The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Muito, talvez demais

Saindo do sol e calor da Rua do Alecrim para a relativa penumbra do átrio do Palácio Quintela, a primeira sala da exposição Revolution 99-09, parece que entramos numa daquelas mercearias antigas de Lisboa onde, pela profusão de cores, caixas e produtos, fica a sensação que o que está a ser vendido é mais a ideia de abundância em si mesma do que qualquer produto em particular: somos rodeados de centenas de objectos de design, posters, desdobráveis, brochuras, livros, acotovelados pelas paredes, emoldurados ou não, encolhidos à justa em vitrinas, onde mesmo a discreta legendagem mal consegue dar conta do recado, obrigando a algum esforço para perceber quem fez o quê e como.

Aqui e ali notam-se algumas tentativas de organizar as coisas usando os recursos naturais do espaço ou dos objectos expostos: uma parede aparentemente ficou reservada a posters impressos sobre suportes exóticos, tecido ou plástico, da dupla Joana & Mariana ou de Nuno Coelho; outra usa os próprios trabalhos como separadores – as amostras de fontes de Dino dos Santos e de Mário Feliciano separadas pelos posters sinuosos de João Maio Pinto, onde lettering e ilustrações se fundem umas nas outras, não podendo ser menos tipográficos. Mas, no meio desta abundância toda, fica a dúvida se existe realmente ali alguma ordem que não seja a de manter os trabalhos de cada autor mais ou menos próximos uns dos outros.

Nas salas seguintes há menos coisas, o que não alivia as dúvidas, antes pelo contrário. Se o critério da sala principal é a acumulação, porque se decidiu destacar os poucos trabalhos e designers das outras salas? Um cartaz isolado num pequeno corredor parece ter sido posto ali apenas por causa da excentricidade relativa da sua técnica de impressão em laminado transparente com efeito 3D. Quatro grandes posters de João Faria apoiam-se contra os frescos da escadaria principal, empoleirados em pequenos tamboretes de madeira branca; será que se quis destacá-los ou foi apenas o tamanho que obrigou ao seu isolamento? O mesmo se pode dizer dos trabalhos de Pedro Falcão, da RMAC, dos Silva! Designer e de Henrique Cayatte, aos quais é dado o destaque duma vitrina isolada numa sala do primeiro andar – fica a ideia que se tentou separar um grupo de designers mais antigos, mais sérios, talvez mais consagrados, da algazarra colorida dos designers do andar de baixo. No entanto, esta separação também os torna mais vulneráveis, lembrando por exemplo que é difícil encaixar Cayatte, cujo melhor trabalho foi produzido na primeira metade da década de 90, dentro da geração ou das temáticas da última década, o que abre sem dúvida brechas na coerência da exposição – afinal, a maioria dos trabalhos expostos são de designers cujo trabalho não só é representativo da última década como se iniciou dentro dela; quem não encaixa parece simplesmente ter sido incluído invocando algum tipo pouco claro de excepção.[1]

A ideia que fica, tal como na mercearia de que falávamos há pouco, é a de uma abundância que paralisa a escolha e que contradiz mesmo um dos objectivos declarados da exposição: mostrar trabalhos que se destaquem pela sua demonstração de autoria, sugerindo uma individualidade que pura e simplesmente se dilui no meio de tanta coisa.

Há quem sugira que – mesmo com isto tudo – ainda faltam nomes, ou quem se queixe de não estar representado, mas o que é verdade é que seria melhor para todos, exposição e designers, presentes e ausentes, comissários e espectadores, se mais gente tivesse ficado de fora, ou que se tivesse seleccionado melhor os trabalhos expostos, que em muitos casos não são nem os melhores, nem os mais representativos de quem os fez – os trabalhos expostos de Joana & Mariana, feitos enquanto estudavam, não se comparam com a sua produção actual; a publicação Cinco Áfricas / Cinco Escolas dos Vivóeusébio é bastante melhor que o resto dos seus trabalhos na exposição; os poucos posters de Martino & Jaña não chegam para representar a variedade e a qualidade da sua produção (e estes são apenas os exemplos que conheço melhor, calculo que seria possível dizer o mesmo em relação a muitos dos designers presentes).

