The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Suspense

Àquela hora da madrugada, cerca das quatro e meia, quando o organismo está mais em baixo e são comuns as insónias de quem tende para a depressão crónica, não duvido que muitos artistas e designers acordem sobressaltados e de estômago tenso. Não por causa de algum tipo de obsessão estética – pesadelos à David Lynch ou paisagens à Hieronimus Bosch – mas algo mais simples, mais prosaico, mas também mais assustador: a Segurança Social[1].

Fui-me habituando a ouvir histórias de amigos e conhecidos que vão devendo cinco, dez anos de prestações. Alguns foram sendo apanhados, tendo que pagar os valores em atraso; outros vão-se aguentando, com os tais ataques de insónias às tantas da manhã. O enredo do drama é quase sempre a mesmo: em início de carreira, faz-se um ou outro trabalho a recibos verdes que não chega para cobrir a prestação mensal obrigatória à Segurança Social. Depois outro e mais outro e, com o tempo, a dívida vai-se acumulando, à espera de dias melhores ou de uma inspecção – o que acontecer primeiro.

No caso dos artistas, pode ser que tenham sorte e arranjem um daqueles empregos ligados marginalmente às artes e que ainda vão dando dinheiro – dar aulas no ensino secundário ou superior, trabalhar num serviço educativo, gerir uma instituição, museu ou qualquer outro ganha-pão que lhes permita ir pagando as prestações actuais ou atrasadas.

Se tiverem mesmo muita sorte e, antes mesmo do primeiro recibo verde ganharem uma bolsa de investigação ou de estágio onde o desconto para a Segurança Social seja opcional podem adiar o problema durante mais uns anitos. Já me cruzei com pessoas assim, que concorrem a uma bolsa atrás da outra como quem salta de liana em liana. Se as bolsas deixam de vir, nem subsídio de desemprego têm. E se conseguirem aguentar-se assim até à idade da reforma, de que vão viver?

A longo prazo, tem mais sorte quem arranjou um emprego marginalmente ligado às artes que assegure a sua reforma, o que coloca uma questão importante, que foge um pouco ao assunto, mas que importa talvez sublinhar. O nosso sistema das artes favorece quem tem dois ou mais empregos que sustentem as suas carreiras enquanto artistas, comissários ou críticos, ao ponto de excluir quem não os tiver. No entanto, ter dois empregos, próximos um do outro, é uma porta aberta aos conflitos de interesse – que é com certeza uma das características, se não mesmo a característica, das nossas instituições culturais.

É comum ouvir a boca – em especial por parte de quem está ligado a grandes instituições – que a marginalidade nem é má para as artes ou para os artistas, dando a entender boémia, prédios devolutos e DJs, mas a ausência de uma política condigna de financiamento incentiva a uma falta de ética sistemática nas artes e torna-as, apenas e de alto a baixo, numa versão snob do “salve-se quem puder e cada um por si” que se vê por todo o lado (política, câmaras, futebol, etc.) – ou seja, marginais, é certo, mas no sentido em que a palavra é usada no Brasil.


[1] Se algum dia houver um Globo de Ouro para a expressão mais irónica, tenho a certeza que Segurança Social será uma das vencedoras – nos anos em que não ganhar o Ensino Superior ou o Governo.

Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Design, Economia, Política

One Response

  1. Duarte diz:

    parabéns pelo post!
    finalmente uma questão prosaica, mas determinante para quem vivem do que faz!
    os aspectos teóricos são importantes, mas o pão também 🙂

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