The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Designers que fazem design sobre designers

Embora o trabalho de design e promoção em torno da exposição We Are Ready for our Close-Up[1] seja a todos os níveis bastante melhor que o habitual, ainda assim tenho ouvido algumas críticas, em particular ao destaque dado às fotografias dos participantes (interpretado por algumas pessoas como mero exibicionismo) e aos recursos que se ocupou a reproduzi-las, tanto nos posters como nas páginas de abertura do catálogo (recursos esses que poderiam ser usados, por exemplo, numa reprodução mais apurada dos trabalhos expostos).

Pessoalmente, prefiro perceber qual é a função que estes retratos cumprem dentro do contexto particular desta exposição do que atribuí-los levianamente a um desejo de auto-promoção ou de vaidade, resvalando deste modo para a posição, infelizmente bastante comum, de criticar uma exposição apenas porque expõe, de desvalorizar a promoção publicitária porque promove, de rejeitar um auto-retrato porque é egocêntrico ou um western porque se passa no Velho Oeste.

De modo semelhante, também seria possível arrumar estes auto-retratos como mais um dos tiques da geração myspace, youtube, twitter ou facebook, habituada a fotografar-se a si mesma e a publicar essas imagens sempre que possível. As primeiras páginas do catálogo resumir-se-iam assim – e literalmente – a um facebook, um livro de caras. Mas, mesmo assumindo que existe agora uma geração mais auto-centrada do que outras – isso é discutível –, ela produzirá sem dúvida auto-retratos piores ou melhores, adequados ou gratuitos. O rótulo geracional é por vezes uma generalização eficaz, mas não nos liberta de uma análise mais fina, que permita perceber como um determinado objecto se integra no seu contexto, sem cair no preconceito ou na condescendência.

Entretanto, já tinha referido em outros textos[2] que os jovens designers do Porto recorriam frequentemente ao auto-retrato e mesmo à autobiografia, que isto acontecia sobretudo quando se promoviam a si mesmos como DJs, artistas ou músicos, mas também quando representavam a sua própria identidade enquanto designers[3]. Deste modo, e por necessidades de mercado, acabavam por contornar regularmente a velha regra pela qual um designer nunca deve falar de si mesmo ou representar-se no seu próprio trabalho – uma regra que parece existir apenas para ser quebrada, não apenas por designers mais exibicionistas como Sagmeister, que tende a aparecer nu e/ou auto-flagelado em muitas das suas produções, ou por Barney Bubbles que escondia caricaturas abstractas dele mesmo nas suas capas de disco, mas por todos os designers que já publicaram livros sobre a sua própria obra (ou seja: praticamente todos os que são conhecidos). Sobre este assunto, a reacção tende a ser mais moralizadora e prescritiva – ralhetes e abanares de dedo – do que propriamente crítica, o que dificulta bastante a tarefa de perceber o modo como os designers constroem a sua identidade através do seu próprio design. É um assunto complicado, que nunca será possível desenvolver de modo satisfatório num texto curto como este.

No caso do Close-Up, a estratégia de usar uma imagem fotográfica a cores da cara de uma pessoa numa escala relativamente grande vai contra as estratégias de comunicação gráfica usadas habitualmente em cartazes ou publicações independentes no Porto, que, por economia ou opção estética (em geral, as duas) se resumem à reprodução a uma ou duas cores, preferindo quase sempre recorrer a soluções tipográficas, usando ou não ilustração, e evitando por regra a fotografia encenada de propósito (tudo isto é apenas uma forma exaustiva de constatar o óbvio: a estratégia funciona porque não é comum).

Também se distingue das estratégias habituais na medida em que anuncia uma exposição mostrando, não obras ou um título e uma lista de participantes, mas um conjunto de retratos fotográficos dos participantes, sem contudo os identificar directamente como tal. Para quem os conhece – colegas e professores –, a identificação é imediata; para quem não os conhece, funcionam como representações anónimas, mas não exactamente genéricas, do que poderá ser um aluno das Belas Artes do Porto.

Não são genéricas porque o grau de pormenor da reprodução fotográfica, que deixa ver cada pêlo da barba, cada poro, cada malha do tecido, torna cada um dos retratos específico, personalizado; ilustra de um modo literal o título do evento, mostrando que estas pessoas estão realmente preparadas para a exposição rigorosa que um grande plano exige. Em contraponto, o fundo comum em tom salmão dá-lhes uma unidade de série, tornando-as levemente abstractas, subordinando-as à imagem gráfica da exposição e reforçando o anonimato relativo do modelo. Também aqui o contraste entre o anonimato dos modelos e o escrutínio a que são sujeitos ilustra um limiar, uma fronteira: estão preparados e disponíveis, mas será que alguém os quer?

Quanto ao outro motivo de queixa: reservar mais recursos à sua apresentação do que ao seu conteúdo, gastando um caderno na reprodução das fotografias de página inteira dos participantes e organizadores, ocupando assim a primeira parte do catálogo como se fosse a sequência de abertura de um filme; não é coisa que me chateie, antes pelo contrário.

Quando se produz um catálogo ou uma exposição há duas grandes estratégias: enfatizar a obra ou enfatizar a apresentação da obra. Do lado de quem produz os conteúdos, fotógrafos, artistas, etc., a segunda opção será sempre pouco popular: hão-de querer o seu trabalho reproduzido com uma margem branca de segurança à volta, sem cortes, sobreposições ou reenquadramentos. Mas esta nem é sempre a melhor opção.

