser sacrificada (como é evidente).

Poder-se-ia talvez concluir que cultura e economia são termos que se opõem como dia e noite, matéria e anti-matéria, Helvetica e Arial. No entanto, as coisas não são assim tão simples e a cultura é uma actividade económica como outra qualquer que promove o emprego, o consumo e que tem a vantagem de emprestar uma impressão de inteligência aos sítios onde é apoiada.

Muitos dirão que toda a cultura é mera pretensão e que as artes são arrogantes e elitistas, rituais caros e incompreensíveis que deixam o comum dos mortais de fora. Mas, mesmo esquecendo que tudo o que as pessoas fazem – incluindo a forma como comem, como dormem ou como fazem sexo – é cultural, variando de sítio para sítio ou de  povo para povo, e assumindo, pelo contrário, que cultura é apenas aquilo que um conjunto de profissionais especializados fazem, seja no cinema, como nas artes plásticas ou mesmo no design, é na esfera cultural que se criam novos ideais de beleza, de pensamento, de critica ou de narrativa. Até se pode separar artificialmente ciência, indústria e comércio das artes, mas o resultado são tecnologias e serviços feios, envoltos em má arquitectura, apresentados em Comic Sans ou pior.

No entanto, é pouco provável que este género de argumentos consiga convencer quem acredita que a cultura é supérflua. Para esses, convém lembrar que a cultura é sobretudo uma área que, não lhe sendo reconhecidos praticamente nenhuns direitos na sociedade actual, acaba por funcionar bastante bem apesar dessa marginalidade – ou mesmo por causa dela, como sugerem alguns. Com pouco dinheiro e ainda menos obrigações por parte do estado ou de privados consegue-se facilmente uma clima cultural florescente.

Como funciona isso? Em primeiro lugar, um artista na sociedade actual nunca é apenas um artista – nunca conseguiria viver só disso. Um artista ou é rico, ou tem um segundo emprego que lhe permita financiar a sua carreira de artista. A potencialidade de um artista pode talvez ser avaliada pela género de empregos que acumula: se trabalha no Pingo Doce tem muito menos hipóteses de vingar do que se guardar exposições em Serralves ou se der aulas no ensino superior artístico. Este acumular de funções não acontece apenas nos escalões mais baixos: mesmo um artista consagrado e em fim de carreira acaba por ter dois empregos: artista e reformado.

Resumindo, a grande maioria dos artistas, ao longo de toda a sua carreira acabam por fazer as suas obras nos tempos livres, com as suas poupanças – poderíamos dizer que são consumidores criativos. Nas sociedades urbanas, a maioria das pessoas, pelo contrário, são consumidores passivos. Ou seja, aquilo que consomem chega a uma espécie de fim de linha: é comido, visto, discutido, coleccionado, deitado fora ou revendido, sem que muita coisa seja acrescentada ao processo. Nas artes, o consumo gera mais consumo: a exposição de um artista independente não implica apenas a compra de materiais, mas também a manutenção de espaços onde pode ser exposto, muitas vezes em locais que não seriam usados para mais nada (prédios semi-devolutos em zonas esquecidas da cidade), a produção e divulgação de materiais de apoio, catálogos, flyers, etc. Uma pequena comunidade de artistas é uma pequena economia que pode facilmente e por pouquíssimo dinheiro dinamizar a vida de uma cidade.

No entanto, esta dinâmica é frágil e depende muito do tal outro emprego, muitas vezes ligado a instituições de maior escala. Não havendo apoios para estas instituições, a arte independente desaparece. Seria preferível se houvesse mais maneiras de apoiar directamente os pequenos artistas, mas o pouco apoio que vai escorrendo de cima, através dos financiamentos dados às grandes instituições, acaba por ser o sustento de muitos, e é muito melhor do que nada.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia

2 Responses

  1. rui diz:

    E um país sem cultura seria oquê? Um país acabado? Um país sem nada a mostrar e partilhar com o resto do mundo? Um país sem campanha publicitária? Um país sem Ronaldo e sem Saramago, e sem Siza e sem dom… Pelo que me lembro, foi por volta do período mais de direita que Portugal teve mais financiamentos ao nível da cultura. O Estado Novo era como que uma fábrica de artistas, porque tanto se dava importância àquilo que os países vizinhos pensavam sobre o nosso país e, aí, havia que enfeita-lo de arte e criar grandes eventos culturais. A arte era, desse modo, uma espécie de arma implícita, ou uma estratégia de campanha política nacionalista e patriotista. Dava-se mais valor à poesia, à pintura, à arquitectura, etc. Depois o país perdeu a sua paixão desenfreada pela pátria, esqueceu os heróis de Camões, levantou os estandartes das suas colónias, mandou regressar ao país os seus artistas. Depois do 25 de Abril muito melhorou no nosso país, mas a arte deixou de ser a menina dos olhos dos governantes e muitos artistas acabaram por decidir fazer vida no estrangeiro, deixando para trás o fracasso e uma vida de sacrifícios…
    Houve alguém que disse em tempos que a arte devia ter mais atenções do que as forças armadas, por exemplo. As tropas podem proteger um país, mas a arte e a cultura podem imortaliza-lo, mantendo-o erguido mesmo depois de várias derrotas. Veja-se o caso do Egipto, o caso dos Maias, Aztecas, veja-se o caso da “falida” Grécia, que nunca irão abaixo por muito que sejam derrubados.

  2. O que li parece-me ideologicamente questionável: nenhum partido compreendeu ainda as mudanças culturais e nenhum tem uma proposta séria sobre este assunto /// e como pode a esquerda dizer-se esquerda se se quer mais actores (pagos pelos subsídios|) em cena num dia do que médicos nas urgências?
    Algumas questões:
    Dar dinheiro a quem? Quais as artes que devem ser mais subsidiadas? O teatro, o design de equipamento, a música? Os actores? Os designers de equipamento? Os músicos? Quais são os mais frágeis? Os que se candidatam, não? Quantos querem? Quantos precisam? Quais os critérios? Quando se dá o dinheiro e quanto se dá em troca dos relatórios sobre as actividades subsidiadas?

    As ideias deste post levantam questões práticas a que não se consegue responder com facilidade – porque se continua a abordar a realidade cultural contemporânea da mesma forma que se fazia em 1980. Os políticos e os agentes culturais continuam a tentar resolver o problema como se a video-instalação, a pintura ou a música concreta tivessem a proeminência de outros tempos.
    Hoje a cultura é muito mais que o conjunto de conhecimento produzido pelas “velhas artes”.

    O que eu espero dos agentes culturais e especialmente dos novos é que se assumam com vigor e com mais jogo de cintura do que as plataformas de artistas classificados pela DGA. Está certamente na altura de tentar outro tipo de soluções para além da cultura de Estado.
    O Estado é esse homem gigantesco e sem agilidade, que serve para garantir que a Constituição seja cumprida, para que tudo funcione em paz, liberdade e justiça. Essa função, sobranceira e calma, não se coaduna com a perspicácia terrena essencial ao trabalho criativo e com a entrega da alma e do corpo às disciplinas artísticas.

    Não conseguindo promover todos o trabalho dos novos artistas, não distinguindo sequer um artista de 25 anos de traço escolástico de um que sua e sangra para criar toda uma nova forma de expressão, o que o estado pode, e deve fazer com competência, é a preservação de todas disciplinas criativas, ainda que sejam de outros tempos. Assim desempenhando uma função quase museológica. Porque se algumas disciplinas já não conseguem encontrar as forças para se aguentarem sozinhas, as pessoas todas, devem sem questionar com seus gostos pessoais, tentar garantir que dentro de 30/50/100 anos ainda se consiga ver e produzir estas artes que se encontram ameaçadas… O acesso à variedade será sempre inspirador para qualquer civilização.
    O Estado também tem a função de articular o ensino com a actividade profissional. Sobre isto, seria bem mais consequente gastar recursos a gerir esta situação do que a financiar, ano após ano, artistas tão vividos como viciados.

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