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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

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Nos tempos que correm, só o arranjo gráfico parece distinguir o Público do Inimigo Público. A culpa não é certamente dos jornalistas, que continuam a tentar descrever diligentemente aquilo que ainda se vai chamando, à falta de melhor, “factos” e “acontecimentos”.

Hoje, por exemplo, comprei o Público – uma coisa que costumava fazer para me descontrair e que agora me dá a mesma sensação de contracção abdominal involuntária que os melhores contos de Franz Kafka – e dei de caras com duas notícias, ambas na mesma meia página, que me fizeram crispar os lábios numa espécie de sorriso e o estômago numa espécie de indigestão:

1. Retrato do Artista enquanto Batata Quente

Enquanto folheava, quase deixei passar uma pequeníssima notícia, onde se descrevia a resposta de João Fernandes, o director de Serralves, às declarações da ministra Gabriela Canavilhas, que numa audição parlamentar terá dito que essencialmente não tinha nada a ver com Serralves, que “o acervo de Serralves não é público, é de Serralves, que é uma fundação privada. Tanto não é público que, se o Estado quiser intervir, não tem esse direito.”  Não sei se isto tem a ver ou não com os cortes anunciados dos fundos de aquisição de Serralves – a notícia não esclarece, nem encontrei outras referências –, mas parece uma maneira simpática de dizer à fundação que se safe sozinha. Em tempo de crise, aceitam-se apostas sobre qual dos lados das parcerias público-privado será o primeiro a fugir.

Por exemplo, no Museu Berardo, a confusão começou quando o magnata se decidiu a pagar em géneros (cinco obras de arte no valor de 555 mil euros) a verba que se tinha comprometido a pagar anualmente (500 mil euros) para o fundo de aquisições daquela instituição, no qual o Estado deveria pôr outro tanto. Naturalmente, a notícia gerou polémica porque, ao pagar em obras, Berardo estava a impor as suas decisões de aquisição à direcção do Museu e ao próprio Estado. Mas, poucos meses depois, era o próprio Estado que se escusava a cumprir a sua parte do negócio. Neste caso, torna-se bastante evidente que privados e públicos estão numa espécie de Impasse Mexicano, cada um à espera da primeira oportunidade para se pôr ao fresco.

Voltando à pequena notícia do Público, João Fernandes respondeu à Ministra dizendo que Serralves “tem gestão privada: foi uma das condições com que o Estado se comprometeu ao convidar a sociedade civil [a entrar nesta parceria público-privada], o que tem dado bons resultados”, mas que apesar do carácter privado da gestão é apenas usufrutuário de bens públicos, invocando um decreto-lei que diz: “extinta a Fundação, o seu património reverterá integralmente para o Estado”. Resumindo, a Ministra diz “Não. Isso não é meu, é teu.” e João Fernandes responde dizendo que “Não. É teu.” – e por aí adiante.

Uma nota final: Sr. Director, não dê ideias à ministra. Pedir ajuda lembrando que basta extinguir a Fundação para o seu património reverter para o Estado não me parece uma boa estratégia. Já estou a ver as manchetes: “Défice Público controlado graças à venda de mansão modernista com museu anexo” e, mais tarde, “Museu de Arte contemporânea convertido em moradias de luxo para arquitectos”.

2. Medidas Extraordinárias

Há uns dez anos, comecei a usar uma nova unidade de medida: a Tuta. Como um estagiário ganhava nessa altura qualquer coisa como quinze contos (75 euros ou tuta-e-meia), uma Tuta seriam dez contos (50 euros). A partir daí comecei a medir o salário dos estagiários em Tutas: meia Tuta, três Tutas, cinco Tutas e meia, e por aí fora. Lembrei-me disso quando li a notícia ao lado da anterior, onde fiquei a saber que a totalidade da verba anual para os apoios pontuais à criação eram apenas 800 mil euros (metade da quantia do ano anterior). Não consegui deixar de comparar este número com outro, 650 mil euros, o dinheiro que Henrique Cayatte recebeu em ajustes directos – sem concurso – no ano passado. Medindo o orçamento dos apoios pontuais em Cayattes, dá cerca de 1.23 Cayattes/ano – pouca coisa, portanto.

Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Economia, Política

5 Responses

  1. Não me importava nada de ganhar 1 Cayatte por ano! XD Jejeje

    Realmente há qualquer coisa de errado nas políticas de financiamento artísticas (e não só)… A crise parece piorar ainda mais quando dão notícias de possíveis melhoras no futuro. “Desemprego irá baixar brevemente”. Logo na semana seguinte lê-se “desemprego aumenta 1,3%”.