Todas as exposições ou catálogos são, de um modo mais ou menos explícito, um acto de reenquadramento em relação a um conjunto de obras, que se pode tornar, em casos mais extremos, num acto de apropriação, que pode contrariar inclusive as intenções originais do artista. Mesmo o espaço branco e rarefeito de um museu só é neutro através de actos de apropriação selectiva que subtraem os objectos ao seu contexto de origem – arte religiosa originalmente produzida para contextos votivos isolada sobre as paredes brancas de um museu, por exemplo.

De qualquer modo, o que se considera ser uma apresentação neutra muda conforme o tempo. Lembro-me de um texto de E. H. Gombrich onde ele se espantava por haver pessoas mais velhas que preferiam ter em casa reproduções de arte a preto e branco. Para elas não se tratava de ter uma reprodução absolutamente fiel, mas de evocar a memória de uma obra de arte que tinham visto ao vivo, não lhes passando pela cabeça tentar reproduzir essa sensação nas suas casas através de uma cópia. Actualmente, por contraste, a imagem a preto e branco de uma obra a cores só é usada quando não há alternativa.

Finalmente, um catálogo pode dar a ideia de uma embalagem neutra, recorrendo a margens brancas, marcando bem a diferença entre texto e imagem, legendas e texto principal, respeitando as hierarquias habituais da introdução, textos de apresentação das obras, reprodução das obras – ou baralhar as expectativas em todas estas questões. Numa exposição que é, assumidamente, também ela um trabalho exposto, tanto de comissariado como de design, é natural que se exponham também os processos de trabalho, chamando a atenção para o próprio design do livro e levando-o a abandonar a sua neutralidade.

Às vezes, as coisas mais óbvias ficam por dizer – comenta-se que tal designer (ou objecto de design) é interessante apesar disto ou daquilo, e são estas características, entendidas à primeira vista como defeitos, que mais interessam.


[1] Já falei dela aqui. Também se pode consultar um texto de José Bártolo sobre ela aqui.

[2] Aqui e aqui, por exemplo.

[3] A minha única queixa em relação ao futuro livro Homenagem à (Nova) Emoção, que trata destes DJs/Designers, é concentrar-se mais nas ferramentas técnicas usadas para produzir este estilo (presets de programas de computador, por exemplo), do que nas suas características formais e temáticas, onde a auto-representação é recorrente (curiosamente, um dos autores deste livro é também o aluno que aparece no poster de divulgação do Close-Up).

Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Design, Exposições, Publicações

5 Responses

  1. Márcia diz:

    A identidade do close-up passou sempre pelas fotografias dos alunos. Foi criada uma ordem – costas, perfil, três quartos e frente – para marcar as fases em que o projecto está/estava. Sendo a tradução literal do close-up grande plano, sem evocações à Norma Desmond desta vez, decidimos que a identidade iria ser os retratos, em que o recurso a tipografia podia ser alterado, sem que o enquadramento da imagem pudesse ser mudado.

    Tal como no catálogo, desdobrável, cartaz ou site, as fotografias – e o salmão – foram a base de todo o trabalho. Se no cartaz, desdobrável ou site funciona como uma carte-de-visite aos alunos e à escola, no catálogo funciona muito mais como yearbook, dado que grande parte dos participantes na exposição foram fotogrados.

    Em relação ao caderno das obras, por questões orçamentais, teve de ser impresso a uma cor. A diferença monetária entre o primeiro caderno impresso a quatro cores e a uma cor era mínima por ser, precisamente, apenas um caderno. E ainda, o salmão é uma cor directa e o caderno dos textos foi impresso a duas cores – porque já ouvi dizer que “gastamos a cor toda no caderno dos textos”.

  2. Quanto à nota de rodapé que fizeste sobre o futuro livro de homenagem à Nova Emoção.
    Não é muito difícil perceber que a temática da Nova Emoção é mais que a auto-representação. A Nova Emoção é um estilo altamente politizado. As ferramentas técnicas (do design acessível), as decorações de natal (de que o povo gosta), o “cool” como oposto à apatia relativista, o feio, a crítica ao design que mimetiza sem compreender a essência, a economia, a construção de público e de linguagem comum a esse público… tudo isso são conteúdos investigados e desenvolvidos pela Nova Emoção. As ferramentas técnicas acabaram por ser mais debatidas, mas a relação entre público activo e passivo também lá aparece… calhou mais assim mas podia ter calhado mais de outra forma. Era difícil perceber sobre o que iriam escrever os convidados.

  3. Silvia diz:

    Li este texto há algumas semanas, e não pude deixar de concordar com o escrito.
    Engraçado encontrar agora este catálogo na Cargo, também de alunos finalistas, mas vindo da Holanda, com exactamente a mesma fórmula (pelo menos para a capa). http://portfolio.andriesreitsma.nl/#520232/Bachelor-Graduation-Catalog-2010
    Coincidência curiosa.

  4. Calypso diz:

    Sim, o artista egocentrico e exibicionista, que gosta de aparecer. Um produto da sociedade dos nossos dias. Porque todos sabemos (e quem não sabe aprende) que antigamente o artista era um gajo humilde e discreto, que fazia apenas retratos sob encomenda e caricaturas dos amigos.

  5. Tal como no cartaz foram a base de todo o trabalho.

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