The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Cravanço

(via)

Nos velhos tempos do escudo, alguns supermercados tinham a politica de ficar a dever troco miúdo. Era comum chegar-se à caixa e a senhora perguntar se “não podia ficar a dever” um ou dois escudos. Tendo em conta que antes do euro era legal fazer preços impossíveis de traduzir em moeda real (12.342, por exemplo), não era difícil dar de caras com um arredondamento que, na maioria das vezes, revertia a favor do super, e que podia ser duplicado ou triplicado impondo a dívida de um ou dois escudos ao cliente. Naturalmente, se disséssemos que não, estaríamos a atrasar a fila, dando problemas a toda a gente, tudo por causa de um mísero escudo – era a mesma coisa que admitir publicamente a nossa forretice. Finalmente, tendo em conta que não havia registo da dívida, não havia grande hipótese de recuperar o dinheiro “emprestado”. Como isso acontecia em diferentes supers e com várias funcionárias fui assumindo que esta suave chantagem emocional se tratava de uma política da casa que, diariamente, dava um bom lucro sem qualquer tipo de gasto.

A política não era simétrica, como é evidente. Quando era a mim que me faltavam os trocos, lá ficava toda a gente na bicha à espera que eu conseguisse escavar um ou dois escudos do bolso. Só muito raramente a senhora se oferecia para me deixar ficar a dever um escudo e só mais raramente ainda o pedi – mais uma vez, preferia não demonstrar em público a minha pelintrice de estudante. De resto, não me espantaria que os funcionários fossem obrigados a repor o dinheiro em falta. Assim, o super, graças a esta chico-espertice contabilística, ia capitalizando à custa dos meus escrúpulos, que é como quem diz, da minha moral. Escudo a escudo a minha confiança infantil nas instituições, ensinada a custo pelos meus pais, ia sendo erodida, revelando o subsolo árido da minha desconfiança adulta em relação a elas.

Entretanto, chegou o euro e acabaram-se os preços com três casas decimais. Comecei a trabalhar e a pagar impostos. Lá para o fim do Verão, ou seja, em Setembro, habituei-me a receber uma carta, sempre bastante atrasada, a dizer que o Estado me tinha reembolsado umas tantas centenas de euros de impostos. Era fixe, dava para comprar uns livros, arranjar a máquina de lavar, juntar para um computador novo porque o anterior tinha pifado – esse tipo de coisas. Este ano a carta chegou cedo e só dizia que o meu reembolso era demasiado pequeno para ser efectivamente reembolsado. Ou seja, o Estado ficou-me com o troco! Eu sei que os tempos estão difíceis e que muita gente tem que pagar bastante mais impostos que eu – nem me devia estar a queixar –, mas, precisamente pela dificuldade dos tempos, o troco até me dava jeito. Invertendo-se os papeis, tenho a certeza que o Estado não seria tão bondoso como eu. Lembro-me de casos – daqueles que aparecem no Portugal no seu Melhor – onde um contribuinte foi punido duramente por não ter pago a tempo um cêntimo. Enfim, não me chateia pagar impostos (na verdade enquanto funcionário público não tenho outro remédio), mas chateia-me que me fiquem com o troco.

Filed under: Economia, Não é bem design, mas...

5 Responses

  1. Luís Ferreira diz:

    Nos dias de hoje a confiança nas instituições públicas nacionais não está com os níveis muito elevados, mas uma “cartinha” a reclamar o troco é um bom princípio – mesmo que o acto de enviar uma carta registada implique um valor mais alto do que o troco 😉

    • Não fica mais alto e pensei nisso, mas como a carta das finanças sublinha, o acto de ficarem com o reembolso se for abaixo de um certo limite (que não referem) está consagrado na lei.

  2. rui diz:

    Ainda vais com sorte… Eu fiquei de pagar em vez de receber… Ainda não me convenci de que tenho de largar os recibos verdes e partir para outra. E a segurança social é que anda bem quieta no seu sítio, senão eu já estava encrencado há muito. Só para dar uma ideia, desde que comecei a trabalhar até hoje ainda não paguei nada de segurança social e as contas se fossem feitas já iam nos 3000 e tal euros… Acontece que nunca assumi essas contas porque não acho que deva pagar quando não tenho nem sequer lucro suficiente para isso. Se ganho 600 ao mês, tenho de entregar 20% de IRS e ainda 160 por mês à segurança social, o que faz com que eu fique apenas com 330 euros, que é praticamente metade do que ganho.
    Qualquer diz arrisco e vou para o Dubai, onde não se paga impostos nem seg. social. Lá o que se ganha ganha-se por inteiro. 🙂

    • Luís Ferreira diz:

      Rui, quando chegar a hora certa a Segurança Social vai-te cobrar tudo direitinho e com juros (e não são baixos). Não te fies muito no silêncio deles!
      Se deste início de actividade nas finanças não lhes escaparás…

  3. rui diz:

    Dizia-se mal da monarquia quando esta aplicava a lei do dízimo… Mas isso comparado com o que o estado nos pede actualmente é absolutamente insignificante… Se vivêssemos nos tempos monárquicos eu só teria de pagar 60 euros por mês. Ao mudarmos para o sistema democrático só viemos a piorar as coisas ainda mais.
    Mas mais do que o governo, quem manda são mesmo as grandes empresas e instituições bancárias, pois são elas que determinam se o que ganhamos vale ou não alguma coisa.

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