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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Os Artistas-Mercadores

John Evelyn em 1641 (via)

Há tantas maneiras de lembrar como o mercado da arte é apenas uma extensão do mercado económico que se pode até escolher as mais sórdidas, as mais científicas ou as mais bonitas conforme a ocasião. Nesta última categoria, por exemplo, ficou-me na cabeça uma citação que encontrei há uns anos num ensaio de E. H. Gombrich sobre os usos decorativos da pintura. Tirada dos diários de John Evelyn, escritor e jardineiro de renome, descreve a sua chegada a Roterdão em 13 de Agosto de 1641:

“Chegamos tarde a Roterdão, onde estava a decorrer a feira ou mercado anual, tão guarnecida de pinturas (especialmente paisagens[ …]) que fiquei maravilhado. Algumas delas comprei e enviei para Inglaterra. A razão para esta quantidade de imagens tão baratas deriva da falta de terra onde aplicar o capital, tanto que é habitual um vulgar agricultor gastar duas ou três mil libras nesta mercadoria. As suas casas estão cheias delas, e vendem-nas nas feiras com muito lucro.”

Ou seja, num país como a Holanda do século XVII, onde não havia muitas propriedades disponíveis para alimentar o mercado especulativo, a compra e venda de imagens de terras surgia assim como uma extensão natural desse mesmo mercado.

Significativamente, na altura em que Evelyn a visitou, a Holanda era um dos locais mais prósperos – e economicamente mais inovadores – do mundo. Em Amesterdão, tinha sido criada em 1602 a primeira bolsa de valores moderna, tendo sido criado o primeiro banco de câmbios moderno sete anos depois; o mercado da arte florescente que Evelyn testemunhou era sem dúvida uma consequência directa da prosperidade económica trazida por estas invenções financeiras, antepassadas não muito distantes da economia actual, cujas inovações sustentam e são espelhadas pelo nosso próprio mercado da arte.

Se alguma coisa mudou drasticamente desde a época de Evelyn, foi o à-vontade com que um conhecedor pode chamar “mercadoria” a uma pintura – hoje, isso seria visto como uma provocação, gafe ou declaração ideológica. Mas considerando que uma mercadoria, por definição, é algo produzido com o fim de ser trocado ou vendido, a designação continua a ser tão justa agora como quando Evelyn a usou. Mesmos os formatos mais exóticos – tudo o que se costuma chamar arte conceptual, por exemplo – encontraram sempre o seu mercado, tornando-se em outras tantas mercadorias, mais ou menos inovadoras comercialmente.

O mercado da arte no seu sentido restrito – arte produzida por artistas formados em escolas de arte, legitimados pela crítica, pelo Estado e pelo próprio mercado – cobre uma procura muito específica, nomeadamente as necessidades de legitimação do Estado através da criação e administração de um património cultural ou do investimento de particulares com vista a valorização especulativa. À volta deste mercado, surgem outros, que ocupam nichos que a arte deste tipo não pode, pela sua lógica interna, satisfazer directamente: a arte aplicada como um serviço, no caso do design ou da arquitectura, por exemplo. A relação entre estes diferentes nichos não é estática e há uma competição constante pelo seu domínio. Nos últimos anos, tanto na arquitectura como no design tem surgido uma apropriação de formatos vindos da Arte com A grande – instalações, performances, residências – que funciona como uma alternativa a esta, quando não é possível, expediente ou rentável sustentar toda a legitimação que a arte propriamente dita exige.

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Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Design, Economia

2 Responses

  1. Dário Cannatà diz:

    Essa apropriação por parte da arquitectura e do design dos formatos da Arte fazem-me bastante confusão. Porquê continuar a chamar essas instalações, permormances e residências de design ou arquitectura? Porque não pode um designer ser um pintor ao domingo e escultor quando fizer calor? Tudo o que o designer faz, parece que tem de se enquadrar nas suas habilitações académicas.
    E será que esta perspectiva não faz com que se percam certos valores do design? Tendo em conta as funções do design perante a sociedade, será a arte a sua melhor aposta?

  2. […] holandeses têm uma longa tradição de arte paisagista que alguns observadores mais atentos relacionam com a escassez da terra – como não tinham terras suficientes com que especular, […]

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