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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Ciclo Vicioso

Um dos desenvolvimentos mais curiosos desta crise económica, em particular no que diz respeito à cultura, é o modo como muita boa gente que defendia a privatização da cultura se dedica agora a pedinchar ao Estado por um subsidiozito [1]. Não falo, é claro, dos artistas, mas de galeristas, museus, fundações, etc. Não seria grande novidade acusar artistas de pedir subsídios, embora muitos deles também se recusem a pedi-los, acreditando que se podem sustentar através da sua própria arte. Enquanto não conseguem, vão trabalhando como funcionários para o mesmo tipo de instituição que agora pedincha o tal subsídio. Ou então para escolas, claro, sobre as quais não se pode dizer que andem atrás de subsídios, apenas de mais financiamento. Ou, na falta disso, de menos cortes. O remédio, neste caso, acaba por ser deixar entrar mais alunos, que pagam mais propinas. O problema é que acabam por sair. Numa escola de arte, isso dá origem – não a artistas, porque a arte, segundo alguns, não se ensina – mas a outra coisa qualquer, vamos chamar-lhes aspirantes a artista. Esses, enquanto não são artistas, vão fazendo as suas coisas que ainda não são arte, e enquanto não são pagos para a fazerem, vão-se sustentando, a si e às suas carreiras, através de empregos nas tais instituições que vão pedindo subsídios ao Estado para, entre outras coisas, lhes pagar. Ou então para escolas, que precisam de mais alunos para lhes poderem pagar. É um ciclo vicioso, claro, mas como evitá-lo? Muitos dirão: dando menos subsídios e pondo os aspirantes a artista a trabalhar a sério, mas o ciclo funciona precisamente porque não se financia directamente a arte mas as instituições que pagam a artistas para fazerem outra coisa qualquer.

Seria bom perguntar se dar preferencialmente dinheiro a estas instituições está a melhorar a arte portuguesa ou a relação dos portugueses com a cultura. Mas em vez disso argumenta-se que dar-lhes dinheiro é a única maneira de sustentar o mercado de arte, sugerindo mesmo que os artistas ainda deviam ser mais incentivados a produzir arte propositadamente para elas. É um argumento circular: as instituições – galerias, museus, fundações – são o mercado da arte; dar-lhes dinheiro e salvar o mercado da arte é a mesma coisa. Porém, essa salvação é apenas económica e, como é evidente, não chega: salva-se o mercado mas não se salva necessariamente a arte.

Em boa verdade, as instituições nem precisam de artistas para funcionarem – se exceptuarmos aqueles que são contratados para fazerem outras coisas que não serem artistas. Basta-lhes posicionarem-se no mercado internacional, alugando exposições, peças ou artistas já mais ou menos digeridos – as melhores dedicam-se quase todas a este modelo de importação. Não é assim tão mau, porque assim podemos dar uma olhadela a coisas que há uns anos só poderíamos ver em Paris, Londres ou Nova Iorque – aprende-se muito e poupa-se em viagens. No entanto, tudo isto ilude o facto que muito pouca gente acreditaria que as instituições ou as escolas portuguesas conseguem formar, manter ou legitimar artistas de jeito. Boa parte da legitimação é deixada ao circuito internacional – ao nível nacional faltam as estruturas intermédias que se encarreguem de promover os artistas emergentes, locais, etc. Trata-se efectivamente de consumo e não de produção – mas não é isso que se faz por cá, não é isso que nos caracteriza? Poder-se-ia esperar outra coisa das artes portuguesas e das suas instituições?


[1] Não se trata sequer de falta de coerência, apenas de cinismo institucional: as parcerias público-privado, por exemplo, sempre foram subsídios, através dos quais dinheiros e meios públicos são postos ao serviço de uma gestão privada, retirando-os subtilmente do domínio público. Mesmo a parte privada da parceria só participa porque é atraída através de reduções de impostos, o que, mais uma vez, se traduz efectivamente em menos dinheiro para ser gerido publicamente. Em qualquer um dos casos – parceria e mecenato –, o Estado está a subsidiar com dinheiros de impostos o gosto de entidades privadas. A única diferença entre estes subsídios – que nunca são tratados por esse nome – e os subsídios normais é que são dados preferencialmente a empresas e fundações de grande escala e não a artistas individuais ou pequenas associações. Trata-se efectivamente de subsidiar uma cultura empresarial tanto na forma como no conteúdo.

Filed under: Arte, Crítica, Cultura

2 Responses

  1. rui diz:

    Em Portugal falta muito aquilo que lá fora já floresce há muito. Lá fora um artista – ou aspirante a artista – pode ser apoiado por instituições bancárias, tal como o são os empresários em Portugal. Esse apoio resume-se a empréstimos bancários. Por outro lado, existem ainda imensas instituições e fundações no estrangeiro que apoiam artistas, seja pintores, escultores, arquitectos ou designers, músicos, etc. etc. E cada fundação com a sua especificidade artística. Depois ainda existem o chamados Mecenas, que abundam nos países mais desenvolvidos do mundo.

    Podemos dizer que em Portugal o “Mecenas” é um mito nos dias de hoje ou que só existiu por cá há uns séculos atrás. Mas a verdade é que eles existem um pouco por todo o mundo, menos em Portugal. O Vaticano ainda continua o seu bom “Mecenato” contratando todos os anos artistas e restauradores de arte com o intuito de manter e aumentar o seu espólio artístico, cuja função primordial será a divulgação e acentuação da Igreja como instituição e religião em todo o mundo.

    Outros mecenas que podemos descobrir são dirigentes de grandes multinacionais que, depois de não haver mais nada em que possam investir, acabam coleccionando todo o tipo de arte em galerias e museus privados ou mesmo numa grande galeria em sua própria casa. Outros, são eles mesmos artistas cujo sucesso os levou a grandes fortunas e acabam por investir em arte – normalmente de géneros artísticos diferentes dos que eles mesmos fazem. São actores, realizadores de cinema e televisão, designers de joias, estilistas, etc.

    O que falta em Portugal muito dificilmente iremos ter actualmente… Talvez daqui a alguns séculos?!

    Uma coisa é certa… Muitos artistas portugueses têm-se lançado no estrangeiro, acabam por lá ficar durante muitos anos ou até mesmo para toda a vida – são poucos os que regressam a Portugal. Porque o que eles procuram nós não podemos dar. E podia-se fazer algo em relação a isso.

  2. Li diz:

    Morro de inveja de ti! Estás sempre concentradíssimo na tese mas consegues fazer milhares de outras cenas fixes ao mesmo tempo! 😉 Beijitos!

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