The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Mulheres, Crianças e Mercado Primeiro

Depois de anos no ensino superior, já me devia ter habituado a ver adultos a peguilharem interminavelmente pelo pouco dinheiro que vem de cima enquanto vão tentando viver acima do orçamento, tal como nos bons velhos tempos. Agora, com a ameaça de cortes nos apoios à cultura, é o salve-se quem puder. Artistas, comissários, galeristas, críticos, gente habitualmente mais cautelosa e calada do que uma cortesã no Japão feudal começou a reclamar timidamente – mas em público (uma novidade) – pelos seus direitos. É como um naufrágio, onde toda a gente tem uma razão de peso para entrar nos salva-vidas que, como manda a tradição, não são suficientes.

Esta semana por exemplo, escrevendo no seu blog, Alexandre Pomar defende que a lógica actual dos apoios à criação fragiliza “intencionalmente ou não, o mercado de arte e as suas estruturas profissionais, as galerias de arte, cuja sustentação é essencial ao funcionamento da economia da arte e dos artistas”, acrescentando que o “subsídio ao ‘projecto’, à intervenção/instalação, à obra efémera, à ‘residência’, estimula e condiciona um tipo de ‘criação’ que apenas ilude o confronto dos jovens artistas com a realidade do mercado da arte: o artista é também um produtor de objectos transaccionáveis.”

Não há nenhum mal em defender as galerias, que calculo estejam a passar um mau momento, mas é mesmo preciso fazê-lo restringindo os artistas aos formatos que uma galeria pode vender confortavelmente? Nenhum dos formatos que Pomar rodeia tão desconfiadamente de aspas ilude “o confronto dos jovens artistas com o mercado da arte” – aliás, boa parte dos artistas que se dedicam a esses formatos têm também os seus galeristas, para quem produzem os tais objectos transaccionáveis.

É evidente que se pode contra-argumentar que os artistas deveriam ter liberdade para fazer o que lhes apetece, mas Pomar não acredita na autonomia da arte, na irresponsabilidade da arte, que considera ser “uma deriva essencialista da estética kantiana e das teorias especulativas.” Porém, e curiosamente, sustenta que é possível separar o mercado da arte do que ele chama o mercado do luxo, da especulação e do lazer; ou seja, que é possível voltar a um mercado da arte idealizado, limitado às galerias e às leiloeiras, onde os verdadeiros apreciadores compram e vendem, não pelo valor especulativo ou de entretenimento, mas pela qualidade intrínseca dos objectos. Seria este mercado da arte que o Estado deveria sustentar, incentivando os artistas a produzirem arte que se adeque a ele.

Resumindo, Pomar é contra a arte pela arte, mas é a favor do mercado da arte pelo mercado da arte. No fundo, defende a autonomia do mercado da arte, desta vez subsidiada pelo Estado. Esse mercado da arte que, antes da crise, tão diligentemente imitou  e monumentalizou o mercado em geral (cujas aspirações de autonomia provocaram esta crise e que acabou por recorrer ao Estado, de quem dizia tão mal, para se safar). Talvez fosse interessante – e até inteligente – o Estado começar a subsidiar um tipo de arte que por princípio não queira dar cabo dele; nos tempos que correm, até podia ser um bom exemplo, quem sabe.

Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Economia

4 Responses

  1. anónima diz:

    Mas os velhinhos já não gostam de kant?

  2. anónima diz:

    Mas não há pais de artistas neste governo?

  3. […] último, Alexandre Pomar respondeu ao texto onde eu discordava das suas posições no que diz respeito aos apoios à criação sugerindo que eu […]

  4. […] para uns que para outros: autonomia da arte e autonomia dos artistas são coisas diferentes e há quem seja a favor da primeira e não da […]

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