    Até se podia fazer o mesmo que fizeram os americanos para melhorar a sua situação e aumentar o valor do dólar o mais possível: produzir mais dinheiro do que o necessário e distribuí-lo bem distribuído. Com uma política liberal (ou neo-liberal) os EUA conseguiram dar as voltas à bolsa desta forma.

    Portugal podia fazer o mesmo, distribuindo o dinheiro em “excesso” pelos vários departamentos públicos e apoios ao investimento empresarial e cultural. Duvido que essa estratégia falhasse.

    Sem querer, os traficantes em Itália (conhecida não só pela arte, ou pelo Papa como também pela máfia) conseguiram enriquecer o país em mais de 150%! Conseguindo o que nenhum partido conseguiria fazer. Li isso algures numa revista. A causa disso é a quantidade do dinheiro falsificado que por lá circula a toda a hora, que consegue atingir valores próximos de metade da quantidade do dinheiro real. Com mais dinheiro a circular, há mais poder de compra, os salários aumentam, os preços baixam, o nível de vida e as exigências do cidadão comum aumentam, o valor do próprio dinheiro aumenta dentro e fora do país porque pode comprar mais (as coisas custam menos). Os países com maior poder de compra têm-se saído melhor durante a crise actual por causa disso mesmo. Resumindo e concluindo, os mafiosos são os salvadores de Itália e provavelmente não sabem disso. Lol

    Precisávamos de uma “máfia” assim na arte e na cultura nacional!

  2. Lígia Paz diz:

    Rui,
    Os EUA podem tomar essas medidas porque têm uma moeda autónoma. Nós (e os demais Europeus) fizémos o mesmo pré-Euro, agora cada país está impedido de fazer isso porque tais medidas são determinadas pelo Banco Central Europeu. E essa história de Itália não me parece nada credível.

    • rui diz:

      Também não acredito muito (embora o tenha lido algures). No entanto, foi uma forma (talvez caricaturesca) de explicar (com um exemplo) de que forma a quantidade de dinheiro em determinada zona económica pode influenciar no poder de compra e na qualidade de vida das pessoas.

      Imagina, hoje em dia quem trabalha trabalha tanto como antigamente. No entanto, tem muito menos poder de compra, os salários quase não dão para pagar as despesas e pouco sobra para o “conforto”. O facto que me impressiona é trabalharmos o mesmo para termos salários mínimos. Se houvesse maior quantidade de notas e moedas (literalmente) em circulação e se esse dinheiro fosse bem distribuído, a moeda iria valer muito mais relativamente às moedas estrangeiras, os salários eram forçosamente aumentados, o nível de vida das pessoas iria melhorar, etc.

      Dei o exemplo da máfia italiana, que falsificando notas e fazendo-as circular terá tido exactamente o mesmo efeito que a estratégia americana para a sua economia, que foi aumentar a quantidade de notas e moedas (como que por assim dizer, por cada residente em solo americano). E o facto é que, pelo menos para os americanos, isso resultou e poder-se-á verificar na subida do preço do dólar face a anos anteriores.

      Podíamos fazer isso em Portugal, como o podíamos fazer em toda a Europa. A produção de moedas e notas também não deverá ser assim tão cara…

      O que defendo fundamentalmente é a criação de uma boa estratégia para a distribuição da moeda.

  3. zécas diz:

    se há mais notas e moedas a divisa vale menos

    • Mas se há mais notas e moedas e se estas forem bem distribuídas em todas as áreas ou departamentos os desempregados, por exemplo, passam a ganhar mais no seu subsídio de desemprego, e toda a população passa a ter mais dinheiro para arranjar novos empregos e para gastar em coisas úteis, no conforto e no seu próprio bem estar. A curto ou médio prazo, as vendas aumentam, os preços descem (devido à concorrência) e o mercado avança acelerado. Se as empresas ganham muito mais lucro, aumenta o valor das suas acções. E se o valor das acções de um país, ou União de países ou estados, aumentam a divisa acaba por valer muito mais. Os resultados nunca serão imediatos. 😉

      Depois de as pequenas e médias empresas evoluírem para “grandes”, o passo seguinte são as exportações. E as exportações de produtos dão origem à “importação” da moeda. Ou seja, ao vendermos para fora ganhamos cá dentro, os bancos ficam com contas mais recheadas, as empresas crescem ainda mais, os salários aumentam, o poder de compra aumenta e há mais vendas… e por aí fora, como numa bola de neve.

      O dinheiro faz girar o mundo e quanto mais dinheiro houver mais rápido o mundo gira e evolui. 🙂

      Pelo menos com os EUA isso resultou.

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