Ainda assim, esta exposição está uns quantos furos acima da última tentativa que a Experimenta fez de inventariar o design português, a infeliz exposição (P) Portugal 1990-2005 que conseguia mostrar ainda menos critério (a vontade de inclusão era tanta que chegavam a expor trabalhos de Sebastião Rodrigues feitos nos anos 60[2]). Se o âmbito da (P) eram quinze anos muito mal medidos e o da Revolution dez, fica-se com a esperança que a próxima se limite a cinco ou mesmo a um. No entanto, é pouco provável.[3]

Já li em qualquer lado que haverá cerca de dez mil designers formados, exercendo ou não a profissão em Portugal. Fazendo contas de cabeça, a estimativa parece pecar por timidez: entre trinta e quarenta cursos de design produzindo, no seu conjunto, entre seiscentos e um milhar de novos designers a cada ano lectivo, fazem com que dez mil designers seja mais ou menos o que o país produz em dez anos. Sabendo que há cursos de design há quase quarenta anos – três ou quatro na primeira década, mas a alastrarem como cogumelos nas duas últimas –, a quantidade de designers a jorrarem para o mercado torna-se um exemplo bem mais eficaz do sublime Kantiano que uma montanha, uma queda de água ou um derrame de petróleo. Muitos designers vêem esta abundância com um calafrio, argumentando que há cursos a mais, que isso deveria ser rapidamente resolvido encerrando uns tantos, supostamente os piores, embora poucos estejam dispostos a nomear quais. Mais preocupante, na minha opinião, é o desfasamento entre esta legião crescente de designers e a dificuldade de encontrar design de qualidade em Portugal. Seria de esperar que um ecossistema com tanta e tão feroz competição conseguisse evoluir rapidamente formas de vida elegantes e eficazes – melhores, enfim – mas, tal como na natureza, acabam por ser as baratas e ratazanas as espécies mais bem sucedidas neste ambiente. Tudo isto para dizer que só muito raramente a qualidade formal é um critério efectivo de selecção dentro do design português, limitando-se quase sempre a pequenos nichos de mercado onde a criatividade do designer é recompensada, em particular a esfera cultural, onde uma imagem pública experimental e inovadora é realmente apreciada, ao contrário dos clientes mais empresariais onde estas características são mais apregoadas do que realmente aceites. Não surpreende portanto que os trabalhos mais marcantes do design português se situem nesta área e não surpreende também que praticamente todos os designers representados na exposição Revolution 99-09 trabalhem para clientes culturais.[4] Mas mesmo dentro desta área restrita, há uma grande quantidade de designers, bem mais do que uma exposição como esta poderia (ou deveria) representar apesar da sua abrangência.

A primeira reacção perante uma abundância avassaladora é quase sempre tentar escolher o menos possível, procurando representar a fartura com a fartura. Não espanta portanto que a quantidade acabe por ser um das características mais marcantes desta e de outras mostras[5]. No entanto, a estratégia deveria talvez ser outra: exposições mais frequentes com menos gente e com estratégias curatoriais mais sólidas. Por exemplo, argumentar – como se faz no texto de apresentação desta exposição – que escolher o menos possível permite aos espectadores fazerem as suas próprias escolhas é uma maneira habitual dos comissários sacudirem a chuva do capote quando não tomaram decisões que cheguem; numa exposição não se expõem apenas trabalhos mas também a pertinência dos seus critérios de selecção.

Para já, ainda não há catálogo impresso, apenas uma folha de sala e um site onde aparecem imagens da maioria dos trabalhos expostos, acompanhadas por um pequeno texto, e onde é possível consultar as obras por autor e por ano de produção. São opções baratas, para quem faz e para quem lê, mas que ficam um pouco aquém da legitimidade de um catálogo impresso. Numa exposição sobre design gráfico seria coerente e praticamente obrigatório ter um e daria uma boa oportunidade à Experimenta de se redimir dos catálogos fraquinhos que acompanharam exposições excelentes como a Quick Quick Slow ou fraquinhas como a (P). Nos tempos que correm, tal como a exibição de um filme numa sala de cinema é apenas o trailer para a sua venda em DVD, uma exposição é frequentemente a festa de lançamento do seu catálogo, que, se for suficientemente bem feito, prolongará a sua vida útil, impedindo que caia no esquecimento ou na irrelevância (neste caso, seria também uma última oportunidade de justificar melhor as suas escolhas).

Desta exposição fica sobretudo a ideia que há muito design português que vale a pena ser exposto, mas que ainda vão faltando boas estratégias para o fazer. Revolution 99-09 demonstra que a abundância pode ser um problema (preferível, sem dúvida nenhuma, à mera escassez). No fim de contas, como os designers bem sabem, muito é melhor que nada, mas menos poderia – talvez – ser mais.


[1] O mesmo se pode dizer das garrafas de António Policarpo, o único exemplo do género numa exposição quase exclusivamente dedicada a suportes impressos bidimensionais, posters, livros, desdobráveis e brochuras, com um raro CD aqui e ali.

[2] Na parte do design de equipamento ainda era pior: apareciam cadeiras feitas no século XVIII e em 1954.

[3] Seria um passatempo interessante tentar fazer um diagrama de Venn representando os designers e os trabalhos comuns a duas exposições cuja amplitude se sobrepõe entre 1999 e 2005. Curiosamente, o catálogo da (P), feito por Henrique Cayatte, que a comissariou, está exposto na Revolution 99-09, fazendo um ligeiro efeito de caixa de fermento Royal.

[4] Em alguns casos, são clientes culturais como no caso dos Filho Único, que apresentam cartazes encomendados a outros designers.

[5] Por vezes, a mera quantidade chega a ser o tema: este ano no Porto, no espaço de um mês e meio houve dois eventos quase coincidentes, sem relação directa um com o outro, chamados 20 x 20 x 20, cujo grande tema agregador foi a quantidade de participantes (20).

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Exposições

7 Responses

  1. Vendo as imagens, a seleccão nacional, tenho de reconhecer que não está muito má. Joga com tácticas antigas, mas é coesa o suficiente para dizer que aqui também se praticou o design sólido e competente.
    O que me faz ficar indignado é que, nos dias que correm, falar Revolução assim, soa a treta. Não é que estivesse a queixar-me… Estava irado com a falta de cuidado. A Revolução não está na exposição!! O que lá está é um teste prático sobre a linguagem institucional internacional mais usada durante a primeira década deste século. Com exercício expositivo, sem qualquer reflexão ou consequência prática, que aparenta ser, satisfaz plenamente.

    Apesar de estar a habituado a não fazer parte de nenhum registo, exposição ou documentação que se pretenda de amplitude nacional, continuar a não expor nada de Nova Emoção, para mais ainda, numa exposição com este nome, já começa a ser irresponsável.
    Podes falar da minha reacção como se fosse uma mera “queixa” mas também a deves ver como uma crítica, feroz quanto baste para denunciar a minha insatisfação.

  2. P.S.: Confesso que já estou um pouco arrependido de ter falado sobre isto porque, se eu próprio tenho dificuldade em aceitar que a auto valorização anda sempre de mão dada com um trabalho de valor, compreendo que quando um produtor fala do seu trabalho com orgulho, possa soar mal. Cada vez mais, tenho a certeza que acabo por perder mais em emitir uma opinião, publicamente, sobre a assuntos relacionados com a minha prática profissional, do que se ficar em silêncio. :/

  3. Situr Anamur diz:

    20 000 designers licenciados , é apenas o dobro Mário

  4. Muitas questões se abrem com este texto, fica apenas uma nota rápida.

    A primeira coisa que fiz quando entrei na exposição foi perguntar pelo catálogo… sorrisos e bem, temos um folheto que custa 20 cêntimos, mas catálogo realmente, não existe. Está aqui provavelmente uma consequência da nebulosidade do comissariado da exposição (assinada como Experimenta). Claro que isto não invalida a pertinência e mérito da exposição, apenas a torna mais frágil e desperdiça a oportunidade de podermos fazer uma discussão em torno do porquê das escolhas apresentadas e da sua organização (mesmo parecendo-me, apesar de tudo, consensuais em 90% dos casos), ou mesmo do porquê estar no contexto actual, o design dividido entre design tipo ‘alta cultura’ e o design ‘baixa cultura’ (seria interessante, mas teria menos hype certamente, comissariar um exposição sobre o impacto -ou a dificuldade de impacto- do design e do enorme número de designer formados nos últimos anos, sobre os produtos de consumo de massas, coisas consideradas menos nobres onde o design não é de autor (deveria ser?), seja nos suportes de embalagem, produto ou mesmo televisão, por exemplo). No fundo nada de novo, mas que são questões que ficam adormecidas numa mostra que, apesar da grande qualidade, poderia ser um pretexto para mais. Claro que o que me parece grave é o facto de as plataformas de reflexão, exposição e discussão serem tão pontuais no design português.

  5. Situr Anamur diz:

    Um folheto custa 20 cents mesmo com as resmas de papel que entra nos cofres da EXD? Ui temos crise

  6. Lígia Paz diz:

    “Seria de esperar que um ecossistema com tanta e tão feroz competição conseguisse evoluir rapidamente formas vida elegantes e eficazes – melhores, enfim”

    Auto-regulação do mercado aplicada ao design? Ou era mesmo ironia? (Eu percebi a ironia da “feroz competição”, a dúvida era apenas relativa à capacidade regulatória do mercado em termos de design.)

    • Toda esse parágrafo é apenas uma analogia entre a evolução através de selecção natural e o percurso do design português. Trata-se de facto de ironia: na evolução natural não há progresso, as coisas não ficam piores ou melhores com o tempo, apenas mais adaptadas ao seu meio ambiente. Do mesmo modo, não havendo necessidade ou estímulos para isso, não há nada que garanta que o design português melhore com o tempo ou sequer que contribua para mudar o país. Na verdade, vai-se adaptando ele ao país, ao facilitismo, clientelismo, porreirismo, etc. – tal como dizia no texto, baratas e ratazanas.

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